{"id":1651,"date":"2016-07-12T23:59:10","date_gmt":"2016-07-13T02:59:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1651"},"modified":"2016-07-12T23:59:20","modified_gmt":"2016-07-13T02:59:20","slug":"um-bom-par-de-sapatos-e-um-caderno-de-anotacoes-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/07\/12\/um-bom-par-de-sapatos-e-um-caderno-de-anotacoes-final\/","title":{"rendered":"&#8220;UM BOM PAR DE SAPATOS E UM CADERNO DE ANOTA\u00c7\u00d5ES&#8221; &#8211; Final"},"content":{"rendered":"<p>O FRIO E OS CASTIGOS F\u00cdSICOS<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/SACALINA-001.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1652\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/SACALINA-001.jpg\" alt=\"SACALINA 001\" width=\"250\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/SACALINA-001.jpg 250w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/SACALINA-001-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em sua reportagem, Tch\u00e9khov descreve a solid\u00e3o de Sacalina em tom po\u00e9tico e melanc\u00f3lico como no trecho: \u201cOs trabalhos for\u00e7ados, mesmo \u00e0 luz dos fogos, continuam a ser o que s\u00e3o, e a m\u00fasica, quando ouvida de longe por algu\u00e9m que jamais voltar\u00e1 \u00e0 terra natal, s\u00f3 desperta uma saudade mortal\u201d.<\/p>\n<p>Sobre as pris\u00f5es e o frio que ferem a alma, o m\u00e9dico pesquisador cita num de seus escritos: \u201cDizem que em Sacalina o pr\u00f3prio clima predisp\u00f5e as mulheres \u00e0 gravidez; mulheres idosas d\u00e3o \u00e0 luz, mesmo aquelas que na R\u00fassia eram est\u00e9reis e j\u00e1 tinham perdido a esperan\u00e7a de ter filhos\u201d. Mist\u00e9rios da natureza e do tempo!<\/p>\n<p>Conforme reporta, no sul da ilha os castigos f\u00edsicos s\u00e3o mais frequentes e chegam a a\u00e7oitar at\u00e9 cinquenta homens por vez. Os livres n\u00e3o tiram o chap\u00e9u para entrar nas casernas. Os for\u00e7ados batem contin\u00eancia e tiram o gorro ao passar pelos livres.<\/p>\n<p>O escritor consegue driblar a censura da \u00e9poca tzarista e denuncia em detalhes os sofrimentos desumanos impostos aos detentos. Dos trabalhos, o for\u00e7ado volta \u00e0 pris\u00e3o para dormir com as roupas encharcadas e os cal\u00e7ados imundos; n\u00e3o h\u00e1 com que se enxugar; parte das roupas \u00e9 estendida ao lado das tarimbas, sobre outra parte, sem deix\u00e1-la secar, ele se deita como que num enxerg\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--> Sua roupa de baixo, impregnada de secre\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas, molhada e h\u00e1 muito tempo sem lavar que se mistura a sacos velhos e trapos f\u00e9tidos&#8230; E a\u00ed ele (o for\u00e7ado) entra nas entranhas sujas das migalhas de p\u00e3o, dos percevejos esmagados entre os dedos, tudo isso misturado a gases intestinais soltos pelos detentos.<\/p>\n<p>Em meio a tantas cenas de mis\u00e9ria e pobreza, Tch\u00e9khov conta a hist\u00f3ria de um homem que optou por n\u00e3o trabalhar e cantar livremente. Foi posto a duros castigos e depois dos a\u00e7oites recebidos sempre exclamava que n\u00e3o iria trabalhar. \u201cTentaram de tudo com ele e, por fim, desistiram. Agora perambula por Due e canta.\u201d<\/p>\n<p>Ao descrever cenas alegres de uma feira num distrito da ilha, de repente o escritor aparece desfazendo o quadro id\u00edlico que vira fuma\u00e7a quando s\u00e3o ouvidos ru\u00eddos insuport\u00e1veis das correntes e os passos surdos dos presos. Ele chama Sacalina de indigna ilha e lugar mais chuvoso da R\u00fassia onde o tempo \u00e9 deprimente e intermin\u00e1vel com pensamentos depressivos.<\/p>\n<p>No seu texto-reportagem, recomenda n\u00e3o protelar e escrever enquanto as impress\u00f5es ainda est\u00e3o vivas. Em sua obra, o autor aproveita tamb\u00e9m para denunciar o desmatamento e o assoreamento da ilha atrav\u00e9s do abate das florestas e a constru\u00e7\u00e3o de obras, servi\u00e7os estes impostos aos for\u00e7ados. No subt\u00edtulo \u201cNada de Paneg\u00edricos\u201d, Tch\u00e9khov recomenda \u201cdizer as coisas como s\u00e3o, citando dados de fato, para permitir a qualquer um a possibilidade de formar uma opini\u00e3o e expressar um julgamento\u201d.<\/p>\n<p>De Sacalina ele relata o terror nas pris\u00f5es onde o acusado permanece detido sem nenhuma fundamenta\u00e7\u00e3o. Cita o caso de um detido que recebeu cem vergastadas e foi mantido no escuro, faminto, em estado de terror at\u00e9 confessar. Descreve ainda a penitenci\u00e1ria como pardieiro com influ\u00eancia dos maus sobre os bons. Nos alojamentos de b\u00e1rbaros, como notifica, as mo\u00e7as de 15 anos s\u00e3o obrigadas a dormir ao lado de for\u00e7ados. As mulheres s\u00e3o tratadas com arrog\u00e2ncia e desprezo. S\u00e3o v\u00e1rias as hist\u00f3rias de pessoas maltratadas.<\/p>\n<p>AP\u00caNDICE<\/p>\n<p>\u201cUm M\u00e9dico no Inferno\u201d \u00e9 o t\u00edtulo do Ap\u00eandice do livro escrito por Piero Brunello que faz uma an\u00e1lise cr\u00edtica de Anton Tch\u00e9khov citando que aos trinta anos ele come\u00e7ava a ser um escritor de sucesso, antes de compor \u201cTio V\u00e2nia\u201d e outras obras teatrais. Sobre sua sa\u00fade debilitada, o autor escreve para seu editor que no sangue que sai pela sua boca h\u00e1 algo de fat\u00eddico, como no p\u00f4r-do-sol.<\/p>\n<p>Piero destaca que Tch\u00e9khov era atacado pelos cr\u00edticos liberais da velha gera\u00e7\u00e3o dos populistas que n\u00e3o o perdoavam por escrever para N\u00f3voie Vri\u00e9mia, um peri\u00f3dico conservador. Os cr\u00edticos o tinham como talento, mas censuravam-no por desperdi\u00e7\u00e1-lo em contos curtos. Para eles, narrativas de poucas p\u00e1ginas contam apenas acontecimentos banais.<\/p>\n<p>Nikolai Mikhail\u00f3vski, expoente do populismo, acusou Tch\u00e9khov de falta de ideias e de representar o t\u00e9dio da d\u00e9cada de 1880. Para ele, seus contos eram desumanos, longe das esperan\u00e7as e das lutas revolucion\u00e1rias dos anos 60. Por sua vez, Tch\u00e9khov sempre deplorou seus cr\u00edticos e afirmava que n\u00e3o era liberal nem conservador, que n\u00e3o fazia profiss\u00e3o de progressismo nem de indiferen\u00e7a, que n\u00e3o queria ser outra coisa a n\u00e3o ser um artista livre.<\/p>\n<p>Em 1890, um artigo publicado na revista \u201cPensamento Russo\u201d o acusou de ser indiferente \u00e0s quest\u00f5es sociais e pol\u00edticas. Confessou que n\u00e3o fez nada pela administra\u00e7\u00e3o, pela liberdade de imprensa, mas nem mesmo a revista tinha feito mais. \u201cNunca extorqui nada de ningu\u00e9m. N\u00e3o escrevi libelos, nem den\u00fancias, n\u00e3o adulei, n\u00e3o menti, n\u00e3o ofendi\u201d. Diz Piero que Tch\u00e9khov se esfor\u00e7ava mais para ser conhecido como m\u00e9dico do que como escritor.<\/p>\n<p>Todas essas pol\u00eamicas contribu\u00edram para sua decis\u00e3o de fazer uma pesquisa na ilha dos deportados que rendeu bom texto jornal\u00edstico. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s discuss\u00f5es sobre pris\u00e3o e desterro, o escritor criticava que n\u00e3o existiam estudos s\u00e9rios, e desabafou que \u201cos literatos falavam dos camponeses morando na cidade\u201d.<\/p>\n<p>Quanto aos jornalistas, para ele n\u00e3o dispunham de tempo, nem meios, nem liberdade de a\u00e7\u00e3o. \u201cChegam correndo num lugar, farejam, escrevem e d\u00e3o no p\u00e9\u201d. Em suas cartas, comentava que mal remunerado, o jornalista de um jornal galopa, galopa, rogando a Deus que n\u00e3o impliquem com ele por suas involunt\u00e1rias e inevit\u00e1veis mentiras.<\/p>\n<p>Mesmo confessando que n\u00e3o era um escritor de den\u00fancia, certa vez enviou uma carta ao seu editor afirmando que Sacalina era o lugar dos mais intoler\u00e1veis sofrimentos que o ser humano \u00e9 capaz de suportar: \u201cDeixamos apodrecer milh\u00f5es de pessoas nas pris\u00f5es, deixamos apodrecer, sem raz\u00e3o, de maneira b\u00e1rbara; fizemos pessoas algemadas correr no frio dezenas de milhares de verstas; transmitimos s\u00edfilis, corrompemos, multiplicamos os criminosos, e tudo isso n\u00f3s imputamos aos carcereiros de nariz vermelho\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O FRIO E OS CASTIGOS F\u00cdSICOS Em sua reportagem, Tch\u00e9khov descreve a solid\u00e3o de Sacalina em tom po\u00e9tico e melanc\u00f3lico como no trecho: \u201cOs trabalhos for\u00e7ados, mesmo \u00e0 luz dos fogos, continuam a ser o que s\u00e3o, e a m\u00fasica, quando ouvida de longe por algu\u00e9m que jamais voltar\u00e1 \u00e0 terra natal, s\u00f3 desperta uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1651"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1651"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1651\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1653,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1651\/revisions\/1653"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}