{"id":1683,"date":"2016-08-02T00:41:00","date_gmt":"2016-08-02T03:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1683"},"modified":"2016-08-02T00:41:08","modified_gmt":"2016-08-02T03:41:08","slug":"a-luz-de-d-paulo-evaristo-arns","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/08\/02\/a-luz-de-d-paulo-evaristo-arns\/","title":{"rendered":"A LUZ DE D. PAULO EVARISTO ARNS"},"content":{"rendered":"<p><strong>(Colabora\u00e7\u00e3o de L\u00eddia Rodrigues)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tudo era cinzento naquele ambiente politicamente viciado do in\u00edcio dos anos 70. Desde a implanta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00ba 5, viv\u00edamos sob uma guerra surda e suja, em que nosso lado era v\u00edtima de &#8220;tiroteios&#8221; onde s\u00f3 o inimigo atirava e s\u00f3 a nossa turma morria.<\/strong><\/p>\n<p>Por Haroldo Lima*, especial para o Vermelho<\/p>\n<p>As casas onde resid\u00edamos, os &#8220;aparelhos&#8221; onde escond\u00edamos gr\u00e1ficas e outros pertences &#8220;estouravam&#8221; como eles diziam, e na seq\u00fc\u00eancia companheiros &#8220;desapareciam&#8221;. Sab\u00edamos que foram mortos ou estavam nos supl\u00edcios das torturas.<\/p>\n<p>As torturas passaram a ser o tratamento rotineiro que era dado aos que faziam oposi\u00e7\u00e3o ao regime ditatorial e que eram presos. O povo vivia atemorizado, amorda\u00e7ado, encurralado, arrochado. Como diria o Chico Buarque, &#8220;falando de lado e olhando pro ch\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>E tinha a turma que resistia, apesar disso e por isso mesmo. A natureza humana \u00e9 assim. Se tem os covardes que tremem quando os blindados ocupam as esplanadas, tem os que se decidem mais ainda a tir\u00e1-los de l\u00e1, de qualquer jeito, custando o que custar. Estes lutam com diversas armas, mas a principal \u00e9 sua vontade e determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more-->N\u00e3o s\u00e3o ing\u00eanuos, contudo. Sabem que, se apanhados, a tortura \u00e9 o m\u00ednimo que pode ocorrer, a morte \u00e9 um talvez.<\/p>\n<p>Por isso o acompanhamento da conjuntura \u00e9 essencial, o cuidado com a organiza\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o das novas for\u00e7as que engordam o caudal dos resistentes.<\/p>\n<p>Como tantos outros, adentrei \u00e0 d\u00e9cada de 1970 nesse ambiente tenebroso.<\/p>\n<p>A noticia de que come\u00e7ara uma resist\u00eancia guerrilheira na regi\u00e3o do Araguaia nos enchia de anima\u00e7\u00e3o. O Estad\u00e3o furara o bloqueio da censura e publicara longa mat\u00e9ria sobre o assunto. A repress\u00e3o recrudescera.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1973, um brilhante estudante da USP, que militava na Alian\u00e7a Libertadora Nacional (ALN), Alexandre Vanucchi, fora preso. A repress\u00e3o divulgou que fora &#8220;atropelado&#8221; quando tentava fugir. Na verdade, fora morto na tortura. Era mais um. Mas dessa vez foi diferente.<\/p>\n<p>O Cardeal de S. Paulo D. Paulo Evaristo Arns promoveu na Catedral da S\u00e9 de S\u00e3o Paulo um culto que chamou de &#8220;Celebra\u00e7\u00e3o da Esperan\u00e7a&#8221;, homenageando o estudante morto. Homenageando um &#8220;subversivo&#8221;? Era uma luz. Uma luz no fim do t\u00fanel, uma figura de destaque na sociedade brasileira que se levantava abertamente para dizer &#8220;n\u00e3o&#8221;, para denunciar com seu gesto o terror que estava acontecendo sorrateiramente.<\/p>\n<p>Mas o ambiente de arb\u00edtrio continuava. E pouco mais de dois anos depois, em outubro de 1975, novo crime foi perpetrado pela ditadura, com o assassinato do jornalista Wladimir Herzog nas depend\u00eancias do Doi-Codi de S\u00e3o Paulo. A\u00ed D. Paulo Evaristo elevou o tom do protesto.<\/p>\n<p>Juntamente com o reverendo Jaime Wright, da Igreja Presbiteriana de S\u00e3o Paulo, e com o rabino Henry Sobel, da Congrega\u00e7\u00e3o Israelita Paulista, Dom Paulo Evaristo abriu as portas da Catedral Metropolitana de S\u00e3o Paulo e promoveu um Culto Ecum\u00eanico que aglutinou milhares de participantes, significando uma amplia\u00e7\u00e3o substancial das for\u00e7as que se opunham \u00e0 ditadura. O Culto teve enorme repercuss\u00e3o.<\/p>\n<p>A nossa turma, que estava em confronto aberto com o regime, exultou. E eu, atento \u00e0s possibilidades de que uma pris\u00e3o pudesse me acontecer, informei \u00e0 minha companheira Solange, que comigo vivia na clandestinidade: &#8220;se qualquer coisa me suceder e eu sumir, procure esse D. Paulo Evaristo e pe\u00e7a que ele ajude&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu outra. Em dezembro de 1976, a repress\u00e3o desabou sobre uma reuni\u00e3o do Comit\u00ea Central do PCdoB e cometeu a Chacina da Lapa. Matou tr\u00eas, prendeu cinco, eu no meio.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, a cidade e o mundo tomaram conhecimento da chacina, souberam dos mortos, mas o Ex\u00e9rcito n\u00e3o revelava nem os nomes nem o paradeiro dos presos. Provid\u00eancias diversas foram tomadas, pelos familiares, pelos movimentos de defesa de direitos humanos e por pol\u00edticos democratas. E nada. Os dias iam passando. Agentes da repress\u00e3o forjaram em minha casa, nas vistas de minha fam\u00edlia ali detida, uma &#8220;espera&#8221; de meu retorno. Eu j\u00e1 estava preso. Como n\u00e3o voltara, criaram a vers\u00e3o de que eu escapara.<\/p>\n<p>Solange se lembrou do que eu dissera. E junto com advogados de fibra, Luis Eduardo Greenhalgh e M\u00e1rcia, foram a D. Paulo. &#8220;Se Haroldo tivesse escapado j\u00e1 tinha dado sinal de vida&#8221;, dizia Solange. E contudo, o Ex\u00e9rcito n\u00e3o reconhecia a pris\u00e3o de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>D. Paulo, sol\u00edcito atendeu \u00e0 minha companheira e advogados. Pensou, balan\u00e7ou os pr\u00f3s e os contra e tomou uma iniciativa destemida e de alta efici\u00eancia. Chamou a imprensa e revelou que ele j\u00e1 estava com a lista completa dos que foram presos, que estava aguardando a confirma\u00e7\u00e3o oficial do Ex\u00e9rcito. Pouco depois o Ex\u00e9rcito divulgou a lista dos presos. Houve comemora\u00e7\u00e3o: eu estava preso, n\u00e3o morto.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o dos 50 anos de Episcopado de D. Paulo, junto a minha voz com a dos que devem a ele a solidariedade militante na luta pela liberdade nas horas decisivas e desejo: longa, longa vida a D. Paulo Evaristo Arns.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m<\/strong>:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/noticia\/284033-8\">Lideran\u00e7as relembram papel decisivo de D.Paulo Arns contra a carestia <\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.vermelho.org.br\/noticia\/284024-1\">D. Paulo Evaristo Arns, o cardeal da democracia <\/a><\/p>\n<p><em>*Haroldo Lima \u00e9 preso na Chacina da Lapa, em 1976. Membro do Comit\u00ea Central do PCdoB. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Colabora\u00e7\u00e3o de L\u00eddia Rodrigues) Tudo era cinzento naquele ambiente politicamente viciado do in\u00edcio dos anos 70. 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