{"id":1556,"date":"2016-05-28T00:39:48","date_gmt":"2016-05-28T03:39:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1556"},"modified":"2016-05-28T00:39:58","modified_gmt":"2016-05-28T03:39:58","slug":"lagrimas-azuis-memorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/05\/28\/lagrimas-azuis-memorias\/","title":{"rendered":"&#8220;L\u00c1GRIMAS AZUIS &#8211; MEM\u00d3RIAS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Em rodas de amigos, bate-papos, saraus e encontros diversos quando as pessoas me perguntam aonde nasci sempre respondo que em Mairi (antiga Monte Alegre) e em Piritiba, mas tamb\u00e9m em Amargosa, Salvador e Vit\u00f3ria da Conquista, na Bahia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, como assim, cara?<\/p>\n<p>A\u00ed tento explicar que Mairi \u00e9 a terra-m\u00e3e biol\u00f3gica onde uma parteira da ro\u00e7a me pegou numa fazendinha que nem sei mais seu nome. Foi o lugar onde a maior parte dos meus familiares e parentes, os Mac\u00e1rios, os Almeidas e os Lisboas constru\u00edram e solidificaram suas bases.<\/p>\n<p>Em Piritiba, que no final dos anos 40 e in\u00edcio dos 50 ainda pertencia ao munic\u00edpio de Mundo Novo (olha a confus\u00e3o!), foi aonde meus pais, vindos de mudan\u00e7a de Mairi, me registraram. Sempre lavradores, venderam uma terrinha para comprar outra. Piritiba, onde me criei e fiz o prim\u00e1rio, me adotou como filho.<\/p>\n<p>Amargosa, no Semin\u00e1rio Nossa Senhora do Bom Conselho, me deu a forma\u00e7\u00e3o ginasial e parte do cl\u00e1ssico durante seis anos, de 1962 a 1968. Em Salvador foram mais de 20 anos entre a universidade (Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o\/Jornalismo) e a base profissional. Vit\u00f3ria da Conquista me deu o t\u00edtulo de cidad\u00e3o e mais ra\u00edzes para o crescimento no jornalismo. Aqui tomei gosto e inventei seguir carreira solo de escritor.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/003.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1557\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/003.jpg\" alt=\"003\" width=\"350\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/003.jpg 350w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/003-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Bem, confesso que nem eu mesmo entendi esse \u201cnariz de cera\u201d para falar da nova edi\u00e7\u00e3o do livro \u201cL\u00e1grimas Azuis \u2013 Mem\u00f3rias\u201d, da professora licenciada em Letras pela Uneb (Jacobina), Iraci Pacheco Pedreira. Acho que foi para tamb\u00e9m dizer do orgulho de ter nascido nesta terra de Mairi, embora, por circunst\u00e2ncias familiares da \u00e9poca, ter partido ainda crian\u00e7a para outras plagas, sem levar no embornal seu valioso registro de nascimento. Tenho essa frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem mais delongas, li a nova edi\u00e7\u00e3o de \u201cL\u00e1grimas Azuis\u201d e digo que a obra liter\u00e1ria de Iraci Pacheco n\u00e3o se reporta apenas \u00e0s mem\u00f3rias familiares, mas tamb\u00e9m \u00e9 hist\u00f3ria de Mairi e regi\u00e3o; \u00e9 document\u00e1rio; \u00e9 autobiografia e reportagem sociol\u00f3gica quando fala da seca do sert\u00e3o, dos h\u00e1bitos, dos costumes e da cultura popular do interior.<\/p>\n<p>Para confirmar e provar a minha an\u00e1lise sobre o trabalho de Iraci, destaco alguns trechos da carta do sr. Colbert Torres da Silva onde comenta que a autora fez bem narrar sobre as feiras semanais, que al\u00e9m de um mercado a c\u00e9u aberto, elas eram tamb\u00e9m ponto de encontro de toda sociedade do munic\u00edpio. S\u00f3 retifico, sr. Colbert, que as feiras ainda s\u00e3o ponto de encontro, mesmo com a internet e as redes sociais.<\/p>\n<p>Como disse Colbert, a escritora fala no seu livro sobre casamentos, tropeiros, ciganos e boiadeiros, \u201cfiguras que tiveram papel saliente em todo interior do Brasil e tamb\u00e9m a\u00ed em nossa Bahia\u201d. A entrada de Lampi\u00e3o no munic\u00edpio, em 1933, citada por Iraci, quando muita gente fugiu para o mato, tamb\u00e9m \u00e9 hist\u00f3ria que ouvi dos meus pais e os mais antigos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/005.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1558\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/005.jpg\" alt=\"005\" width=\"550\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/005.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2016\/05\/005-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Versos e pensamentos de grandes escritores, poetas e compositores, como Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Z\u00e9 Dantas, Patativa do Assar\u00e9, Dom e Ravel, Tim Maia, Alceu Valen\u00e7a, Z\u00e9 Ramalho, Jorge Amado, H\u00e9lio P\u00f3lvora (jornalista e escritor), Renato Teixeira, Gilberto Gil e tantos outros s\u00e3o mencionados nos cap\u00edtulos do seu livro, a exemplo de \u201cRa\u00edzes\u201d que fala das lembran\u00e7as dos ancestrais, caso do seu bisav\u00f4 Calixto Pereira Pacheco, homem rico e todo poderoso, dono do povoado de V\u00e1rzea da Ro\u00e7a, que guardava dinheiro num saco, no forro do seu grande casar\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more-->Gostei muito dos prov\u00e9rbios do seu bisav\u00f4, das recorda\u00e7\u00f5es dos seus pais, Madalena de Oliveira Pacheco e Pac\u00edfico Assis Pacheco, caracter\u00edsticas familiares e dos causos e casos das viagens pelo Brasil a fora. Como n\u00e3o poderia apreciar sua narrativa simples e deliciosa em \u201cA Vida nas Fazendas\u201d se minha origem veio do campo onde observei os costumes e os h\u00e1bitos do povo simples da zona rural. Como adorava as conversas do meu pai com seus amigos e compadres at\u00e9 altas horas da noite! Saudades!<\/p>\n<p>Fiquei tamb\u00e9m encantado com o cap\u00edtulo \u201cOs Tropeiros, os Ciganos e os Boiadeiros\u201d. Sua narra\u00e7\u00e3o me fez voltar ao tempo de menino na ro\u00e7a vendo passar nas estradas os tropeiros e as boiadas, pernoitando em nosso rancho. Dos ciganos, lembro meu pai brigando com eles que invadiam as ro\u00e7as de milho pra pegar as espigas, fruto do seu trabalho com muito suor.<\/p>\n<p>Das \u201cSantas Miss\u00f5es\u201d n\u00e3o consigo esquecer dos frades barbudos que faziam seus serm\u00f5es tiranos na Pra\u00e7a de Monte Alegre (Mairi) e deixavam os ouvintes cat\u00f3licos tremendo de medo depois de suas descri\u00e7\u00f5es do inferno dantesco queimando as almas dos pecadores. As prociss\u00f5es e as penitencias at\u00e9 o Monte de Santa Cruz!<\/p>\n<p>Em \u201cOs Cangaceiros e os Revoltosos\u201d, Iraci Pacheco faz men\u00e7\u00e3o ao movimento revolucion\u00e1rio da Coluna Prestes (Luiz Carlos Prestes, Miguel Costa, Juarez T\u00e1vora, Siqueira Campos, Cordeiro de Farias, Djalma Dutra e Jo\u00e3o Alberto), de 1924 a 1927, que passou pela fazenda Tabua e Monte Alegre, em 17, 18 e 19 de junho de 1926. A Coluna foi recebida com festas e banda de m\u00fasica.<\/p>\n<p>Do livro \u201cA Coluna Prestes na Bahia\u201d, de Renato Luis Bandeira, a autora de \u201cL\u00e1grimas Azuis\u201d pontua que Anatalino Medrado que fora sequestrado pelo movimento em Mucug\u00ea, completava nesta ocasi\u00e3o 48 dias em poder da Coluna, sendo libertado nesta cidade. Os homens que pretendiam derrubar o presidente Artur Bernardes foram recebidos pelo prefeito major Patr\u00edcio Francelino da Silva e pelo p\u00e1roco c\u00f4nego Manoel Maria da Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os cangaceiros, comandados por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampi\u00e3o, passaram por perto da cidade. Os boatos de que Lampi\u00e3o estava pr\u00f3ximo, segundo Iraci Pacheco, faziam com que as pessoas abandonassem suas casas e fossem dormir no mato. Lembro, como se ainda fosse hoje, minha m\u00e3e Maria Madalena contando esta hist\u00f3ria da qual tamb\u00e9m foi v\u00edtima. Lampi\u00e3o e Maria Bonita foram mortos na fazenda Angicos, em Sergipe, em 12 de novembro de 1938. Em suas jornadas, os cangaceiros enfrentavam o xique-xique, a macambira, o rabo de raposa, o calumbi e os animais ferozes t\u00edpicos da caatinga do sert\u00e3o \u2013 salienta a autora.<\/p>\n<p>Comoventes suas hist\u00f3rias e causos sobre os vizinhos, suas emo\u00e7\u00f5es com a chegada das chuvas e seus sinais na vis\u00e3o dos sertanejos. J\u00e1 sobre a seca ela derrama suas palavras de dor na medida em que o drama da estiagem penaliza o homem do semi\u00e1rido. Como jornalista, fiz muitas manchetes e fotos sobre a situa\u00e7\u00e3o dos retirantes, da fome e das cinzentas paisagens onde o \u00fanico verde \u00e9 do mandacaru.<\/p>\n<p>Nos meus quarenta anos de atividades jornal\u00edsticas, confesso que a seca era o tema que mais me empolgava e do qual me empenhava com afinco nas conversas e entrevistas com os sertanejos, sobretudo para denunciar os descasos dos governantes que, infelizmente, persistem at\u00e9 hoje. A seca tamb\u00e9m me deixava depressivo ao ponto de me engalfinhar na boemia das noites.<\/p>\n<p>Suas mem\u00f3rias tamb\u00e9m s\u00e3o hist\u00f3rias documentais como no cap\u00edtulo \u201cMairi-cidade do Monte Alegre\u201d, encravada nas encostas da Chapada Diamantina, quando cita sua funda\u00e7\u00e3o entre 1750 a 1800, liderada pelo frei Apol\u00f4nio de Toddy. Cortado pelo rio Jacu\u00edpe, o munic\u00edpio limita-se com V\u00e1rzea do po\u00e7o, Mundo Novo, Baixa Grande, Capela do Alto Alegre, Pintadas e V\u00e1rzea da Ro\u00e7a. Monte Alegre de Nossa Senhora das Dores, como bem disse, foi elevada \u00e0 categoria de vila e sede de munic\u00edpio em 31 de dezembro de 1857, desmembrado do de Jacobina. A vila passou a ser cidade em 5 de agosto de 1897. Em 1944 passou a denominar-se de Mairi, aldeia de branco na tradu\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Recordo quando meu pai falava muito em Hermes Moreira como prefeito em 1930.<\/p>\n<p>Belo seu poema em homenagem ao 5 de agosto, mas permita-me opinar que o anivers\u00e1rio do munic\u00edpio deveria ser comemorado em 11 de janeiro de 1863 quando foi instalada a primeira C\u00e2mara de Vereadores. Na minha vis\u00e3o, \u00e9 a data mais significativa de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deixando a hist\u00f3ria de lado, voc\u00ea finaliza sua obra em grande estilo, falando de si, de suas emo\u00e7\u00f5es na luta da vida, dos seus entes queridos (amigos, parentes, esposo), de Al\u00edcio que tive a honra de conhecer e outra vez da malvada seca. Ah, guardou um cantinho l\u00e1 no fundo para os maledicentes e invejosos! Al\u00e9m de ser uma dif\u00edcil arte que voc\u00ea desempenha com maestria como licenciada em Letras, escrever \u00e9 tamb\u00e9m uma \u00e1rdua tarefa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em rodas de amigos, bate-papos, saraus e encontros diversos quando as pessoas me perguntam aonde nasci sempre respondo que em Mairi (antiga Monte Alegre) e em Piritiba, mas tamb\u00e9m em Amargosa, Salvador e Vit\u00f3ria da Conquista, na Bahia. &#8211; Mas, como assim, cara? 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