{"id":1966,"date":"2016-12-26T21:39:49","date_gmt":"2016-12-27T00:39:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1966"},"modified":"2016-12-26T21:39:56","modified_gmt":"2016-12-27T00:39:56","slug":"nunca-acreditei-em-papai-noel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/12\/26\/nunca-acreditei-em-papai-noel\/","title":{"rendered":"NUNCA ACREDITEI EM PAPAI NOEL"},"content":{"rendered":"<p>Leio cr\u00f4nicas nos jornais referentes \u00e0s festas natalinas que pouco falam do nascimento de Jesus Cristo, e mais do Papai Noel, uma tradi\u00e7\u00e3o dos gelados pa\u00edses n\u00f3rdicos. Os textos costumam ser mais suaves, leves e human\u00edsticos que criticam, em parte, o consumismo exagerado nesta \u00e9poca do ano. O Papai Noel est\u00e1 sempre em destaque e alguns autores relembram seus tempos de crian\u00e7a, como o coment\u00e1rio de um amigo e colega que li nesta semana.<\/p>\n<p>De um modo geral, os escritos me remetem a refletir sobre o eu individual e as profundas desigualdades sociais em nosso pa\u00eds, cuja pobreza se torna mais vis\u00edvel e escancarada neste per\u00edodo. Al\u00e9m do mais, somos desprovidos de cultura pr\u00f3pria e meros copiadores de tradi\u00e7\u00f5es alheias. O quadro nos leva \u00e0 depress\u00e3o em ver um mundo xen\u00f3fobo glamoroso de luxo e outro miser\u00e1vel do lixo, sem contar o sofrimento dos refugiados das guerras.<\/p>\n<p>Da minha parte confesso que nunca acreditei neste Papai Noel do Natal. Diferente de muitas crian\u00e7as privilegiadas das cr\u00f4nicas liter\u00e1rias, minha v\u00e9spera de Natal na ro\u00e7a pobre com meus pais era de muito trabalho. A noite chegava como outra qualquer \u00e0 luz de candeeiro movido a pavio ensopado de querosene ou \u00f3leo de mamona. Cansados, logo cedo todos iam dormir e a paisagem era engolida pela escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia Natal. Em todo meu tempo de menino nunca existiram presentes, quanto mais dentro de sapatos trazidos por Papai Noel que, na madrugada, entrava pela janela ou descia pela chamin\u00e9, coisa rar\u00edssima em nossas habita\u00e7\u00f5es. Se para mim ele nunca existiu, n\u00e3o tenho hist\u00f3rias para contar sobre sua figura com um saco, ou viajando de tren\u00f3 com renas pelos pa\u00edses gelados. Como poderia acreditar numa coisa que nunca existiu para mim, nem mesmo em forma de lenda?<\/p>\n<p>Como n\u00e3o tive noite de Natal de Papai Noel, nunca contei estes causos nevados para meus filhos, mas dava-lhes presentes comprados como parte de um rito capitalista consumista dos norte-americanos e dos europeus que enfeitam suas casas de \u00e1rvores artificiais e se esbaldam nas comidas e nas bebidas de mesas fartas.<\/p>\n<p><!--more-->Minha cr\u00f4nica n\u00e3o tem gra\u00e7a e artes de crian\u00e7as que no outro dia levantavam cedo para ver o presente do Papai Noel. Ciumava um do outro e brigava porque um objeto natalino era melhor que o do irm\u00e3o. Na minha cr\u00f4nica n\u00e3o tem ceia de Natal, n\u00e3o tem refrigerante, n\u00e3o tem vinho, n\u00e3o tem peru, n\u00e3o tem fantasias e nem tem \u00e1rvores, a n\u00e3o ser as naturais do campo com as quais viv\u00edamos no dia-a-dia. S\u00f3 vim conhecer este Papai Noel gordo, barbudo e fantasiado de vermelho e branco depois de adulto quando n\u00e3o tinha mais gra\u00e7a nem jeito para acreditar nele.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso mais acreditar neste Papai Noel passageiro da televis\u00e3o dos shoppings, das lojas e dos Correios somente voltados para alguns das cartinhas sorteadas num Brasil de extrema desigualdade social. Por mais que se esforcem em atos temporais de solidariedade, n\u00e3o \u00e9 ainda o Natal crist\u00e3o e humano enquanto persistirem as injusti\u00e7as sociais.<\/p>\n<p>Bem, recriminariam cronistas e leitores dizendo que n\u00e3o \u00e9 \u00e9poca de dureza, de cobran\u00e7as, de reclamos, queixas e de ideologias socialistas, mas de suavidade quando todos se irmanam fraternalmente e se sentem com a emo\u00e7\u00e3o \u00e0 flor da pele. \u00c9 \u00e9poca de abra\u00e7os e de esquecer as mazelas e trai\u00e7\u00f5es dos pol\u00edticos e dirigentes governamentais.<\/p>\n<p>Desculpem, mas n\u00e3o tenho mais que isso para dar quando ainda existem hoje crian\u00e7as e fam\u00edlias que n\u00e3o t\u00eam hist\u00f3rias de Natal e Papai Noel para contar. Elas ainda dormem em casebres feios nos morros que mal ouvem o pipocar dos fogos nas praias e no mar, ou moram em grot\u00f5es distantes deste pa\u00eds em casas de taipa, que nem sapatos t\u00eam para colocar os presentes. Minha cr\u00f4nica de Natal n\u00e3o tem Papai Noel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leio cr\u00f4nicas nos jornais referentes \u00e0s festas natalinas que pouco falam do nascimento de Jesus Cristo, e mais do Papai Noel, uma tradi\u00e7\u00e3o dos gelados pa\u00edses n\u00f3rdicos. Os textos costumam ser mais suaves, leves e human\u00edsticos que criticam, em parte, o consumismo exagerado nesta \u00e9poca do ano. 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