{"id":1445,"date":"2016-03-22T23:24:16","date_gmt":"2016-03-23T02:24:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1445"},"modified":"2016-03-22T23:24:23","modified_gmt":"2016-03-23T02:24:23","slug":"carta-do-brasil-aos-poderes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/03\/22\/carta-do-brasil-aos-poderes\/","title":{"rendered":"CARTA DO BRASIL AOS PODERES"},"content":{"rendered":"<p>Tem gente na minha terra fazendo cartas de amor, sentimentais, de lam\u00farias, de cobran\u00e7as de cargos, do toma l\u00e1 e d\u00e1 c\u00e1 e do tipo mais recente do morde e assopra. A minha \u00e9 de desabafo aos poderes que h\u00e1 516 anos, desde que aqui aportou a nau Cabral nas minhas costas, s\u00f3 t\u00eam me maltratado, me tra\u00eddo e me deixado cada vez mais acabrunhado. Vivo acossado por tantos improp\u00e9rios contra meu solo, usado para plantar espinhos.<\/p>\n<p>Dizem que sou um gigante pela pr\u00f3pria natureza, deitado eternamente em ber\u00e7o espl\u00eandido. N\u00e3o t\u00e3o mais espl\u00eandido porque minha terra foi devassada por ervas daninhas que destroem as planta\u00e7\u00f5es. Mata-me cada vez mais a sequid\u00e3o de ideias. Procuro uma cabe\u00e7a pensante e sensata que pense em mim, mas cada um s\u00f3 pensa em si e prefere viver na contram\u00e3o para cevar o seu poder.<\/p>\n<p>\u00c9, mo\u00e7o a\u00ed que aprecia minha paisagem, j\u00e1 me chamaram de Vera Cruz, Pau Brasil, Eldorado das minas gerais, de terra da cana-de-a\u00e7\u00facar, do caf\u00e9, da borracha e do ouro negro extra\u00eddo do meu ch\u00e3o! Vieram malfeitores assassinos e tudo roubaram de mim em nome dos meus filhos que tanto necessitavam para viver dignamente.<\/p>\n<p>Hoje me chamam de outros nomes pejorativos e l\u00e1 fora me conhecem como a terra dos \u00edndios e das feras perigosas. De bela e rica, minha imagem passou a ser a pior poss\u00edvel. Por l\u00e1 me apelidaram de terra de caloteiros. N\u00e3o sei se choro ou rezo quando dizem que Deus \u00e9 brasileiro!<\/p>\n<p>No meu torr\u00e3o os genocidas se tornaram her\u00f3is. Os r\u00e9us fazem parte de uma condena\u00e7\u00e3o. O farsante retorna aos bra\u00e7os de seus inimigos de ontem. Acham normais grosserias de um senhor chulo que se comporta como monarca. Aqui se usa o dinheiro p\u00fablico e o poder de coa\u00e7\u00e3o para engrossar manifesta\u00e7\u00f5es em favor de si. Trancam e soltam pautas de julgamento de acordo com a conveni\u00eancia de cada um. Todos se juntam para esfaquear a verdade pelas costas.<\/p>\n<p><!--more-->Sempre fui dominado por vil\u00f5es, regentes e imperadores que na minha terra fizeram escravid\u00e3o amaldi\u00e7oada trazida em navios negreiros vindos da \u00c1frica. Aqui, senhores das grandes casas, derramaram muito sangue escrava nos pelourinhos, nos por\u00f5es e nas senzalas. Tudo por pura ambi\u00e7\u00e3o. Minha terra \u00e9 testemunha de tudo quanto aconteceu.<\/p>\n<p>De monarquia, uma cavalaria de marechais me transformou em rep\u00fablica que at\u00e9 hoje foi coisa s\u00f3 deles e pra eles mamarem em minhas tetas. Nos levantes, revoltas, revolu\u00e7\u00f5es e nas mudan\u00e7as de poderes, sempre saiu mais forte a oligarquia rural, industrial e financeira contra os oprimidos. Pessoas tiveram boas inten\u00e7\u00f5es e at\u00e9 se prepararam para as reformas, mas os corvos derrubaram minha gente.<\/p>\n<p>Veio, ent\u00e3o, mais um tempo das trevas que cobriram minha terra com o manto preto da ditadura dos generais que nela derramaram o sangue dos presos e torturados. Por mais de vinte anos fui leiloado e vendido para o capital estrangeiro. Amorda\u00e7ado em grilh\u00f5es, me negaram a liberdade e me levaram ao atraso cultural. Meu conhecimento foi mutilado e minha m\u00e3o-de-obra foi sugada gota por gota do seu suor. Bando de canalhas viciados!<\/p>\n<p>Depois de muitos anos sendo repartido pelos gananciosos burgueses, me prometeram a palma da divis\u00e3o social para os mais pobres e descamisados. Ressurgiu a esperan\u00e7a de um socialismo honesto e s\u00e9rio com palavras de ordem, mas a roubalheira do meu patrim\u00f4nio transformou tudo em medo e horror. Fizeram escalpo da minha pele e entregaram minhas v\u00edsceras para os abutres carniceiros que sempre farejaram minha casa.<\/p>\n<p>Os poderes encheram as burras de ouro e montaram suas mordomias vital\u00edcias com seus tent\u00e1culos gigantes, cooptando seus drag\u00f5es que cospem fogo pelas ventas para manter seus privil\u00e9gios e cargos. Dividiram-me em \u201ccoxinhas\u201d e \u201cmortadelas\u201d que est\u00e3o estragadas com prazo de validade vencida.<\/p>\n<p>Tanto as \u201ccoxinhas\u201d como as \u201cmortadelas\u201d podem ser incineradas no fogo do inferno. Vermelhos, verdes e amarelos ainda n\u00e3o aprenderam a verdadeira li\u00e7\u00e3o do saber separar o joio do trigo, o errado do certo, o feio do bonito. Quem sai e quem fica? Nenhum lado presta!<\/p>\n<p>Todos falam de democracia s\u00f3 da boca pra fora, sem ceder a uma alternativa diferente da patrulha ditatorial, tanto de um lado como do outro. Como porcos em chiqueiros fedorentos se enlameiam atrav\u00e9s dos contrassensos gritantes. Fartam-se de sujeiras. Nas manifesta\u00e7\u00f5es, batem no peito e cantam meu hino falsamente, marchando ao lado de seus diabos capetas que mentem descaradamente, agarrados ao poder. Vivo hoje maltrapilho e desolado na gangorra do sobe e desce. Esconjuro-te, satan\u00e1s!<\/p>\n<p>N\u00e3o aguento mais com tantas arma\u00e7\u00f5es de uma parte e da outra. N\u00e3o suporto mais o peso de tantos partidos pol\u00edticos caras de paus que invadem meus lares e sempre falam uma coisa e fazem outra. Cinicamente pregam que s\u00e3o limpos e fazem o diferente. Ainda aparecem aqueles que querem o retorno dos fuzis e das metralhadoras. Meu sistema eleitoral \u00e9 velho, caduco, senil e feito para os poderes se perpetuarem. O sistema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 bruto e est\u00fapido, \u00e9 mortal.<\/p>\n<p>Meus filhos continuam penando nas filas dos cadav\u00e9ricos e contaminados hospitais, morrendo \u00e0 mingua. Nunca se prontificaram de verdade a educar meus filhos, mas armar o compadrio com os donos particulares do ensino. Meus becos, esquinas, ruas, avenidas, pra\u00e7as, estradas e o campo foram tomados por assaltantes criminosos. Mais de nove milh\u00f5es n\u00e3o conseguem trabalhar para comprar o p\u00e3o e sustentar suas fam\u00edlias, enquanto eles mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas com empreiteiros, banqueiros e grileiros.<\/p>\n<p>Enquanto os malditos poderes disputam meus lotes a tapas, na base dos palavr\u00f5es, dos xingamentos, mutretas e roubos, estou definhando aos poucos e morrendo de vergonha. Na minha terra predominam a ignor\u00e2ncia, a cegueira e o cada um por si. Minhas redes est\u00e3o cheias de fascistas e fan\u00e1ticos imbecis que alimentam de veneno seus donos e patr\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem gente na minha terra fazendo cartas de amor, sentimentais, de lam\u00farias, de cobran\u00e7as de cargos, do toma l\u00e1 e d\u00e1 c\u00e1 e do tipo mais recente do morde e assopra. 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