{"id":2056,"date":"2017-03-17T23:02:45","date_gmt":"2017-03-18T02:02:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2056"},"modified":"2017-03-17T23:02:54","modified_gmt":"2017-03-18T02:02:54","slug":"negras-raizes-a-saga-de-uma-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/03\/17\/negras-raizes-a-saga-de-uma-familia\/","title":{"rendered":"&#8220;NEGRAS RA\u00cdZES &#8211; A Saga de uma Fam\u00edlia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Quem ainda n\u00e3o leu deve ler \u201cNegras Ra\u00edzes \u2013 A Saga de uma Fam\u00edlia\u201d, do escritor norte-americano Alex Haley, para compreender melhor como se deu a escravid\u00e3o nos Estados Unidos a partir do s\u00e9culo XVIII at\u00e9 a assinatura da emancipa\u00e7\u00e3o dos negros em 1865 pelo presidente Lincoln.<\/p>\n<p>A obra foi o maior sucesso de todos os tempos na TV e come\u00e7a contando a hist\u00f3ria de um negro livre nascido na G\u00e2mbia, chamado Kunta Kinte, que foi \u00e0 mata cortar uma \u00e1rvore para fazer um tambor e terminou sendo capturado pelos homens brancos, os toubobs. Acorrentado e torturado,\u00a0 atravessou todo o Atl\u00e2ntico num navio negreiro.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/IMG_3136.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2057\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/IMG_3136.jpg\" alt=\"IMG_3136\" width=\"250\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/IMG_3136.jpg 250w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/IMG_3136-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Alex Haley, o autor, \u00e9 o pr\u00f3prio descendente desta fam\u00edlia que vivia livre com seus h\u00e1bitos e costume nas florestas da costa ocidental africana e, como tantos outros escravizados, sofreram horrores nas m\u00e3os dos patr\u00f5es, os massas, nos Estados Unidos. Toda saga da fam\u00edlia come\u00e7a na primavera de 1750, na aldeia de Juffure onde nasceu um filho homem para Omoro (filho de Kairaba Kunta Kinte) e Binta Kinte, chamado de Kunta.<\/p>\n<p>Para escrever o livro, Haley foi v\u00e1rias vezes a G\u00e2mbia, terra dos mandingas, conhecer seus primos das gera\u00e7\u00f5es passadas e de l\u00e1 fez o mesmo percurso do Kunta Kinte num navio cargueiro, dormindo de cueca no por\u00e3o para, pelo menos, sentir um pouco do sofrimento dos prisioneiros e poder reproduzir os lamentos dos negros que perderam a liberdade.<\/p>\n<p>Para juntar todas as pe\u00e7as sobre a saga da sua fam\u00edlia, o escritor ouviu tamb\u00e9m as hist\u00f3rias de seus av\u00f3s e av\u00f4s e realizou longas pesquisas em bibliotecas, arquivos p\u00fablicos e jornais da \u00e9poca, localizando at\u00e9 a data e o navio de embarque do seu antepassado, sua chegada nos Estados Unidos e o mercado onde foi vendido. Ao todo foram 12 anos de estudos at\u00e9 a obra ser lan\u00e7ada no meado da d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p><!--more--> Todo este estudo minucioso resultou numa descri\u00e7\u00e3o viva e realista dos fatos, com pitadas de fic\u00e7\u00e3o. Em algumas partes, a obra parece entrar num ritmo enfadonho por causa do detalhismo do autor, mas logo as guerras de separa\u00e7\u00e3o da Inglaterra, a secess\u00e3o (guerra civil), as fugas de Kunta Kinte e as crueldades dos massas levam o leitor a seguir em frente. Numa passagem do livro na Guerra da Secess\u00e3o, Kunta pergunta: \u201cN\u00e3o pensei que os brancos tamb\u00e9m precisassem de liberdade?\u201d<\/p>\n<p>A narra\u00e7\u00e3o de maior impacto, como se o escritor estivesse ali presente vivenciando tudo, foi a travessia de Kunta Kinte e outros 140 negros de tribos diversas no mar do Atl\u00e2ntico, todos acorrentados dentro de um por\u00e3o sujo de excrementos humanos, fedorento e cheio de ratos. As cenas do livro e a reprodu\u00e7\u00e3o das imagens num seriado de TV s\u00e3o muito fortes.<\/p>\n<p>Na abertura, o escritor faz um agradecimento especial aos griots da \u00c1frica e repete um dito popular que diz que, quando um griot morre, \u00e9 como se toda uma biblioteca tivesse sido arrasada pelo fogo. Um griot, que remonta ao tempo em que n\u00e3o havia escrita, \u00e9 eterno como a \u00e1rvore africana Baob\u00e1. Pena que no Brasil esta figura seja uma esp\u00e9cie em extin\u00e7\u00e3o como toda nossa cultura em geral.<\/p>\n<p>Sobre \u201cNegras Ra\u00edzes\u201d, Haroldo Costa cita indaga\u00e7\u00e3o feita por Solano Trindade: \u201cQuem est\u00e1 gemendo? \u00c9 negro ou \u00e9 carro de boi?\u201d. O pr\u00f3prio Costa diz que no Brasil pesquisadores fizeram tentativas semelhantes a de Haley, mas foram esbarradas na falta de documenta\u00e7\u00e3o. Para erradicar de vez a terr\u00edvel mancha, o grande jurista e ministro da Fazenda, Ruy Barbosa, mandou queimar, em 13 de maio de 1891,todo arquivo relacionado com a escravid\u00e3o. Quem diria! Logo o \u00c1guia de Haia! Com raras exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se sabe quais tribos entraram no Brasil.<\/p>\n<p>Na cultura dos mandingas, na G\u00e2mbia, como relata o autor, os homens saiam para preparar os campos para o plantio do amendoim, do milho e do algod\u00e3o, enquanto as mulheres cuidavam das lavouras do arroz, no grande rio \u00a0Kamby Bolongo. Boa parte do livro narra justamente a vida na aldeia Juffure, a liberdade, as dan\u00e7as, festas, cultivos, os conselhos de anci\u00e3os at\u00e9 a captura de Kunta pelos brancos toubobs.<\/p>\n<p>O navio em que levara Kunta Kinte e outros escravos, o Lord Ligonier, partira do rio G\u00e2mbia em 5 de julho de 1767 com 140 homens e mulheres e chegara a Annapolis, na costa do Estados Unidos, em 29 de setembro do mesmo ano, com 98 negros.<\/p>\n<p>Muitos n\u00e3o resistiram e foram jogados ao mar. Kunta foi vendido para o Massa John Waller e recebeu o nome de Toby, mas manteve sua identidade africana at\u00e9 a morte. Tentou fugir quatro vezes e na \u00faltima cortaram metade do seu p\u00e9. Esta \u00e9 s\u00f3 uma parte das atrocidades cometidas pelos brancos, relatadas pelo autor do livro.<\/p>\n<p>Sobre sua experi\u00eancia na viagem de G\u00e2mbia para os Estados Unidos, com a finalidade de melhor escrever a obra, Alex Haley conta que todas as noites, depois do jantar, descia sucessivas escadas at\u00e9 o por\u00e3o inferior, escuro e frio. Apenas de cueca, \u201cdeitava-me no ch\u00e3o durante as dez noites. Procurava imaginar o que Kunta via, ouvia, sentia, cheirava, comia e, acima de tudo, o que pensava\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 claro que minha travessia foi ridiculamente luxuosa, comparada com a terr\u00edvel prova\u00e7\u00e3o de Kinte e milh\u00f5es de outros africanos, acorrentados, aterrorizados espojando-se em suas pr\u00f3prias sujeiras durante 80 a 90 dias, ao fim dos quais havia novos horrores f\u00edsicos e mentais a esper\u00e1-los. Seja como for, escrevi sobre a travessia do oceano da perspectiva real de uma carga humana\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem ainda n\u00e3o leu deve ler \u201cNegras Ra\u00edzes \u2013 A Saga de uma Fam\u00edlia\u201d, do escritor norte-americano Alex Haley, para compreender melhor como se deu a escravid\u00e3o nos Estados Unidos a partir do s\u00e9culo XVIII at\u00e9 a assinatura da emancipa\u00e7\u00e3o dos negros em 1865 pelo presidente Lincoln. 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