{"id":2007,"date":"2017-01-31T22:58:30","date_gmt":"2017-02-01T01:58:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=2007"},"modified":"2017-01-31T22:58:41","modified_gmt":"2017-02-01T01:58:41","slug":"a-salvador-sem-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2017\/01\/31\/a-salvador-sem-memoria\/","title":{"rendered":"A SALVADOR SEM MEM\u00d3RIA"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o adianta muito o orgulho de ter um mar como o da Baia de Todos os Santos com todo seu potencial de recursos naturais se seus habitantes n\u00e3o t\u00eam educa\u00e7\u00e3o para preserv\u00e1-los. Assim \u00e9 Salvador que tamb\u00e9m perdeu sua mem\u00f3ria cultural e est\u00e1, simplesmente, destruindo seu patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, seus monumentos e seu encantamento que j\u00e1 atraiu milh\u00f5es de turistas estrangeiros e visitantes brasileiros.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3124.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2008\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3124.jpg\" alt=\"IMG_3124\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3124.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3124-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Li na semana passada, num jornal da capital, o coment\u00e1rio do produtor cultural Demitri Ganzelevitch onde desabafa dizendo que o pr\u00f3prio soteropolitano se encarrega de depredar as belezas da terra. Fala de uma cultura perdida e cita azulejos e pedras portuguesas de pra\u00e7as e passeios que foram substitu\u00eddos por placas de concreto. Na minha vis\u00e3o, nos \u00faltimos anos a capital saiu do iluminismo para as trevas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3127.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2009\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3127.jpg\" alt=\"IMG_3127\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3127.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3127-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Um estudo do Inema (o instituto que cuida do meio ambiente) revela que, em 2016, Salvador s\u00f3 teve duas praias 100% prop\u00edcias para o banho, e olha que elas est\u00e3o fora do per\u00edmetro urbano. O aeroporto internacional de Salvador que, por desgra\u00e7a pol\u00edtica teve seu nome do \u201cDois de Julho\u201d retirado, foi classificado como o pior do pa\u00eds.<\/p>\n<p>As areias e as \u00e1guas das praias est\u00e3o f\u00e9tidas e escuras, cheias de coliformes fecais porque os rios das Pedras, Jaguaribe, Paraguai, Camarujipi e outros que passam perto ou cortam a capital est\u00e3o contaminados e polu\u00eddos por esgotos dom\u00e9sticos. Em Salvador, 20% das resid\u00eancias n\u00e3o t\u00eam esgotamento sanit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Morei 23 anos em Salvador e ainda tive a felicidade de pegar o resto dos bons tempos entre o final da d\u00e9cada de 60 ao final dos anos 80. N\u00e3o se trata de saudosismo, mas de valoriza\u00e7\u00e3o dos bens culturais e naturais. A Rua Chile ainda era um charme com suas boates, caf\u00e9s, a loja Adamastor, a primeira escada rolante das Americanas e a famosa mulher de roxo. A boate Clock, no Contorno, e o Anjo Azul, no Dois de Julho, eram pontos de encontros de bo\u00eamios, artistas, pol\u00edticos e intelectuais em plena efervesc\u00eancia cultural.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3129.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2010\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3129.jpg\" alt=\"IMG_3129\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3129.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/IMG_3129-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No Centro Hist\u00f3rico dos seculares casar\u00f5es, hoje escorados por estacas de madeiras e caiando aos peda\u00e7\u00f5es, as noites eram apraz\u00edveis e se andava sossegado no tempo em que Salvador ainda transpirava cultura desde o final dos anos 40 do s\u00e9culo passado quando despontava firme no horizonte a Universidade Federal da Bahia. Logo mais, o reitor Edigar Santos fez surgir novas ideias progressistas atrav\u00e9s dos cursos de artes pl\u00e1sticas, filosofia, teatro e abertura de centros de discuss\u00f5es.<\/p>\n<p>No tempo da Gera\u00e7\u00e3o Mapa com Glauber Rocha, Jo\u00e3o Carlos Teixeira Gomes, Fernando da Rocha Peres, Florisvaldo Matos, da arquiteta Lina Bardi, do tropicalismo, do cinema novo e de tantos outros acontecimentos e movimentos culturais, Salvador foi ao olimpo das cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e intelectuais. Hoje Salvador vive a era do j\u00e1 teve Jorge Amado, Carib\u00e9, M\u00e1rio Cravo, Pierre Verger, Juarez Para\u00edso, Calazans Neto, Roberto Pires, escolas de samba, grandes salas de cinema, bienais e festivais.<\/p>\n<p><!--more-->Ah, e o carnaval popular das marchinhas, das letras ricas de sentido com sonoridades musicais, dos blocos soltos das mortalhas, das m\u00e1scaras, dos cantos diversos das can\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas dos grandes compositores da MPB e das brincadeiras onde todos participavam com harmonia! Todo esse encanto e magia, nem a ditadura militar conseguiu tirar por completo.<\/p>\n<p>Agora, o que temos \u00e9 um lixo de carnaval do ax\u00e9, do pagode, do arrocha, da lambada e de outros g\u00eaneros misturados com letras de baixo n\u00edvel, apelativas e de duplo sentido onde se coloca a mulher como objeto do sexo. Nesta festa dos horrores dos marombados e sarados, o empoderamento da mulher se mede atrav\u00e9s dos rebolados das bundas e das pernas nuas, e todos tiram os p\u00e9s do ch\u00e3o com uma simples ordem vinda l\u00e1 dos trios ensurdecedores.<\/p>\n<p>S\u00f3 um grupo fatura e o resto n\u00e3o passa de plebe ignara que fica com as migalhas do asfalto apertado do bate cotovelos, empurr\u00f5es e tapas. Os gringos acham tudo ex\u00f3tico e caem dentro como se estivessem num para\u00edso da perdi\u00e7\u00e3o de beijos, apertos e transas sexuais. \u00c9 o a\u00e7oite do chicote no lombo de quem mandou dar na capital mais barulhenta do mundo.<\/p>\n<p>Sobre esta ind\u00fastria carnavalesca da exclus\u00e3o social e da concentra\u00e7\u00e3o de renda onde s\u00f3 os mesmos lucram, a banda musical Scambo retratou muito bem a realidade atual da nossa Salvador numa de suas can\u00e7\u00f5es: \u201cFesta sacana feita por gente com grana que ganha muita grana\/Manipulando a cultura\/Muitos artistas aceitam esses senhores pra n\u00e3o\/Ficarem longe dos refletores\/(&#8230;) N\u00e3o vou tirar meus p\u00e9s do ch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 uma Salvador de belas orlas mar\u00edtimas, de um tra\u00e7ado singular, de um sincretismo sem igual, de uma mistura de cores, mas que perde dia-a-dia sua mem\u00f3ria nas picha\u00e7\u00f5es e destrui\u00e7\u00e3o de seus monumentos e equipamentos. Os sanit\u00e1rios p\u00fablicos s\u00e3o barbaramente quebrados por v\u00e2ndalos que passam levando tudo pela frente e deixando um rastro de sujeiras. Tudo isso est\u00e1 longe de ser de verdade uma cidade tur\u00edstica.<\/p>\n<p>Salvador pode ser bonita pela sua baia vista do alto, mas dentro de si guarda uma triste feiura marcada pelas profundas desigualdades sociais desde os tempos da chegada do primeiro governador Thom\u00e9 de Souza. Toda esta exclus\u00e3o secular gerou um tremendo quadro de revolta intermin\u00e1vel que transformou Salvador numa Triste Bahia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o adianta muito o orgulho de ter um mar como o da Baia de Todos os Santos com todo seu potencial de recursos naturais se seus habitantes n\u00e3o t\u00eam educa\u00e7\u00e3o para preserv\u00e1-los. Assim \u00e9 Salvador que tamb\u00e9m perdeu sua mem\u00f3ria cultural e est\u00e1, simplesmente, destruindo seu patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, seus monumentos e seu encantamento que j\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2007"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2007"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2007\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2011,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2007\/revisions\/2011"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}