{"id":1376,"date":"2016-02-09T10:12:13","date_gmt":"2016-02-09T13:12:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1376"},"modified":"2016-02-09T10:12:21","modified_gmt":"2016-02-09T13:12:21","slug":"tres-seculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/02\/09\/tres-seculos\/","title":{"rendered":"TR\u00caS S\u00c9CULOS"},"content":{"rendered":"<p>Blog Refletor\u00a0\u00a0\u00a0TAL-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/refletor.tal.tv\/ponto-de-vista\/orlando-senna-tres-seculos\">http:\/\/refletor.tal.tv\/ponto-de-vista\/orlando-senna-tres-seculos<\/a><\/p>\n<p>Indica\u00e7\u00e3o de Itamar Aguiar<\/p>\n<p>Orlando Senna<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Tenho a sensa\u00e7\u00e3o e o espanto de que vivi os s\u00e9culos 19 e 20 e estou vivendo este surpreendente e perigoso s\u00e9culo 21. Essa suposta m\u00e1gica do tempo n\u00e3o tem nada a ver com longevidade, com os mitos b\u00edblicos de Matusal\u00e9m e No\u00e9 (tenho apenas 75 anos), mas sim com circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e geogr\u00e1ficas. Na inf\u00e2ncia minha vida transcorreu em um mundo rural: em uma fazenda e em uma pequena cidade do interior baiano. As atividades da fazenda eram criat\u00f3rio de gado bovino e pequenas manufaturas. N\u00e3o havia eletricidade, r\u00e1dio, autom\u00f3veis, nada dessas \u201cmodernidades\u201d que j\u00e1 estavam em uso em outros lugares. A locomo\u00e7\u00e3o era feita em cavalos, carro\u00e7as e carros de boi e o pensamento e comportamento se remetiam a 50 anos atr\u00e1s. Era, em tudo e por tudo, uma extens\u00e3o do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>A pequena cidade, que tinha conhecido um esplendor econ\u00f4mico no passado com extra\u00e7\u00e3o de diamantes, estava decadente, debilitada, sem rumo e sem futuro nas d\u00e9cadas 1940 e 1950 devido a uma severa diminui\u00e7\u00e3o das pedras preciosas em seu solo e subsolo. Uma comunidade isolada, esquecida pelo resto do mundo. Ou seja, parecia que tamb\u00e9m estava parada no tempo, com suas lembran\u00e7as, suas saudades da monarquia e da escravid\u00e3o, seus costumes ultrapassados, os tabus impedindo o desenvolvimento mental dos jovens, meu av\u00f4 abismado com as garrafas de \u00e1gua mineral: \u201ccomprar \u00e1gua \u00e9 o come\u00e7o do fim do mundo\u201d. S\u00f3 parecia, pura apar\u00eancia porque dois elementos b\u00e1sicos do s\u00e9culo 20 j\u00e1 estavam presentes: eletricidade e cinema.<\/p>\n<p>A eletricidade gra\u00e7as a um pequeno gerador movido a \u00e1gua, alimentado por um tanque, que fornecia luz el\u00e9trica para as ruas e metade das casas das seis da tarde \u00e0s dez da noite, quando os r\u00e1dios funcionavam. Luz amarela e fraca, luminosidade semelhante aos candeeiros dom\u00e9sticos. E o cinema gra\u00e7as \u00e0 vis\u00e3o empreendedora de um empres\u00e1rio local, que tamb\u00e9m abriu outras salas de exibi\u00e7\u00e3o nas cidades vizinhas, os filmes eram transportados entre elas em lombo de burro. E tamb\u00e9m havia uns poucos autom\u00f3veis e caminh\u00f5es, t\u00e3o poucos que a crian\u00e7ada e os cachorros corriam gritando e latindo atr\u00e1s deles quando algum aparecia. Entre as fam\u00edlias de classe m\u00e9dia a refer\u00eancia cultural era a Fran\u00e7a, mesmo depois da Segunda Guerra e com os filmes dos Estados Unidos sendo exibidos no cinema.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><u>As luzes<\/u><\/p>\n<p>N\u00f3s, os meninos e as meninas, sab\u00edamos que j\u00e1 se vivia outro tempo na capital da Bahia, no Rio de Janeiro e nas fascinantes cidades mostradas no cinema e t\u00e3o faladas no r\u00e1dio e nos raros jornais e revistas que apareciam naquele fim de mundo. Tamb\u00e9m porque alguns garotos mais velhos estudavam na capital e nos contavam coisas de arrepiar os cabelos e fazer sonhar. Tamb\u00e9m porque ouv\u00edamos dos adultos que aquele lugar era \u201catrasado e ignorante\u201d. Minha meta, e tamb\u00e9m a de alguns amiguinhos, era conhecer o mundo e o caminho para isso era ir estudar na capital. Aos 12 anos de idade fui estudar em Salvador da Bahia e me deparei com o s\u00e9culo 20, que j\u00e1 ia pela metade mas para mim era uma iluminada novidade. Iluminada \u00e9 bem a palavra, j\u00e1 que meu assombro maior foi as l\u00e2mpadas el\u00e9tricas deixando a noite clara como o dia.<\/p>\n<p>Em um piscar de olhos, cruzei pontes entre Freud e Lacan, entre Marx e Sartre, entre Pasteur e Einstein &amp; Stephen Hawking. Entre Beethoven e Villa-Lobos, entre valsas e polcas e Tom Jobim, Roberto Carlos, Tropicalia, Elvis, Beatles. Tinha vivido na inf\u00e2ncia a sociedade patriarcal, o privil\u00e9gio absoluto do masculino sobre o feminino, o romantismo eurolatino. Ao ganhar o mundo, me inseri na segunda metade do s\u00e9culo 20 como se fosse um s\u00e9culo inteiro, com suas guerras capitalismo versus socialismo, ascens\u00e3o econ\u00f4mica e b\u00e9lica dos Estados Unidos sobre todas as na\u00e7\u00f5es, urbaniza\u00e7\u00e3o, industrializa\u00e7\u00e3o, o homem na Lua, direitos humanos, drogas, a espiritualidade independizando-se das religi\u00f5es, o crescimento do poder da m\u00eddia. Vivi suas mudan\u00e7as radicais de comportamento, suas revolu\u00e7\u00f5es culturais, o risco de vida e o charme embriagador das suas d\u00e9cadas de 60 e 70.<\/p>\n<p><u>M\u00e1quinas inteligentes<\/u><\/p>\n<p>E entrei no s\u00e9culo 21 e no terceiro mil\u00eanio. Aconteceu exatamente no dia 11 de setembro de 2001. A guerra, caracter\u00edstica tormentosa da esp\u00e9cie humana, estivera bem presente nos meus dois s\u00e9culos j\u00e1 vividos, mas naquele dia apresentou um novo formato (causar medo ininterrupto nas pessoas, estejam onde estiverem) e um novo tipo de poder de fogo ao atingir a grande pot\u00eancia, material e simbolicamente, em seus \u00f3rg\u00e3os vitais: o poder econ\u00f4mico (as Torres G\u00eameas em Nova York) e o poder b\u00e9lico (o Pent\u00e1gono). E estabeleceu-se mundialmente a Guerra ao Terror, segundo o Ocidente, ou a Guerra Santa, segundo os combatentes radicais do mundo isl\u00e2mico. A lembrar que os isl\u00e2micos s\u00e3o quase dois bilh\u00f5es de almas, quase um quinto da humanidade.<\/p>\n<p>As guerras ideol\u00f3gicas do s\u00e9culo 20 mataram cerca de cem milh\u00f5es de pessoas, tr\u00eas vezes mais do que a soma de mortos de todas as guerras desde o nascimento de Cristo. A guerra \u00e9tnica-cultural-religiosa que se expande agora pelo planeta pode ir bem al\u00e9m na carnificina. E pode emendar com uma guerra total pela \u00e1gua e at\u00e9 por um conflito generalizado pelo controle da comunica\u00e7\u00e3o e chegaremos \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da guerra: todos contra todos. O cen\u00e1rio \u00e9 um planeta em muta\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica e uma crise civilizat\u00f3ria degenerativa. E dizer que o que eu esperava, em minha santa ingenuidade, era uma Revolu\u00e7\u00e3o Ontol\u00f3gica que, gra\u00e7as \u00e0s novas tecnologias, abriria as portas da sabedoria, solidariedade, coopera\u00e7\u00e3o e paz.<\/p>\n<p>O outro lado da moeda \u00e9 justamente o espantoso avan\u00e7o cient\u00edfico e comunicacional e os novos par\u00e2metros comportamentais gerados pela cibern\u00e9tica. Ainda nos cueiros, o s\u00e9culo j\u00e1 estava sendo apelidado Era do Conhecimento. Em que dire\u00e7\u00e3o vamos seguir n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o das m\u00e1quinas, mesmo ditas inteligentes: um drone pode destruir coisas e matar pessoas e tamb\u00e9m evitar danos e salvar pessoas e ser um instrumento de evolu\u00e7\u00e3o das artes (cinema por exemplo), do transporte, do meio ambiente. Quem define seu uso \u00e9 o ser humano, uma frase \u00e0 qual muita gente reagiria com um \u201cent\u00e3o estamos perdidos\u201d. Talvez sim, talvez n\u00e3o. N\u00e3o sabemos, nos resta a f\u00e9, essa cren\u00e7a sem provas que acompanha o bicho homem desde quando existe. E nos resta a milit\u00e2ncia para construir essas provas, a a\u00e7\u00e3o individual para reinventar o futuro.<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s Doutor em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 em 2014, pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Blog Refletor\u00a0\u00a0\u00a0TAL-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina http:\/\/refletor.tal.tv\/ponto-de-vista\/orlando-senna-tres-seculos Indica\u00e7\u00e3o de Itamar Aguiar Orlando Senna\u00a0 Tenho a sensa\u00e7\u00e3o e o espanto de que vivi os s\u00e9culos 19 e 20 e estou vivendo este surpreendente e perigoso s\u00e9culo 21. Essa suposta m\u00e1gica do tempo n\u00e3o tem nada a ver com longevidade, com os mitos b\u00edblicos de Matusal\u00e9m e No\u00e9 (tenho [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1376"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1376"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1376\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1377,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1376\/revisions\/1377"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}