{"id":1686,"date":"2016-08-03T00:03:35","date_gmt":"2016-08-03T03:03:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1686"},"modified":"2016-08-03T00:05:00","modified_gmt":"2016-08-03T03:05:00","slug":"a-escola-publica-e-um-escandalo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/08\/03\/a-escola-publica-e-um-escandalo\/","title":{"rendered":"&#8220;A ESCOLA P\u00daBLICA \u00c9 UM ESC\u00c2NDALO&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Um corpo \u00e9 docente, mas est\u00e1 \u201cdoente\u201d. O outro \u00e9 discente, mas indisciplinado e indiferente. Ao ler uma entrevista do portugu\u00eas educador Ant\u00f4nio da N\u00e9voa, ex-reitor da Universidade de Lisboa, n\u00e3o poderia deixar de selecionar alguns trechos de muita reflex\u00e3o sobre o sistema educacional brasileiro.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, N\u00e9voa \u00e9 enf\u00e1tico e direto quando diz que \u201ca nossa escola p\u00fablica \u00e9 um esc\u00e2ndalo.\u201d Digo mais, se me permite o professor, que a escola que temos, lamentavelmente, \u00e9 uma calamidade p\u00fablica e uma m\u00e1quina de fazer pol\u00edticos, incompetentes, despreparados e corruptos.<\/p>\n<p>Em sua entrevista aponta como exemplos bem sucedidos de ensino no mundo a Su\u00e9cia e a Finl\u00e2ndia. Como principais problemas da nossa educa\u00e7\u00e3o ele cita a falta de compromisso social e pol\u00edtico com a educa\u00e7\u00e3o de qualidade e a forma\u00e7\u00e3o de professores.<\/p>\n<p>A aprendizagem, em sua opini\u00e3o, deve ser o foco, mas no Brasil os professores trabalham em v\u00e1rias escolas. Indagado sobre est\u00e1 situa\u00e7\u00e3o em outros pa\u00edses, afirmou que nunca encontrou exemplos semelhantes no mundo. As mudan\u00e7as, na sua avalia\u00e7\u00e3o, n\u00e3o v\u00e3o aparecer por conta de teorias pedag\u00f3gicas, programas educativos e leis.<\/p>\n<p>Destaca, em sua entrevista, que o ensino tem que transmitir para o aluno um sentido para sua vida. A aprendizagem tem que passar um significado para que o aluno tenha prazer em estudar. Nesse ponto, concordo que as aulas, no geral, s\u00e3o enfadonhas, met\u00f3dicas e longe da realidade da vida.<\/p>\n<p><!--more-->O Brasil tem elites fortes e dotadas de enorme poder, tanto as econ\u00f4micas como as intelectuais de esquerda \u2013 assinala o educador portugu\u00eas.\u00a0 Por isso, segundo ele, h\u00e1 um abismo salarial e condi\u00e7\u00f5es de trabalho entre os professores da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e do ensino superior. Os direitos dos que est\u00e3o encima s\u00e3o diferentes dos que est\u00e3o embaixo. Outro questionamento de N\u00e9voa \u00e9 que o pa\u00eds tem uma educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria p\u00fablica de qualidade, mas restrita a 20%, enquanto 80% est\u00e3o nas unidades particulares.<\/p>\n<p>A qualifica\u00e7\u00e3o desses 20% se faz \u00e0 custa de que os 80% dos estudantes foram mandados para institui\u00e7\u00f5es privadas com taxas elevadas e, muitas vezes, com ensino de p\u00e9ssima qualidade. Quanto ao programa do Fies, aponta vantagens e desvantagens. Na minha vis\u00e3o, o Fies e outros programas populistas de bolsas funcionam como caixas de fazer dinheiro para os empres\u00e1rios. Deu-se a partir dali a arrancada para a privatiza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como vantagem do Fies, Ant\u00f4nio N\u00e9voa aponta a democratiza\u00e7\u00e3o das oportunidades e, como imensa desvantagem o encargo do Estado de ter que financiar centros de p\u00e9ssima qualidade. Na sua an\u00e1lise, os recursos deveriam ser canalizados para expandir as universidades p\u00fablicas, alargando sua capacidade de acolhimento e oferta de vagas, no que concordo plenamente.<\/p>\n<p>A respeito da escola sem partido, pensa que ela sem partido n\u00e3o existe, mas recusa a ideia de uma escola doutrin\u00e1ria.\u00a0 Deve-se dizer \u00e0 crian\u00e7a que h\u00e1 muitas maneiras de pensar e de viver. \u201cA escola \u00e9 o lugar para muitos partidos\u201d.<\/p>\n<p>Sobre esta pol\u00eamica quest\u00e3o, est\u00e1 no Congresso Nacional o projeto de lei 867\/15 que inclui o \u201cPrograma Escola sem Partido\u201d entre as diretrizes e bases da educa\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>O projeto tem gerado controv\u00e9rsias. Os favor\u00e1veis atacam a doutrina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nas escolas que termina por cooptar os alunos para uma determinada corrente pol\u00edtica e ideol\u00f3gica (propaganda pol\u00edtico-partid\u00e1ria). Os contra afirmam que o projeto afronta os fundamentos da Constitui\u00e7\u00e3o em seu artigo 3, como o de \u201cconstruir uma sociedade livre, justa e solid\u00e1ria\u201d e de promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, ra\u00e7a, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao Estado, no meu conceito, cabe garantir livre oportunidade da escola p\u00fablica de qualidade. O partido da escola deve ser o partido da liberdade de express\u00e3o e o da pluralidade de opini\u00e3o. Ao aluno deve ser dada a oportunidade de aprender culturas diversas. O que temos hoje, na verdade, uma escola incapaz de formar cidad\u00e3os conscientes e cr\u00edticos.<\/p>\n<p>Outro crime contra a nossa j\u00e1 esfarrapada educa\u00e7\u00e3o e a desvincula\u00e7\u00e3o constitucional de verbas, determinada pelo governo interino para a educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais um golpe duro da direita retr\u00f3grada no ensino. Ademais, temos hoje um Congresso ultraconservador que aspira que todos continuem analfabetos e sem consci\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Como no sistema eleitoral, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um retalho de remendos de leis e reformas fajutas num tecido j\u00e1 pu\u00eddo. Desde 2013 tramita na C\u00e2mara dos Deputados o projeto de lei 6840 que trata do novo formato do ensino m\u00e9dio, a chamada \u201cBase Nacional Curricular\u201d. Discute-se a inclus\u00e3o de conte\u00fados obrigat\u00f3rios. Uns dizem que isso pode dificultar a flexibiliza\u00e7\u00e3o do ensino.<\/p>\n<p>Como bem observa o professor N\u00e9voa, n\u00e3o s\u00e3o as leis apenas que v\u00e3o agu\u00e7ar o gosto dos alunos para o estudo, mas a obrigatoriedade de conte\u00fados faz-se necess\u00e1rio. H\u00e1 tr\u00eas anos discutem uma proposta, enquanto o ensino cada vez mais se deteriora.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de calamidade p\u00fablica, a nossa escola \u00e9 mesmo um esc\u00e2ndalo que, atrav\u00e9s do voto popular da grande maioria inculta, gera monstros pol\u00edticos incompetentes, safados e corruptos. Por causa disso \u00e9 que o Brasil vai sempre continuar sendo o pa\u00eds do futuro como nos ensinaram h\u00e1 cinquenta anos nas escolas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um corpo \u00e9 docente, mas est\u00e1 \u201cdoente\u201d. O outro \u00e9 discente, mas indisciplinado e indiferente. Ao ler uma entrevista do portugu\u00eas educador Ant\u00f4nio da N\u00e9voa, ex-reitor da Universidade de Lisboa, n\u00e3o poderia deixar de selecionar alguns trechos de muita reflex\u00e3o sobre o sistema educacional brasileiro. 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