{"id":2012,"date":"2017-02-02T23:26:16","date_gmt":"2017-02-03T02:26:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2012"},"modified":"2017-02-02T23:27:09","modified_gmt":"2017-02-03T02:27:09","slug":"no-brasil-dos-mosquitos-e-paralelos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/02\/02\/no-brasil-dos-mosquitos-e-paralelos\/","title":{"rendered":"NO BRASIL DOS MOSQUITOS E PARALELOS"},"content":{"rendered":"<p>Na Idade M\u00e9dia o latif\u00fandio e a burguesia, siameses dos reis, pr\u00edncipes e rainhas, contrastavam com as paisagens sociais rotas e sujas da pobreza e da extrema mis\u00e9ria. V\u00e1rios estados paralelos dominavam o Velho Mundo Europeu. Sem higieniza\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os de saneamento, Londres, Paris, Madrid, Lisboa, Roma e outras capitais viviam infestadas de ratos de todas as esp\u00e9cies que logo propagaram pestes e mortes em massa.<\/p>\n<p>Todo este cen\u00e1rio serviu de inspira\u00e7\u00e3o para o escritor Victor Hugo escrever o cl\u00e1ssico \u201cOs Miser\u00e1veis\u201d. Se nas ruas, casebres, vilas e povoados a degrada\u00e7\u00e3o humana era bem vis\u00edvel e aterrorizante com a fome, quem roubava um peda\u00e7o de p\u00e3o caia nas masmorras fedorentas cheias de bichos. O condenado morria na podrid\u00e3o engolindo baratas. L\u00e1 fora os coches luxuosos transportavam a elite dos pal\u00e1cios para seus teatros, festas de bailes, encontros fortuitos e de neg\u00f3cios regados a banquetes.<\/p>\n<p>Mais de quinhentos anos depois c\u00e1 estamos no Brasil dos mosquitos da Dengue, da Chikungunya, da Zica, da Febre Amarela, da Mal\u00e1ria, dos estados paralelos do terror, das fac\u00e7\u00f5es de traficantes que hasteiam suas bandeiras nos pres\u00eddios medievais dos esquartejamentos, e tamb\u00e9m dos ratos calungas que invadem becos, ruas, casebres e palafitas. Ao lado dos afortunados e poderosos em suas mans\u00f5es, os quais viajam em avi\u00f5es e carros luxuosos, a plebe fabrica seus her\u00f3is de mentira e cria seus falsos reis, pr\u00edncipes e rainhas.<\/p>\n<p>L\u00e1 do outro lado do Atl\u00e2ntico existiu uma derrubada da Bastilha e cabe\u00e7as rolaram durante uma grande revolu\u00e7\u00e3o que durou muitos anos. C\u00e1 perduram os estados paralelos dos poderes dentro de um Estado falido, sem moral e sem \u00e9tica, que pede ao povo para se livrar dos mosquitos nos quintais onde as moradias convivem com esgotos a c\u00e9u aberto, sem saneamento b\u00e1sico e \u00e1gua pot\u00e1vel.<\/p>\n<p>Neste Brasil da prolifera\u00e7\u00e3o dos mosquitos, as regi\u00f5es mais pobres (Norte e Nordeste) s\u00e3o as mais afetadas com doen\u00e7as mortais que at\u00e9 atacam os c\u00e9rebros dos beb\u00eas nos ventres de suas m\u00e3es, provocando a microcefalia. Atrav\u00e9s de suas l\u00e1grimas, somente elas sabem quanto a dor \u00e9 t\u00e3o profunda. As propagandas institucionais deste Estado corrupto e as mat\u00e9rias da m\u00eddia recomendam como uma das solu\u00e7\u00f5es que as pessoas passem diariamente repelentes em seus corpos.<\/p>\n<p>Tudo isto soa como um grande insulto aos pobres e aos quase 13 milh\u00f5es de desempregados que n\u00e3o t\u00eam dinheiro suficiente para a alimenta\u00e7\u00e3o quanto mais para comprar repelentes nas farm\u00e1cias. O pior \u00e9 que a m\u00eddia burguesa entra neste jogo e entrevista mulheres e fam\u00edlias de maior poder aquisitivo, bem arrumadas e todas vestidas, ensinando a passar repelentes em seus filhos.<\/p>\n<p><!--more-->\u00a0 As imagens na televis\u00e3o mais parecem propagandas dirigidas e encomendadas pelos grandes laborat\u00f3rios da ind\u00fastria qu\u00edmica. N\u00e3o se sabe se s\u00e3o propositais ou incompet\u00eancia jornal\u00edstica mesmo. Por que as reportagens n\u00e3o v\u00e3o \u00e0s periferias pobres indagar se aqueles moradores t\u00eam condi\u00e7\u00f5es financeiras de adquirir um tubo de repelente por semana ou mais que isso, a depender do tamanho familiar?<\/p>\n<p>Para n\u00e3o citar outros absurdos e paradoxos com os quais somos obrigados a conviver, como as orienta\u00e7\u00f5es para que os brasileiros fa\u00e7am constantemente exames de preven\u00e7\u00e3o contra doen\u00e7as graves como c\u00e2ncer, enfarto do cora\u00e7\u00e3o, diabetes e outras, quando sabemos que faltam m\u00e9dicos nos postos de sa\u00fade, nos hospitais e o SUS \u00e9 prec\u00e1rio, vou ficar por aqui\u00a0 nos mosquitos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode condenar, por exemplo, a automedica\u00e7\u00e3o num pa\u00eds onde a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem acesso \u00e0 sa\u00fade como deveria. N\u00e3o se trata de uma cultura popular, mas de uma necessidade de cura e at\u00e9 mesmo de um pedido urgente de socorro em muitos casos, se bem que n\u00e3o seja o correto.<\/p>\n<p>Por enquanto vamos ficar nos mosquitos porque, como disse meu colega jornalista Ruy Espinheira Filho, o povo brasileiro tem o triste destino de esperar. Segundo ele, o Brasil \u00e9 um labirinto de monstros, e Teseu n\u00e3o aparece para nos salvar. \u201cAlguns acham que poder\u00edamos ser nosso pr\u00f3prio Teseu e acabar de uma vez por todas com os monstros, mas a maioria continua preferindo esperar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Idade M\u00e9dia o latif\u00fandio e a burguesia, siameses dos reis, pr\u00edncipes e rainhas, contrastavam com as paisagens sociais rotas e sujas da pobreza e da extrema mis\u00e9ria. V\u00e1rios estados paralelos dominavam o Velho Mundo Europeu. 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