{"id":1569,"date":"2016-06-03T00:21:03","date_gmt":"2016-06-03T03:21:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1569"},"modified":"2016-06-03T00:21:19","modified_gmt":"2016-06-03T03:21:19","slug":"uma-chama-que-se-apaga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/06\/03\/uma-chama-que-se-apaga\/","title":{"rendered":"UMA CHAMA QUE SE APAGA!"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o aguento mais ver imagens do roteiro da tocha ol\u00edmpica cercada por viaturas da pol\u00edcia, um aparato de soldados motoqueiros e seguran\u00e7as trotando de cal\u00e7as curtas de cor marrom e \u00f3culos escuros! O rep\u00f3rter aparece com cara de paisagem anunciando a passagem da chama com aqueles chav\u00f5es de sempre sobre p\u00e1tria e cidadania como nas \u00e9pocas de elei\u00e7\u00f5es. Aqui fico pensando como me fazem de besta e idiota num pa\u00eds que me tira o m\u00e1ximo e me d\u00e1 o m\u00ednimo de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, saneamento e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora nas cal\u00e7adas, ruas e quarteir\u00f5es se estendem as filas de mais de 11 milh\u00f5es de desempregados nas portas das empresas. Outros milh\u00f5es de crian\u00e7as, idosos e mulheres gr\u00e1vidas passaram dias e noites se humilhando nos postos de sa\u00fade pela vacina H1N1 contra a gripe que n\u00e3o deu para todos. Mais uma chama de esperan\u00e7a se apagou ali naquelas torturantes filas para centenas de brasileiros.<\/p>\n<p>A infla\u00e7\u00e3o corr\u00f3i os intestinos das pessoas mais pobres e nos port\u00f5es e corredores dos hospitais se ouve choros e sussurros angustiantes de pacientes crian\u00e7as, mulheres, idosos e de seus parentes por falta de atendimento m\u00e9dico. Cada um engole a sua dor como pode e sente l\u00e1 no fundo da alma o fogo da esperan\u00e7a se apagar. As cenas de terror se repetem todos os dias como se essa gente vivesse em campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No sol, na chuva, no frio, na \u00e1gua, por entre morros, montanhas, pra\u00e7as e arranha-c\u00e9us, a chama das olimp\u00edadas n\u00e3o se apaga. L\u00e1 fora nas metr\u00f3poles, rinc\u00f5es distantes e nos locais mais pacatos, os bandidos assaltantes atiram nos cidad\u00e3os desprotegidos para roubar um celular, um t\u00eanis, o dinheiro no bolso, sua casa ou sua loja comercial. O vento dos malfeitores chicoteia em nossos lombos e zune forte como furac\u00e3o, roubando a esperan\u00e7a de se viver num Brasil melhor.<\/p>\n<p>As multid\u00f5es euf\u00f3ricas gritam e abrem espa\u00e7os aos empurr\u00f5es para tocar na tocha e tirar uma foto, como f\u00e3s hist\u00e9ricas por seus \u00eddolos de pl\u00e1stico e de metais enferrujados. A \u201chero\u00edna\u201d \u00e9 recebida com festas e shows, discursos hip\u00f3critas e aplausos. Nas cidades, vilas, povoados e nos grot\u00f5es mais carentes de tudo, as escolas de taipa n\u00e3o t\u00eam telhado e as carteiras est\u00e3o quebradas. Os alunos tentam arranhar seus nomes nos pap\u00e9is sujos, enquanto o professor risca alguma coisa na lousa. Com o m\u00e9todo arcaico e enfadonho, cada um faz de conta que cumpre com seu dever c\u00edvico.<\/p>\n<p>Nos escrit\u00f3rios, gabinetes luxuosos e nas plen\u00e1rias legislativas de ar condicionado com poltronas acolchoadas, os homens almofadinhas de palavras medidas tramam como assaltar a merenda escolar, os rem\u00e9dios e como desviar o dinheiro das refinarias, das hidrel\u00e9tricas, das sondas de petr\u00f3leo e das obras dos programas sociais. Faltam recursos para se fazer justi\u00e7a, e o morador de rua cata uma migalha no lixo para matar a fome, enquanto a chama passa faceira e deslumbrante fazendo seu roteiro para os id\u00f3latras.<\/p>\n<p>Por onde ela percorre, o mosquito da dengue, da chikukunha e da zica prolifera porque o dinheiro para o combate, a pesquisa e a preven\u00e7\u00e3o \u00e9 curto. As m\u00e3es da microcefalia com seus beb\u00eas mirrados no colo derramam suas \u00faltimas l\u00e1grimas porque perderam a chama da esperan\u00e7a de terem seus filhos normais e saud\u00e1veis como planejavam.<\/p>\n<p>L\u00e1 se foi mais uma esperan\u00e7a! A m\u00eddia, que tem o poder da coa\u00e7\u00e3o, e os mo\u00e7os do governo nos ensinam uma li\u00e7\u00e3o mentirosa da preven\u00e7\u00e3o da sa\u00fade quando os exames e os diagn\u00f3sticos da doen\u00e7a tardam a chegar ou s\u00f3 chegam depois da morte do paciente que passou toda sua vida sem entender que cidadania \u00e9 essa que os mandat\u00e1rios da p\u00e1tria lhe prometeram.<\/p>\n<p>Enquanto os puxadores da tocha fazem algazarras e barulhos com suas dan\u00e7as festivas e ex\u00f3ticas, os bons se mant\u00eam em sil\u00eancio sepulcral aceitando as desgra\u00e7as humanas como lei natural dos fortes que estrangulam os fracos. L\u00e1 vai a chama glorificada por um povo que ainda acredita nessas gl\u00f3rias artificiais que se perdem no nevoeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o aguento mais ver imagens do roteiro da tocha ol\u00edmpica cercada por viaturas da pol\u00edcia, um aparato de soldados motoqueiros e seguran\u00e7as trotando de cal\u00e7as curtas de cor marrom e \u00f3culos escuros! 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