{"id":1646,"date":"2016-07-09T01:30:00","date_gmt":"2016-07-09T04:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1646"},"modified":"2016-07-09T01:30:08","modified_gmt":"2016-07-09T04:30:08","slug":"um-bom-par-de-sapatos-e-um-caderno-de-anotacoes-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/07\/09\/um-bom-par-de-sapatos-e-um-caderno-de-anotacoes-i\/","title":{"rendered":"&#8220;UM BOM PAR DE SAPATOS E UM CADERNO DE ANOTA\u00c7\u00d5ES&#8221; (I)"},"content":{"rendered":"<p>Como fazer uma reportagem<\/p>\n<p>Uma viagem ao inferno dos deportados, dos condenados a trabalhos for\u00e7ados, dos carcereiros, dos colonos e dos camponeses foi feita pelo m\u00e9dico e escritor Anton Tch\u00e9khov aos 30 anos \u00e0 ilha Sacalina, na Sib\u00e9ria Oriental, em 1890, durante o imp\u00e9rio russo tzarista.<\/p>\n<p>O recenseamento dos habitantes do local foi um pretexto que o autor aventureiro encontrou para realizar seu objetivo maior de escrever o livro \u201cA Ilha de Sacalina\u201d, do qual o prefaciador Piero Brunello fez uma sele\u00e7\u00e3o de textos que gerou \u201cUm Bom Par de Sapatos e um Caderno de Anota\u00e7\u00f5es\u201d &#8211; Como Fazer uma Reportagem.<\/p>\n<p>Como est\u00e1 expl\u00edcito no subt\u00edtulo, o livro da editora Martins deve ser uma leitura de constante aprendizagem para estudantes de jornalismo, profissionais e pessoas interessadas no assunto porque oferece valiosas dicas e passos importantes de como observar os locais; tratar as fontes; e fazer uma entrevista para conseguir uma boa reportagem jornal\u00edstica.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/SACALINA-004.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1647\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/SACALINA-004.jpg\" alt=\"SACALINA 004\" width=\"250\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/SACALINA-004.jpg 250w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/SACALINA-004-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Com o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e o advento da internet, o t\u00edtulo poderia ser atualizado para \u201cUm Bom Par de Sapatos e um Gravador com uma M\u00e1quina Fotogr\u00e1fica\u201d, se bem que ainda gosto do caderno de anota\u00e7\u00f5es. O conte\u00fado do livro permaneceria o mesmo.<\/p>\n<p>O jornalista para ser um bom rep\u00f3rter tem que gastar sola de sapato e n\u00e3o ficar enfurnado numa reda\u00e7\u00e3o durante todo tempo diante de uma tela de computar usando aplicativos e e-mails para fazer uma reportagem. Tem que ser c\u00e9tico como Tch\u00e9khov. Para ele tudo era mat\u00e9ria e que fora dela n\u00e3o h\u00e1 verdade. O escritor Tolst\u00f3i certa vez o definiu como ateu absoluto, mas excelente pessoa.<\/p>\n<p>Tch\u00e9khov em seus trabalhos definia o escritor n\u00e3o como um confeiteiro, mas como um rep\u00f3rter e perguntava: O que voc\u00ea diria de um rep\u00f3rter que por repulsa ou pelo desejo de satisfazer os leitores, descrevesse apenas prefeitos honestos, damas sublimes e ferrovi\u00e1rios virtuosos? A indaga\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 atual aos tempos de hoje.<\/p>\n<p><!--more--> Em sua vis\u00e3o, um escritor deve retratar a vida tal como ela \u00e9 na realidade, sabendo que as paix\u00f5es m\u00e1s s\u00e3o t\u00e3o inerentes \u00e0 vida quanto as boas. Nelson Rodrigues com suas cr\u00f4nicas pol\u00eamicas que causaram esc\u00e2ndalos na \u00e9poca deve ter bebido da fonte do russo-ucraniano.<\/p>\n<p>Numa compara\u00e7\u00e3o como m\u00e9dico disse sobre si mesmo que a medicina era sua esposa leg\u00edtima e a literatura sua amante. \u201cTanto a anatomia como as letras t\u00eam a mesma origem nobre, os mesmo fins e o mesmo inimigo: o dem\u00f4nio, e n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma para se desligarem\u201d.<\/p>\n<p>Em sua viagem por Sacalina atentou para as quest\u00f5es do meio ambiente e n\u00e3o poupou cr\u00edticas \u00e0 depreda\u00e7\u00e3o da natureza com a chegada dos primeiros colonos e deportado. \u201cAs florestas n\u00e3o param de diminuir, os rios secam, os animais silvestres desapareceram, o clima piorou e a cada dia a terra torna-se cada vez mais pobre e mais \u00e1rida\u201d. S\u00e3o palavras ditas por um m\u00e9dico naquela \u00e9poca, final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 um po\u00e7o de poesia e transborda quando o autor escreve esta ora\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 natureza: \u201cQuando ou\u00e7o farfalhar o jovem bosque, que plantei com minhas pr\u00f3prias m\u00e3os, sinto que tenho algum poder sobre a bondade do clima e que se daqui a mil anos o homem for feliz, terei contribu\u00eddo um pouquinho para isso\u201d.<\/p>\n<p>A VIAGEM AO INFERNO<\/p>\n<p>Na abertura e no ap\u00eandice do livro, de reportagem prazerosa de ser ler, Piero Brunello nos conta que o ucraniano Tch\u00e9khov saiu da R\u00fassia (Peterburgo) em 21 de abril de 1890. Percorreu a Sib\u00e9ria em ve\u00edculos de tra\u00e7\u00e3o animal, balsas e barcos a vapor at\u00e9 chegar \u00e0 ilha numa viagem de dois meses e meio. Foi como ter penetrado num inferno, conforme descreveu para seu editor Suv\u00f3rin.<\/p>\n<p>Seu projeto, na verdade, come\u00e7ou no in\u00edcio de janeiro do mesmo ano num encontro com G\u00e1lkin-Vr\u00e1ski, diretor da administra\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria a quem pediu um documento que o autorizasse visitar a ilha para fins liter\u00e1rios e cient\u00edficos. Nunca recebeu a autoriza\u00e7\u00e3o, mas Tch\u00e9khov viajou como correspondente do jornal de Suv\u00f3rin.<\/p>\n<p>Na ida escolheu viajar por terra e demorou dois meses e meio, num percurso de 12 mil quil\u00f4metros. Seu editor emprestou-lhe dinheiro em troca de artigos para o jornal. Era como se toda a ilha estivesse ardendo. E tudo \u00e9 envolto pela fuma\u00e7a, como no inferno &#8211; escreveu ao seu editor logo nos primeiros dias da sua chegada.<\/p>\n<p>Nos artigos seguintes narra cenas de horror reportando que os condenados n\u00e3o se distinguiam dos colonos livres. Enfermarias e hospitais amontoavam doentes, fosse qual fosse a doen\u00e7a, junto com indiv\u00edduos que perdiam o ju\u00edzo devido a insuport\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es de vida. Por toda parte o arb\u00edtrio, a injusti\u00e7a. Aos culpados de infra\u00e7\u00f5es eram dadas de trinta a cem vergastadas \u2013 desabafa o m\u00e9dico-rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>O recenseamento permitiu-lhe entrar nas habita\u00e7\u00f5es, nas casernas e nos c\u00e1rceres e assim, encontrou-se com as pessoas; viu como viviam; e escutou suas hist\u00f3rias. Depois de tr\u00eas meses de pesquisas, Tch\u00e9khov voltou para casa navegando pelo mar do Jap\u00e3o e o Oceano \u00cdndico. Com seu estilo jornal\u00edstico primoroso de contar os fatos, durante todo esse tempo o leitor tamb\u00e9m viaja ao lado do autor.<\/p>\n<p>Antes e durante toda sua jornada, o pesquisador-jornalista escreve cartas para seu amigo Aleksei Suv\u00f3rin, editor do peri\u00f3dico N\u00f3voie Vri\u00e9mia relatando suas observa\u00e7\u00f5es e dificuldades encontradas, especialmente quanto \u00e0 censura da \u00e9poca tzarista. Entre cr\u00edticas e elogios, um dos pontos importantes do seu trabalho \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o de cada fase das reportagens, como preparativos entre leituras e d\u00favidas, pesquisa de campo, coleta de dados e o momento de colocar em ordem documentos e anota\u00e7\u00f5es para come\u00e7ar a escrever.<\/p>\n<p>Numa de suas missivas para seu editor ele enfatiza que Sacalina \u00e9 um lugar de sofrimentos intoler\u00e1veis, que s\u00f3 o ser humano, livre ou for\u00e7ado, \u00e9 capaz de suportar. De l\u00e1 o autor pede livros para se inteirar mais da regi\u00e3o como \u201cA Sib\u00e9ria e o Trabalho For\u00e7ado\u201d, de Maks\u00edmov.<\/p>\n<p>Mesmo diante da degrada\u00e7\u00e3o do ser humano, numa ilha suja, repleta de deportados e condenados a trabalhos for\u00e7ados, o escritor reservas linhas po\u00e9ticas que d\u00e3o encanto ao local, \u00e0s paisagens e o modo de viver de seus habitantes. No cap\u00edtulo \u201cN\u00e3o Planejar Demais\u201d, ensina que, \u00e0s vezes, deixar nas m\u00e3os do acaso pode revelar-se \u00fatil, principalmente se o lugar \u00e9 desconhecido. A orienta\u00e7\u00e3o me fez lembrar das minhas lidas e caminhadas \u00a0como jornalista.<\/p>\n<p>Da ilha dos for\u00e7ados, o farol de Aleksandrovsk, no seu sentir po\u00e9tico, contempla o mundo com seu olho vermelho. \u201cOs for\u00e7ados e os colonos, dia ap\u00f3s dia, cumprem suas penas, enquanto os livres, desde manh\u00e3 at\u00e9 a noite, n\u00e3o falam de outra coisa a n\u00e3o ser dos que foram a\u00e7oitados, dos que escaparam, dos que foram presos e ser\u00e3o surrados; e o estranho \u00e9 que em uma semana a gente se habitua a essas conversas e a esses interesses e, logo depois de acordar, antes de mais nada, vai atr\u00e1s das ordens publicadas pelo general, o jornal di\u00e1rio do lugar, e da\u00ed passa o dia inteiro a ouvir e a falar de quem fugiu, de quem fuzilaram e assim por diante\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como fazer uma reportagem Uma viagem ao inferno dos deportados, dos condenados a trabalhos for\u00e7ados, dos carcereiros, dos colonos e dos camponeses foi feita pelo m\u00e9dico e escritor Anton Tch\u00e9khov aos 30 anos \u00e0 ilha Sacalina, na Sib\u00e9ria Oriental, em 1890, durante o imp\u00e9rio russo tzarista. 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