{"id":143,"date":"2014-05-15T09:49:46","date_gmt":"2014-05-15T12:49:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=143"},"modified":"2014-05-15T09:55:46","modified_gmt":"2014-05-15T12:55:46","slug":"sobre-nossas-ferrovias-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2014\/05\/15\/sobre-nossas-ferrovias-iii\/","title":{"rendered":"SOBRE NOSSAS FERROVIAS (III)"},"content":{"rendered":"<p>A LUTA PELA VOLTA DOS PASSAGEIROS<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-146\" alt=\"E O TREM SE FOI - C\u00f3pia\" src=\"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/E-O-TREM-SE-FOI-C\u00f3pia.jpg\" width=\"550\" height=\"364\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/E-O-TREM-SE-FOI-C\u00f3pia.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/E-O-TREM-SE-FOI-C\u00f3pia-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/p>\n<p>De Mapele para Cama\u00e7ari j\u00e1 existem trilhos para o transporte de cargas. Em 2006, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico (BNDES) chegou a aprovar projeto de restaura\u00e7\u00e3o das linhas para 15 regi\u00f5es do Brasil entre munic\u00edpios com mais de 100 mil habitantes dentro de uma extens\u00e3o de 200 quil\u00f4metros das capitais.<\/p>\n<p>A Bahia chegou a ser contemplada com os trechos Salvador \u2013 Alagoinhas (128 km) e Salvador Cachoeira (138 km). Os trens passariam por Cama\u00e7ari (210 mil habitantes), Sim\u00f5es Filho (140 mil) e Alagoinhas (190 mil). Enquanto nada acontece, v\u00e1rios movimentos de Ongs, como o Movimento \u201cTrem Ferro\u201d, \u201cVer de Trem\u201d (criado em 1991) lutam para a volta dos trens passageiros.<\/p>\n<p><!--more--> A malha ferrovi\u00e1ria no Estado de 1.597 quil\u00f4metros tem 13 anos de privatizada e somente 4% das cargas baianas s\u00e3o transportadas pela via. Em 10 anos os preju\u00edzos somaram mais de R$8 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>O trecho Paripe-Mapele (Sim\u00f5es Filho) est\u00e1 abandonado desde a privatiza\u00e7\u00e3o da RFFSA que passou a se chamar Ferrovia Centro Atl\u00e2ntica \u2013 FCA controlada pela Vale do Rio Doce. As principais mercadorias transportadas pela ferrovia s\u00e3o petr\u00f3leo, produtos petroqu\u00edmicos e min\u00e9rios.<\/p>\n<p>Em todo Estado as esta\u00e7\u00f5es foram desativadas e desmanteladas, vag\u00f5es abandonados e trilhos roubados. As oficinas e acampamentos viraram sucatas. A hist\u00f3ria do trem na Bahia que um tempo foi s\u00edmbolo de progresso, meio de transporte e alegria, est\u00e1 perdida. O transporte de passageiros, simplesmente desapareceu. Restam ainda alguns saudosistas que esperam que essa mem\u00f3ria seja reconstru\u00edda. \u00c9 preciso que se volte ao t\u00fanel do tempo e se restaure a mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em Periperi ficava uma das tr\u00eas oficinas da RFFSA. As outras em Alagoinhas e Aramari. Tudo virou ru\u00edna. Em Alagoinhas, a Esta\u00e7\u00e3o S\u00e3o Francisco j\u00e1 foi o maior entroncamento ferrovi\u00e1rio do Estado.<\/p>\n<p>No trecho Salvador-Alagoinhas existia o trem apelidado de \u201cPirulito\u201d por ser o mais lotado que fazia o percurso em quatro horas e meia, mas tinha tamb\u00e9m o luxuoso \u201cMarta Rocha\u201d que durava duas horas de viagem, conduzido por uma locomotiva el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Dizem os mais antigos que entrar no \u201cMarta Rocha\u201d era como andar numa limusine. Funcionava tamb\u00e9m a linha Salvador-Serrinha-Aracaju. Os \u00faltimos trens circularam na Bahia at\u00e9 o final dos anos 70.<\/p>\n<p>O PIB baiano \u00e9 de mais de R$100 bilh\u00f5es, mas n\u00e3o existe sistema intermodal de trens. Como conseq\u00fc\u00eancia, o transporte rodovi\u00e1rio ficou sobrecarregado e os custos aumentaram sensivelmente.<\/p>\n<p>O \u201cTREM GROTEIRO\u201d<\/p>\n<p>Cortando o Estado, do Sudoeste ao Norte, partindo de Monte Azul, em Minas Gerais, o trem de passageiros saia de Urandi, na Bahia, pr\u00f3ximo a Espinosa (MG), passando por Lic\u00ednio de Almeida, Cacul\u00e9, Rio do Ant\u00f4nio, Malhada de Pedras, Brumado, Tanha\u00e7u, Contendas do Sincor\u00e1 at\u00e9 Ia\u00e7u.<\/p>\n<p>Desse ponto partia o chamado \u201cTrem Groteiro\u201d at\u00e9 Senhor do Bonfim. Essa rota tinha 24 esta\u00e7\u00f5es ou mais. De Senhor do Bonfim, um trem vindo de Salvador-Alagoinhas seguia at\u00e9 Juazeiro. Ao todo, calcula-se em 90 esta\u00e7\u00f5es ou mais que hoje est\u00e3o desativadas e destru\u00eddas.<\/p>\n<p>De Ia\u00e7u, a \u201cMaria Fuma\u00e7a\u201d fazia festa e movimentava as esta\u00e7\u00f5es principais de Itaberaba, Ruy Barbosa, Jequitib\u00e1 onde tem o Mosteiro\u00a0 do Abades, Mundo Novo, Piritiba, povoado do Fran\u00e7a, Miguel Calmon, Jacobina, Caem, Pindaba\u00e7u, Sa\u00fade, Jos\u00e9 Gon\u00e7alves (ramal para Campo Formoso) e Senhor do Bonfim.<\/p>\n<p>Nesses lugares se misturavam bagagens, passageiros em tr\u00e2nsito com os dos lugares de paradas que iam para diversos destinos mais os comerciantes-feirantes e mascates que costumavam vender suas mercadorias nas feiras vizinhas. O trem sempre foi o sustent\u00e1culo das economias debilitadas das regi\u00f5es mais pobres. Era o sustento e o \u201cganha-p\u00e3o\u201d das classes mais desfavorecidas.<\/p>\n<p>O trem era o cart\u00e3o postal de cada cidade, e cada uma dela exibia uma casa ou casas dos funcion\u00e1rios que cuidavam e trabalhavam nas linhas ferrovi\u00e1rias. Eram casas e esta\u00e7\u00f5es com arquitetura diferenciada, de cor cinza, com janelas e portas de formato oval. At\u00e9 os telhados pareciam com estilo europeu-holand\u00eas, ou americano.<\/p>\n<p>Era uma vida que pulsava dia-a-dia nas esta\u00e7\u00f5es cheias e lotadas. Como as pequenas cidades tinham pouca divers\u00e3o e lazer, era comum as mulheres, homens, crian\u00e7as e idosos irem para as esta\u00e7\u00f5es s\u00f3 para verem o trem passar.<\/p>\n<p>Quando atrasava, a not\u00edcia corria r\u00e1pida. Na certa poderia ter sido um descarrilamento. As batidas do sino indicavam que a locomotiva estava para chegar. Os apitos da \u201cMaria Fuma\u00e7a,\u201d e todos logo come\u00e7avam a se preparar para receber a visitante, ou o visitante mais ilustre.<\/p>\n<p>Era a alegria maior da garotada, que ainda ganhava um trocado para carregar as malas dos passageiros que desembarcavam. N\u00e3o podiam faltar as algazarras dos punguistas nas chegadas e nas sa\u00eddas dos trens. Precisava ser esperto para pegar e descer na hora certa, sem cair no ch\u00e3o. Oh, quantas lembran\u00e7as gostosas daqueles tempos da linha de ferro!<\/p>\n<p>O ramal Senhor do Bonfim \u2013 Juazeiro, numa dist\u00e2ncia de pouco mais de 100 quil\u00f4metros, que j\u00e1 foi trem de passageiros, \u00e9 hoje pouco utilizado no transporte de cargas. Constantemente tenho visitado aquela regi\u00e3o e cada vez que fa\u00e7o esse roteiro fico mais decepcionado por ver o abandono dos trilhos, das esta\u00e7\u00f5es, de m\u00e1quinas e vag\u00f5es.<\/p>\n<p>A come\u00e7ar por Senhor do Bonfim, a \u00e1rea em torno da Esta\u00e7\u00e3o est\u00e1 em plena decad\u00eancia. \u00c9 triste lembrar de quando tinha 16 ou 17 anos e ia visitar meus parentes naquela cidade, sempre viajando de trem a partir de Piritiba.<\/p>\n<p>O movimento era intenso de pessoas chegando de diversos pontos e partindo para v\u00e1rias cidades, inclusive Salvador, passando por Alagoinhas. Eram 24 horas no ritmo do trem com seus vag\u00f5es lotados de passageiros e mercadorias de todas as partes.<\/p>\n<p>No percurso para Juazeiro, o trem levava gente de Senhor do Bonfim e pessoas (feirantes e negociantes) procedentes de toda regi\u00e3o num raio de 500 quil\u00f4metros, inclusive vindas de Salvador.<\/p>\n<p>O trem de passageiros cortava o povoado de Carrapxel, a cidade de Jaguarari e os distritos de Flamengo e Ma\u00e7aroca para chegar a Juazeiro.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nessa rota, como em toda Bahia, as esta\u00e7\u00f5es simplesmente viraram escombros e o poder p\u00fablico nada fez para recuperar um valioso patrim\u00f4nio art\u00edstico e cultural.<\/p>\n<p>Infelizmente, toda uma mem\u00f3ria, todos os registros e vest\u00edgios de um patrim\u00f4nio de cerca de 150 anos est\u00e3o se apagando. Na literatura e nas imagens, as ferrovias est\u00e3o emba\u00e7adas e se transformando num lament\u00e1vel borr\u00e3o. S\u00f3 as lentes das m\u00e1quinas e a escrita podem conseguir recuperar nitidez e foco do que ainda resta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A LUTA PELA VOLTA DOS PASSAGEIROS De Mapele para Cama\u00e7ari j\u00e1 existem trilhos para o transporte de cargas. 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