{"id":1839,"date":"2016-10-18T22:03:13","date_gmt":"2016-10-19T01:03:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1839"},"modified":"2016-10-18T22:03:24","modified_gmt":"2016-10-19T01:03:24","slug":"no-caldeirao-dos-festivais-da-mpb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/10\/18\/no-caldeirao-dos-festivais-da-mpb\/","title":{"rendered":"NO CALDEIR\u00c3O DOS FESTIVAIS DA MPB"},"content":{"rendered":"<p>macariojeremias@yahoo.com.br<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo entender at\u00e9 hoje como shows musicais de cultura de massa passaram a ser enquadrados como festivais que na d\u00e9cada de 60, mesmo sob o encal\u00e7o feroz da ditadura civil-militar, revelaram grandes artistas de renome nacional e internacional, cujas can\u00e7\u00f5es se tornaram eternas. Foi uma \u00e9poca de ouro da m\u00fasica popular brasileira em plena efervesc\u00eancia cultural, com direito a torcidas aguerridas, vais e aplausos como se estivessem em jogo seus clubes num est\u00e1dio de futebol.<\/p>\n<p>Os festivais da MPB nasceram em 1960 com as TVs Record, Excelsior e o Globo em parceria com o Estado da Guanabara (os FICs) com formato de concursos entre int\u00e9rpretes, cantores, letristas e compositores sob o olhar competente de um j\u00fari que indicava as melhores obras das centenas e milhares que se inscreviam no certame. Foram 12 anos, de 1960 a 1972, que geraram inesquec\u00edveis can\u00e7\u00f5es de cr\u00edticas, protestos e sobre a realidade da vida e da sociedade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/FESTIVAIS-008.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1840\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/FESTIVAIS-008.jpg\" alt=\"festivais-008\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/FESTIVAIS-008.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/FESTIVAIS-008-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O mundo dos festivais foi documentado em filmes, prosas e livros. Muitos dos seus personagens criadores foram presos, torturados e exilados pela f\u00faria opressora do regime ditatorial. \u00c9 um cap\u00edtulo da nossa hist\u00f3ria que deve ser conhecido pelas gera\u00e7\u00f5es de jovens que hoje s\u00e3o triturados pela cultura de massa nominada de forma deturpada de festivais.<\/p>\n<p>Mesmo sabendo que serei contestado em minha posi\u00e7\u00e3o, atrevo-me a falar um pouco sobre os festivais da MPB e os cl\u00e1ssicos musicais que marcaram e ainda marcam nossas vidas. Estas rel\u00edquias preciosas foram registradas em velhos vinis chamados de \u201cbolach\u00f5es\u201d que os guardo e conservo at\u00e9 hoje em meu espa\u00e7o cultural com muito carinho.<\/p>\n<p>As m\u00fasicas vencedoras dos festivais marcaram o sucesso nas carreiras de grandes poetas e artistas brasileiros como Geraldo Vandr\u00e9 (o Bob Dylan nordestino), Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Jobim, Venicius de Morais, Baden Powell, Edu Lobo, Marcos Valle e tantos outros, cujas can\u00e7\u00f5es at\u00e9 hoje arrastam p\u00fablicos, inclusive de jovens.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/FESTIVAIS-021.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1841\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/FESTIVAIS-021.jpg\" alt=\"festivais-021\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/FESTIVAIS-021.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/FESTIVAIS-021-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O primeiro evento teve a iniciativa da TV Record, em 1960, coordenado por The\u00f3filo de Barros, sendo vencedora a m\u00fasica Pescador, de Newton Mendon\u00e7a. Os festivais se tornaram tamb\u00e9m espa\u00e7o de promo\u00e7\u00e3o para Jair Rodrigues, Nara Le\u00e3o, Paulinho da Viola, Francis Hime, Adilson Godoy, Elis Regina, Gutemberg Guarabyra, Cynara, Cybele, Gal Costa e um monte de sucessos nos anos seguintes.<\/p>\n<p>Com cria\u00e7\u00e3o de Solano Ribeiro, inspirado no Festival de San Remo (It\u00e1lia), a TV Excelsior fez o seu 1\u00ba Festival Nacional da MPB, em mar\u00e7o de 1965, no Cine Ast\u00f3ria (Rio de Janeiro) e contou com a m\u00fasica Sonho de Carnaval (Chico Buarque &#8211; 20 anos) interpretada por Geraldo Vandr\u00e9 que tamb\u00e9m concorreu com Hora de Lutar. Estes dois tit\u00e3s da m\u00fasica popular foram os reis dos festivais da \u00e9poca.<\/p>\n<p><!--more-->Neste Festival venceu Arrast\u00e3o (Edu Lobo e Venicius) na voz de Elis Regina. O 2\u00ba lugar ficou para Valsa do Amor Que N\u00e3o Vem (Venicius e Baden) na voz de Elizeth Cardoso, e o 3\u00ba para Eu S\u00f3 Queria Ser (Vera Brasil).<\/p>\n<p>O 2\u00ba Festival Nacional da Excelsior aconteceu em junho do ano seguinte e Porta Estandarte, de Vandr\u00e9 e Fernando Lona, nas vozes de Airto Moreira e Valeniza da Silva (Tuca) foi a vencedora. O 2\u00ba lugar ficou com Ina\u00ea, de Maricene Costa e Vera Brasil. Em 3\u00ba Chora C\u00e9u, de Luiz Roberto e Adylson Godoy. Gil e Torquato Neto concorreram com Rancho da Rosa Encarnada.<\/p>\n<p>No mesmo ano de 1966 foi tamb\u00e9m realizado o 2\u00ba Festival Nacional da TV Record e deu na cabe\u00e7a empate t\u00e9cnico entre Disparada (Geraldo e Theo Barros), na voz de Jair Rodrigues, e a Banda, de Chico na voz de Nara Le\u00e3o. De Amor e Paz (Adauto Santos e Luiz Carlos Paran\u00e1, na voz de Elza Soares) ficou em 2\u00ba lugar. Em terceiro ganhou Can\u00e7\u00e3o para Maria, de Paulinho da Viola e Jos\u00e9 Carlos Capinam, na voz de Jair Rodrigues.<\/p>\n<p>Em 1967 o 3\u00ba Festival da Record, um dos mais hist\u00f3ricos do Brasil que rendeu at\u00e9 um document\u00e1rio sobre o assunto, deixou como legado a m\u00fasica Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, em 1\u00ba lugar. Ganhou em 2\u00ba Domingo no Parque, de Gil, e Roda Viva, de Chico, em 3\u00ba lugar, ficando Alegria, Alegria, de Caetano na 4\u00ba posi\u00e7\u00e3o. O evento teve a participa\u00e7\u00e3o de Vandr\u00e9 com a can\u00e7\u00e3o Ventania.<\/p>\n<p>No 4\u00ba Festival da Recordo, em 1968, S\u00e3o Paulo Meu Amor, de Tom Z\u00e9, ficou em 1\u00ba lugar. Em 2\u00ba Mem\u00f3rias de Marta Sar\u00e9, de Edu Lobo e Giafrancesco Guarnieri. Saiu vencedora em 3\u00ba lugar, Divino Maravilhoso, de Gil e Caetano na voz de Gal Costa. Vandr\u00e9 participou tamb\u00e9m com Bonita, em parceria com Hilton Acioli.<\/p>\n<p>OS FESTIVAIS INTERNACIONAIS<\/p>\n<p>Organizado pelo Grupo Globo (Augusto Jos\u00e9 Marzag\u00e3o) e Estado da Guanabara, os Festivais Internacionais da Can\u00e7\u00e3o tiveram sete edi\u00e7\u00f5es entre 1966 a 1972 quando foram enfraquecidos interrompidos pela censura da ditadura civil-militar.<\/p>\n<p>No 1\u00ba FIC de 66, Saveiros, de Dori Caymmi e Nelson Motta, na voz de Nana Caymmi, foi a m\u00fasica vencedora. O 2\u00ba lugar coube a Vandr\u00e9 e Tuca, com Cavaleiro e a 3\u00aa colocada Dia das Rosas, de Luiz Bonf\u00e1 e Maria Helena Toledo, na voz de Maysa.<\/p>\n<p>O 2\u00ba FIC foi em 67 que deu o 1\u00ba lugar para Apareceu a Margarida, de Gutemberg Guarabyra. Travessia, de Milton Nascimento e Fernando Brant, foi a 2\u00aa colocada e a 3\u00aa can\u00e7\u00e3o vencedora foi Carolina, de Chico, na voz de Cynara e Cybele (Quarteto em Cy).<\/p>\n<p>Numa conversa com Roberto Menescal (um dos precursores da Bossa Nova), em defesa da frente \u00fanica da MPB, Vandr\u00e9 chegou a insistir que todos tinham de fazer m\u00fasica participante. \u201cOs militares est\u00e3o prendendo e torturando. A m\u00fasica tem de servir para alertar o povo\u201d. Menescal respondeu que a m\u00fasica n\u00e3o foi feita para alertar coisa nenhuma e quem alerta \u00e9 corneta de regimento.<\/p>\n<p>No ano dos intensos movimentos estudantis e sociais em protesto contra a ditadura civil-militar, o 3\u00ba FIC de 1968 foi o mais pol\u00eamico de todos e recebeu 30 mil pessoas no Maracan\u00e3zinho. Os generais tentaram coibir letras que fizessem propaganda da guerrilha. Vandr\u00e9 (Caminhando) e C\u00e9sar Rold\u00e3o Vieira, com Am\u00e9rica, Am\u00e9rica eram vistos como perigosos.<\/p>\n<p>Mesmo com toda censura e press\u00e3o, o j\u00fari n\u00e3o se intimidou. Sabi\u00e1, de Tom Jobim e Chico, na voz de Cynara e Cybele, uma m\u00fasica dif\u00edcil de cantar, sagrou-se em 1\u00ba lugar, mas recebeu uma tremenda vaia da plateia com direito a tomate no representante da rainha Elizabeth II. Dori Caymmi teve de arrastar Jobim por debaixo do palco com ajuda de um rapaz da TV Globo. \u201cPeguei um fusca deixando mulher e filhos para tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>Pra N\u00e3o Dizer Que N\u00e3o Falei das Flores (Caminhando), de Vandr\u00e9 ficou em 2\u00ba lugar, mas foi considerada a campe\u00e3 moral, s\u00f3 que marcou a gl\u00f3ria e a ru\u00edna do compositor, empurrando-o para um ex\u00edlio for\u00e7ado no Chile e depois na Europa (Fran\u00e7a). Na \u00e9poca, Mil\u00f4r Fernandes considerou a can\u00e7\u00e3o como o hino nacional. \u201c\u00c9 a nossa Marselhesa\u201d.<\/p>\n<p>Com as vaias e cr\u00edticas contra Sabi\u00e1, Vandr\u00e9 tentou acalmar a multid\u00e3o dizendo que a vida n\u00e3o se resumia em festivais, elogiando os talentos de Chico e Tom Jobim. Antes do evento, o general Sizino Sarmento advertiu que Caminhando e Am\u00e9rica, Am\u00e9rica (C\u00e9sar Rold\u00e3o) n\u00e3o poderiam sair vencedoras. A partir da\u00ed, Vandr\u00e9 tornou-se maior inimigo das for\u00e7as armadas. Um oficial bradou que a m\u00fasica era um achincalhe.<\/p>\n<p>O 3\u00ba lugar ficou com Andan\u00e7a, de Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapaj\u00f3s, na voz de Beth Carvalho e Golden Boys. Marcos Valle e seu irm\u00e3o Paulo S\u00e9rgio participaram do evento com uma m\u00fasica sobre a passeata dos 100 mil e contra a ditadura. Teve ainda Proibido Proibir, de Caetano, que fez um longo discurso debaixo de vaias quando tentou calar a boca da torcida dizendo \u201cvoc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o entendendo nada\u201d.<\/p>\n<p>Com o AI-5 e o in\u00edcio dos anos de chumbo, a realiza\u00e7\u00e3o do 4\u00ba FIC de 1969 foi cercada por for\u00e7as militares como forma de impedir a liberdade de express\u00e3o. Sem can\u00e7\u00f5es de protesto, ganhou em 1\u00ba lugar Cantiga para Luciana, de Edmundo Souto e Paulinho Tapaj\u00f3s, com Evinha (Trio Ternura). Em 2\u00ba lugar, Juliana, de Ant\u00f4nio Adolfo e Tib\u00e9rio Gaspar. A 3\u00aa colocada foi Minha Marisa, de Fred Falc\u00e3o Medeiros. Foi o Festival dos nomes de mulheres.<\/p>\n<p>O n\u00edvel das letras descambou para o \u00f4ba-\u00f4ba e o 5\u00ba FIC, em 1970, teve como vencedora BR-3, de Adolfo Gaspar, na voz de Tony Tornado. No 6\u00ba FIC de 1971, Kyrie, de Paulinho Soares e Macedo Silva, na voz de Evinha, foi a campe\u00e3. Em 1972 no 7\u00ba FIC, Fio Maravilha, de Jorge Benjor, com Maria Alcina ficou em 1\u00ba lugar.<\/p>\n<p>A partir de 69\/70 a m\u00fasica popular brasileira foi engolida pela cultura de massa com o dom\u00ednio das gravadoras multinacionais onde os artistas eram rotulados e catalogados conforme o estilo de trabalho de cada um. O lucro passou a ser a bola da vez e quem n\u00e3o se enquadrava no esquema era tido como maldito e colocado \u00e0 margem do sistema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>macariojeremias@yahoo.com.br N\u00e3o consigo entender at\u00e9 hoje como shows musicais de cultura de massa passaram a ser enquadrados como festivais que na d\u00e9cada de 60, mesmo sob o encal\u00e7o feroz da ditadura civil-militar, revelaram grandes artistas de renome nacional e internacional, cujas can\u00e7\u00f5es se tornaram eternas. 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