{"id":1661,"date":"2016-07-20T23:53:51","date_gmt":"2016-07-21T02:53:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1661"},"modified":"2016-07-20T23:53:58","modified_gmt":"2016-07-21T02:53:58","slug":"do-iluminismo-as-trevas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/07\/20\/do-iluminismo-as-trevas\/","title":{"rendered":"DO ILUMINISMO \u00c0S TREVAS"},"content":{"rendered":"<p>Com nomes de destaque nacional e internacional na m\u00fasica, nas artes pl\u00e1sticas, no teatro, na poesia, na literatura, no cinema e outras \u00e1reas do conhecimento humano, a Bahia j\u00e1 foi um grande celeiro de cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e de projetos que alavancaram o desenvolvimento cultural e cient\u00edfico do Estado.<\/p>\n<p>Arrisco a dizer que as d\u00e9cadas mais recentes de 40, 50, 60 e at\u00e9 70 do s\u00e9culo passado foram efervescente e representaram a era do iluminismo baiano que depois foi cedendo lugar \u00e0s trevas das ideias e dos pensamentos consumistas de interesses puramente comerciais.<\/p>\n<p>Diferente dos tempos passados renascentistas, hoje o criador, na sua grande maioria, ao elaborar qualquer projeto ou obra art\u00edstica pensa logo se est\u00e1 alinhado ao que o mercado quer e pede. Caso contr\u00e1rio, seu trabalho n\u00e3o sobreviver\u00e1 \u00e0 ditadura do mercantilismo capitalista e da patrulha ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Quando resolvi abordar o tema \u201cdo iluminismo \u00e0s trevas\u201d confesso que me veio \u00e0 mente as produ\u00e7\u00f5es musicais das d\u00e9cadas passadas em refer\u00eancia com as da atualidade com suas letras de baixo n\u00edvel, principalmente a partir dos arrast\u00f5es carnavalescos da chamada era do \u201cax\u00e9 music\u201d que est\u00e1 mais para a exist\u00eancia do caos.<\/p>\n<p>V\u00e1rios outros segmentos da nossa cultura popular e acad\u00eamica tamb\u00e9m se chafurdaram pelos v\u00edcios dessa produ\u00e7\u00e3o desprez\u00edvel. Nisso, algumas tradi\u00e7\u00f5es culturais, lamentavelmente, vivem processo de extin\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso das nossas seculares festas juninas que n\u00e3o s\u00e3o mais as mesmas por causa das misturas nefastas e bab\u00e9licas de outros estilos ex\u00f3ticos e alien\u00edgenas, cujos representantes insistem argumentar que as mudan\u00e7as s\u00e3o necess\u00e1rias porque estamos em outros tempos.<\/p>\n<p>Vivemos per\u00edodos duros da ditadura militar quando as pessoas letradas, mesmo oprimidas e amorda\u00e7adas, ainda colhiam os frutos do aprendizado revolucion\u00e1rio educacional e cultural das d\u00e9cadas de 50 e 60. Aquela gente ainda tinha o gosto e o prazer de ler, pesquisar e estudar. N\u00e3o aceitavam pacotes vazios cheios de pap\u00e9is picados e in\u00fateis. O que temos hoje \u00e9 um bando de sofistas e surfistas.<\/p>\n<p>A regress\u00e3o do ensino a partir do final da d\u00e9cada de 70 se acentuou com a redemocratiza\u00e7\u00e3o e a\u00ed, a liberdade de express\u00e3o por si s\u00f3, n\u00e3o foi ant\u00eddoto imunol\u00f3gico suficiente para eliminar o v\u00edrus devastador das ideias oportunistas mercadol\u00f3gicas. Tornamo-nos ex\u00edmios consumidores de uma sopa de embalagens bonitinhas por fora e ordin\u00e1rias por dentro. Tempos de Sodoma e Gomorra!<\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico da Bahia, que pode tamb\u00e9m servir de exemplo para todo Brasil, o inverso aconteceu com a redemocratiza\u00e7\u00e3o a partir de 1946 em que se deu a vit\u00f3ria sobre o nazi fascismo e o Estado Novo. Sem contar Ruy Barbosa e outros nomes de peso entre final do s\u00e9culo XIX (Rep\u00fablica) e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, uma safra de grandes intelectuais, como An\u00edsio Teixeira, Nestor Duarte e outros, come\u00e7ou a ser colhida a partir do Governo de Oct\u00e1vio Mangabeira.<\/p>\n<p><!--more-->\u00a0A autoestima dos baianos foi por assim dizer restaurada com a cria\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1946, onde o reitor Edgar Santos deu novo impulso \u00e0 cultura, embora j\u00e1 existissem movimentos de vanguarda na literatura, na educa\u00e7\u00e3o e nas artes em geral.<\/p>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o da Petrobr\u00e1s imprimiu novo conceito moderno de industrializa\u00e7\u00e3o na Bahia, e as d\u00e9cadas de 50 e 60 bombaram na m\u00fasica, na dan\u00e7a e no teatro. Por outro lado, o ensino p\u00fablico desde o prim\u00e1rio ao cl\u00e1ssico e cient\u00edfico era refer\u00eancia em qualidade e conte\u00fado, tendo como exemplo maior o Col\u00e9gio Central da Bahia, em Salvador.<\/p>\n<p>O iluminismo progrediu mais ainda com a chegada do Cinema Novo de Roberto Pires, Walter da Silveira, Glauber Rocha e a Tropic\u00e1lia dos Novos Baianos com Caetano, Gilberto Gil, Morais Moreira, Tom Z\u00e9, Gal Costa, Pepeu, Bebe Consuelo e tantos outros, sem deixar de esquecer as obras autorais e filos\u00f3ficas de protesto do nosso grande Raul Seixas.<\/p>\n<p>Jorge Amado, H\u00e9lio P\u00f3lvora, Euclides Neto, Adonias Filho, Ant\u00f4nio Torres, Thales de Azevedo, Afr\u00e2nio Peixoto, Milton Santos, Theodoro Sampaio, Os\u00f3rio Alves Castro, Calasans Neto, M\u00e1rio Cravo J\u00fanior, Juarez Para\u00edso, S\u00f3sigenes Costa, Afonso Manta, Camilo de Jesus Lima, Florisvaldo Mattos, Fernando da Rocha Peres e outros literatos, poetas e pintores propagaram o nome da Bahia e do Brasil l\u00e1 fora, ultrapassando nossas fronteiras.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea do planejamento econ\u00f4mico e cient\u00edfico contamos com as ideias renovadoras de R\u00f4mulo Almeida, Jos\u00e9 de Freitas Mascarenhas e Roberto Santos que contribu\u00edram em muito para a consolida\u00e7\u00e3o do Polo Petroqu\u00edmico de Cama\u00e7ari, al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es de fomento ao desenvolvimento, como do Desenbanco.<\/p>\n<p>Com o retrocesso no ensino m\u00e9dio e superior, a m\u00fasica por ser a arte que mais diretamente reflete os sentimentos populares, foi a mais afetada pelo obscurantismo de suas letras ref\u00e9ns de um mercado imediatista, alimentado pelos shows business da cultura artificial norte-americana.<\/p>\n<p>A ordem foi logo tirar o p\u00e9 do ch\u00e3o e pular aos gritos e grunhidos dos barulhos ensurdecedores. No ritmo do rebolado dos quadris e dos bumbuns expostos nos palcos e nos trios el\u00e9tricos, os s\u00faditos imitam seus reis e rainhas como \u00eddolos imortais. N\u00e3o importa o que eles falam de barbaridades! Como disse o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Friedrich Nietzsche, \u201cTudo \u00e9 precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo\u201d.<\/p>\n<p>Quando Dod\u00f4 e Osmar inventaram da sua f\u00f3bica o trio el\u00e9trico e a guitarra baiana, n\u00e3o imaginavam que o movimento tomasse o rumo das trevas com tantas \u201ccomposi\u00e7\u00f5es\u201d musicais de baixo n\u00edvel, apelativas, sem conex\u00e3o e pobres no enredo de suas letras. Ali\u00e1s, a maioria \u00e9 desprovida de enredo. O pior \u00e9 que chamam a tudo isso de p\u00e9ssimo gosto de can\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas!<\/p>\n<p>O povo bem que gostaria de ter coisa boa, mas como s\u00f3 oferecem porcarias, se esbaldam nas dan\u00e7as fren\u00e9ticas dos ax\u00e9s das Ivetes, dos Bels Marques, das Claudias Leites e dos romantismos melosos e fulos dos arrochas, dos pagodes e dos sertanejos que nada t\u00eam de ra\u00edzes aut\u00eanticas que falam da vida, da terra, do amor verdadeiro, da nossa hist\u00f3ria cultural, pol\u00edtica e social. A prova \u00e9 tanto que as pra\u00e7as se enchem para ouvir o som de uma orquestra afinada ou dos grandes artistas que tornaram suas obras eternas, sem apela\u00e7\u00f5es comerciais.<\/p>\n<p>O que temos hoje \u00e9 uma Bahia deformada e maltratada moralmente que trai sua tradi\u00e7\u00e3o cultural como no \u00faltimo circo armado na Barra com o show de fogos de artif\u00edcio onde Ivete Sangalo homenageou Lampi\u00e3o e Maria Bonita em seu \u201cespet\u00e1culo junino\u201d. Logo v\u00e3o elevar Beira Mar e os corruptos da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato ao status de her\u00f3is.<\/p>\n<p>Enquanto as festas dos carnavais, da entrada de ano e anivers\u00e1rio da cidade, copiando o esquema do av\u00f4 ACM, duram semanas com grande parte dos recursos bancados pelo estado e pela prefeitura, a Orquestra Sinf\u00f4nica da Bahia, o Bal\u00e9 Castro Alves, o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e outras institui\u00e7\u00f5es culturais est\u00e3o amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o por falta de verba. Nos seus 33 anos de hist\u00f3ria, a Orquestra Sinf\u00f4nica da Bahia, por exemplo, atravessa o seu momento mais cr\u00edtico. Faltam m\u00fasicos e instrumentos.<\/p>\n<p>Por fim, gostaria de externar que a Bahia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um territ\u00f3rio afrodescendente como focalizam certos movimentos. A Bahia \u00e9 tamb\u00e9m um caldeir\u00e3o de etnias de proced\u00eancia \u00e1rabe, de judeus novos-crist\u00e3os que povoaram nossa regi\u00e3o, de visigodos, de b\u00e1rbaros, de celtas e de outras descend\u00eancias europeias, inclusive a portuguesa, o nosso colonizador mor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com nomes de destaque nacional e internacional na m\u00fasica, nas artes pl\u00e1sticas, no teatro, na poesia, na literatura, no cinema e outras \u00e1reas do conhecimento humano, a Bahia j\u00e1 foi um grande celeiro de cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e de projetos que alavancaram o desenvolvimento cultural e cient\u00edfico do Estado. 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