{"id":1333,"date":"2016-01-05T23:58:54","date_gmt":"2016-01-06T02:58:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1333"},"modified":"2016-01-05T23:59:01","modified_gmt":"2016-01-06T02:59:01","slug":"manuela-dias-sem-papas-na-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2016\/01\/05\/manuela-dias-sem-papas-na-lingua\/","title":{"rendered":"MANUELA DIAS SEM PAPAS NA L\u00cdNGUA"},"content":{"rendered":"<p>Indica\u00e7\u00e3o de Itamar Aguiar<\/p>\n<p>Caderno de Cinema\u00a0\u00a0<a href=\"http:\/\/cadernodecinema.com.br\/blog\/manuela-dias-sem-papas-na-lingua\">cadernodecinema.com.br\/blog\/manuela-dias-sem-papas-na-lingua<\/a><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><u>Entrevista a Orlando Senna<\/u><\/p>\n<p>A roteirista Manuela Dias, baiana de Salvador, gr\u00e1vida de sete meses, est\u00e1 vivendo uma fase agitada e luminosa de sua carreira, que come\u00e7ou por volta de 1996, no fim de sua adolesc\u00eancia, quando escreveu e atuou em sua primeira pe\u00e7a de teatro,\u00a0<em>Soul 4<\/em>, no Rio de Janeiro, que encantou muita gente. Em 2004 lan\u00e7ou outra pe\u00e7a,\u00a0<em>Madame<\/em>, referenciada a Simone de Beauvoir, com direito a turn\u00ea nacional. Em seguida voltou-se para o cinema (<em>Transeunte<\/em>,\u00a0<em>O c\u00e9u sobre os ombros<\/em>) e para a TV, realizando um longo treinamento ao colaborar na cria\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>A grande fam\u00edlia<\/em>,\u00a0<em>Joia rara<\/em>,\u00a0<em>Cordel encantado<\/em>\u00a0e outras produ\u00e7\u00f5es da Globo.<\/p>\n<p>Em 2015 veio \u00e0 tona com a for\u00e7a de uma bola cheia de ar quente mergulhada na \u00e1gua. Escreveu e dirigiu\u00a0<em>Love Film Festival<\/em>, longa-metragem ainda in\u00e9dito sobre um amor entre gente de cinema que vai se desenrolando durante festivais em volta do mundo. Recentemente foram estreados, com roteiros seus, A\u00a0<em>hora e a vez de Augusto Matraga,<\/em>\u00a0a partir de Guimar\u00e3es Rosa, e\u00a0<em>A floresta que se move<\/em>, leitura contempor\u00e2nea do Macbeth de Shakespeare, ambos dirigidos por Vinicius Coimbra. Sua parceria com Coimbra se estende com o lan\u00e7amento, no dia 4 de janeiro, na Globo, da teless\u00e9rie\u00a0<em>Liga\u00e7\u00f5es perigosas<\/em>, transposi\u00e7\u00e3o para os anos 1920 da ambiguidade do romance oitocentista de Chordelos de Laclos. Como se n\u00e3o bastasse, est\u00e1 escrevendo a mininovela\u00a0<em>Justi\u00e7a<\/em>\u00a0(apenas dois meses de dura\u00e7\u00e3o), com estreia prevista para o segundo semestre. Tamb\u00e9m em 2016 escrever\u00e1 e dirigir\u00e1 um filme que a far\u00e1 voltar \u00e0 Bahia e\u2026 \u00c9 melhor parar por aqui e deixar a palavra com Manuela, a contadora de hist\u00f3rias, revela\u00e7\u00e3o da dramaturgia brasileira, amorosa e pol\u00eamica.<\/p>\n<p><u>H\u00e1 uma celebra\u00e7\u00e3o entre os roteiristas porque o mercado de trabalho aumentou com o n\u00famero de editais p\u00fablicos, o Fundo Setorial do Audiovisdual, a Lei de TV por Assinatura, os N\u00facleos Criativos.<\/u><!--more--><\/p>\n<p>MD \u2014 O incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o audiovisual \u00e9 muito importante em todas as suas etapas, do roteiro \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o. Audiovisual \u00e9 mem\u00f3ria, instru\u00e7\u00e3o e uma ferramenta importante de reflex\u00e3o de um povo sobre si mesmo. Mas \u00e9 preciso que n\u00f3s, produtores audiovisuais, tenhamos muita responsabilidade com cada centavo investido no setor. Ano passado fui supervisora de um grupo me chamou aten\u00e7\u00e3o a baixa qualidade dos roteiristas. Escrever um texto em formato de roteiro, cenas com cabe\u00e7alho, rubricas e di\u00e1logos n\u00e3o faz de ningu\u00e9m roteirista. Ser roteirista \u00e9 uma profiss\u00e3o que exige forma\u00e7\u00e3o, como qualquer outra. Ningu\u00e9m iria se disponibilizar para ser contratado como cirurgi\u00e3o sem ter estudado Medicina e feito resid\u00eancia, ent\u00e3o por que se dizer roteirista sem o devido preparo?<\/p>\n<p><u>Fui informado que 300 ou mais roteiristas est\u00e3o trabalhando neste momento no Brasil. Parece-me que \u00e9 um recorde.<\/u><\/p>\n<p>MD \u2014\u00a0O mercado aumentou, mas isso n\u00e3o gera exatamente profissionais e sim pessoas que se dizem roteiristas. Ser roteirista virou o novo &#8220;sou ator&#8221;.\u00a0Quando me informei sobre as condi\u00e7\u00f5es dos N\u00facleos Criativos, senti falta de um pensamento mais exigente. Pelo que entendi n\u00e3o existe o compromisso de que o roteiro seja gravado. Isso me chocou porque sem o compromisso de gravar, qual \u00e9 o est\u00edmulo\/cobran\u00e7a para que aquilo fique bom? Bastar escrever \u00e9 pouco na minha opini\u00e3o, perto do dinheiro investido. \u00c9 preciso sermos respons\u00e1veis com o investimento que est\u00e1 sendo feito nessa iniciativa. Esse \u00e9 um espa\u00e7o para profissionais que devem ter profici\u00eancia e n\u00e3o um espa\u00e7o de aprendizado. Mas \u00e9 claro que existem profissionais se beneficiando desse incentivo de desenvolvimento.<\/p>\n<p><u>O crescimento do mercado ajuda na forma\u00e7\u00e3o de bons roteiristas profissionais<\/u><\/p>\n<p>MD \u2014 Ajuda. O mercado \u00e9 uma quest\u00e3o importante, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. N\u00e3o acredito que o mercado produza por si s\u00f3 bons profissionais. Escolas, cursos, interc\u00e2mbios culturais, horas de v\u00f4o em frente ao computador e sobretudo ter o que dizer \u00e9 o que forma um bom profissional. Essa ideia de que &#8220;n\u00e3o existe certo nem errado&#8221; em roteiro \u00e9 uma balela na minha opini\u00e3o, mas \u00e9 claro que existem muitas formas certas e muitas erradas. De algum jeito a coisa tem que funcionar com coer\u00eancia, ritmo, e existem sim oportunidades dramat\u00fargicas a serem perdidas, como por exemplo se voc\u00ea apresenta mal um personagem. Outra confus\u00e3o que acontece direto \u00e9 uma pessoa achar que por ter experi\u00eancia pessoal em algum tema, na favela, por exemplo, est\u00e1 habilitada a escrever sobre ele. Por\u00e9m, transformar uma experi\u00eancia pessoal em arte, seja ela qual for, demanda intelig\u00eancia emocional, distanciamento, ou anos de an\u00e1lise, um talento especial, etc, etc, etc. \u00c0s vezes \u00e9 at\u00e9 mais dif\u00edcil porque a pessoa tende a se proteger do que viveu.<\/p>\n<p><u>Em sua curta (sabemos que vem muito mais) e vitoriosa carreira deu para sentir alguma mudan\u00e7a nesse mercado?<\/u><\/p>\n<p>MD \u2014 N\u00e3o vejo minha carreira como \u201cvitoriosa\u201d, mas como algo em progresso e eterna forma\u00e7\u00e3o. Acho que o grande diferencial \u00e9 sempre mais qualitativo do que quantitativo. Mas a quantidade pode abrir portas para a qualidade ao longo do tempo. O mesmo mercado que est\u00e1 criando essas oportunidades vai filtrar os talentos, \u00e9 um processo natural. A democratiza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o audiovisual gera, em contrapartida, uma exig\u00eancia maior de bons produtos. Com tanta gente produzindo qualquer coisa, se sobressair \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil. Isso \u00e9 a parte boa, \u00e9 o desafio.<\/p>\n<p><u>Fale-me sobre as rela\u00e7\u00f5es diretor\/roteirista no cinema e na TV.<\/u><\/p>\n<p>MD \u2014 Parceria \u00e9 uma coisa fundamental, mas a palavra final acaba sendo sempre de uma pessoa \u2013 o cora\u00e7\u00e3o que faz o projeto pulsar \u00e9 um s\u00f3. O parlamentarismo criativo encontra seu limite na discord\u00e2ncia mais cedo ou mais tarde. O mais importante \u00e9 que cada um fa\u00e7a o filme que quer fazer \u2013 e isso normalmente implica numa gama de consequ\u00eancias muito maior do que a que estamos acostumados a pensar. Por exemplo, se pensamos pouco no p\u00fablico, provavelmente ele tamb\u00e9m vai pensar bem pouco na gente. Em cinema normalmente quem tem a palavra final \u00e9 o diretor, em televis\u00e3o normalmente \u00e9 o roteirista. De qualquer maneira, quanto mais ampla for a parceria, melhor.\u00a0J\u00e1 realizei um filme como diretora e absorver as ideias e opini\u00f5es da equipe, que eu mesma escolhi e admirava muito, sempre enriqueceu o processo. Mesmo assim, acredito que cada profissional tenha sua especialidade. N\u00e3o d\u00e1 para eu me meter na dire\u00e7\u00e3o, opinar em lente, plano, etc; n\u00e3o sei atuar, n\u00e3o sei fazer figurino ou fotografar uma cena \u2013 claro que posso opinar sobre esses departamentos do ponto de vista da dramaturgia. Da mesma forma o fot\u00f3grafo, o diretor, o ator ou o figurinista podem ter opini\u00f5es sobre o texto, mas esse \u00e9 o departamento do roteirista, \u00e9 a zona onde sua opini\u00e3o prevalece.<\/p>\n<p><u>E no que diz respeito aos atores?<\/u><\/p>\n<p>MD \u2014 Para mim os atores s\u00e3o super her\u00f3is. \u00c9 um profiss\u00e3o muito complexa, de exposi\u00e7\u00e3o direta da pr\u00f3pria imagem e isso gera v\u00e1rias fragilidades e vaidades. O ator j\u00e1 tem muito com o que se preocupar ao interpretar um texto. \u00c0s vezes sinto que existe uma onda de ator mudar o texto, trazer as palavras para perto da sua experi\u00eancia. Mas os atores que eu admiro e com os quais tenho vontade de trabalhar fazem o caminho inverso, eles v\u00e3o at\u00e9 o texto. N\u00e3o acredito que representar seja uma tarefa f\u00e1cil, dizer um texto que j\u00e1 existe n\u00e3o faz de ningu\u00e9m um \u201ct\u00edtere&#8221;. Eu por exemplo, fa\u00e7o cerca de dez tratamentos de cada cap\u00edtulo, mesmo sendo para TV, acabei de passar quase dois anos fazendo uma miniss\u00e9rie de dez cap\u00edtulos, pensando e repensando cada cena e cada fala. Por isso, n\u00e3o acredito que em cinco minutos, na correria do set, o ator ter\u00e1 uma id\u00e9ia melhor do que a que levou dois anos para ser destilada. Assim como eu n\u00e3o tenho como opinar em cada inflex\u00e3o ou contribui\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o, o ator n\u00e3o \u00e9 exatamente um colaborador de texto. O que n\u00e3o quer dizer que eu n\u00e3o escute opini\u00f5es, realmente amo trabalhar em parceria e aprendo muito com isso. O trabalho com Selton Melo foi um exemplo disso, ele estudava o tetxo e algumas vezes me ligou pra conversar e mudei cenas por causa disso. Com anteced\u00eancia, estou sempre aberta para ouvir quem quer que seja, mas se for para mudar ou retrabalhar um di\u00e1logo, quem faz isso sou eu. N\u00e3o abro m\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o final do meu texto. Hamlet \u00e9 &#8220;ser ou n\u00e3o ser&#8221;, muito pouca gente sabe que ele quer se vingar do tio pela morte do pai. Di\u00e1logo \u00e9 pele, \u00e9 o que a gente v\u00ea do roteiro. Escaleta \u00e9 o osso, que sustenta tudo \u00e0s escondidas. Eu aproveito muito os meus colaboradores para fazer escaleta, mas escrevo di\u00e1logo sempre sozinha. Tanto da miniss\u00e9rie de 10 cap\u00edtulos, quanto na de 20, quanto da novela que estou come\u00e7ando. Para mim \u00e9 a parte mais autoral do processo. Eu gosto de escrever o n\u00edvel gen\u00e9tico da palavra, etimol\u00f3gico. Se escolho &#8220;entusiasmar&#8221; no lugar de &#8220;empolgar&#8221; \u00e9 porque &#8220;entusiasmar&#8221; vem de &#8220;em t\u00e9os&#8221; que quer dizer &#8220;com deus&#8221;, ent\u00e3o, existem muitas escolhas embutidas em cada palavra. Pode parecer arrog\u00e2ncia minha, mas respeito muito o trabalho de cada um e gosto que respeitem o meu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><u>E a rela\u00e7\u00e3o do roteirista consigo mesmo?<\/u><\/p>\n<p>MD \u2014 Toda rela\u00e7\u00e3o interna \u00e9 e deve ser conturbada. O espelho da criatividade \u00e9 sempre um espelho m\u00e1gico que revela mais do que reflete. Como est\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 relevante que seja dito no momento e o que eu quero dizer? Como falar para ser escutada? Quais hist\u00f3rias t\u00eam o poder de se integrar de fato a essa malha simb\u00f3lica que nos ajuda a viver as quest\u00f5es fundamentais da vida? Essas s\u00e3o quest\u00f5es que eu me coloco a cada dia, em cada trabalho. Escrevemos e criamos porque temos certeza da morte, esse \u00e9 o norte que procuro n\u00e3o perder de vista.<\/p>\n<p><u>J\u00e1 ouvi muito dizerem que n\u00e3o existem bons roteiristas no Brasil.<\/u><\/p>\n<p>MD \u2014\u00a0\u00a0Esse papo sempre me pareceu absurdo. Um pa\u00eds que tem Jo\u00e3o Emanuel Carneiro, Br\u00e1ulio Mantovani, Carol Kotscho, Cao Hamburguer, Gilberto Braga, Mauro Wilson, Marcos Bernstein, Paulo Lins, Hilton Lacerda, Patr\u00edcia Andrade e a lista segue&#8230; Nossa, imagine se tiv\u00e9ssemos bons roteiristas! Talvez o que falte, no cinema, \u00e9 diretor a fim de contar uma hist\u00f3ria. O Cinema Novo \u00e9 a fase mais marcante da nossa cinematografia e contou lindas hist\u00f3rias! De \u201cRio, 40 graus\u201d, a \u201cVidas Secas\u201d, a \u201cDeus e o Diabo na Terra do Sol\u201d. Mas \u00e0s vezes interpretamos mal a heran\u00e7a desse apogeu criativo do cinema nacional, cristalizamos a ideia errada de que o roteiro existe para cercear a criatividade do diretor. Existe uma lenda de que diretor criativo n\u00e3o precisa e at\u00e9 n\u00e3o deve respeitar o roteiro. Muitas vezes, o resultado s\u00e3o filmes sem ambi\u00e7\u00e3o comunicativa, o que eu chamo de &#8220;cinema texturinha&#8221;, muita pele, muito poro e pouca hist\u00f3ria, poucas al\u00e7as para o p\u00fablico se agarrar. A\u00ed fica f\u00e1cil culpar quem quer que seja pela falta de p\u00fablico nas salas de cinema, culpam os \u201cimperialistas estadunidenses\u201d, as com\u00e9dias brasileiras, a burrice do povo, vale tudo, menos olhar para si e assumir que, como autor audiovisual, a verdade \u00e9 que o diretor nunca se preocupou em comunicar. \u00c9 claro que o retorno financeiro das com\u00e9dias seduz os produtores e distribuidores, \u00e9 claro que a educa\u00e7\u00e3o de base brasileira \u00e9 prec\u00e1ria, \u00e9 claro que existe uma presen\u00e7a massificada do cinema norte americano nas salas brasileiras \u2013 e acredito que precisamos resistir a isso com intelig\u00eancia e perseveran\u00e7a. Eu amo Bela Tarr, amo Tarkovski, J\u00falio Bressane, Glauber, Nelson Pereira, cada um tem que fazer o cinema com o qual se identifica \u2013 mas sem terceirizar as responsabilidades.<\/p>\n<p><u>Sua rela\u00e7\u00e3o com o espectador.<\/u><\/p>\n<p>Fazer sucesso ou n\u00e3o \u00e9 uma coisa imprevis\u00edvel, mas a vontade comunicativa \u00e9 algo que eu julgo essencial, ainda mais quando se faz um filme de dois, tr\u00eas milh\u00f5es com dinheiro de ren\u00fancia fiscal, \u00e9 dinheiro p\u00fablico. Al\u00e9m da vontade comunicativa precisamos investir na quest\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o, porque tem muito filme com potencial comunicativo que morre na praia. Quem move o filme \u00e9 o diretor e ele normalmente est\u00e1 realizado quando o filme fica pronto, mas ainda falta um longo e \u00e1rduo caminho at\u00e9 o p\u00fablico. Temos que aprender a buscar o p\u00fablico, investir nos grupos multiplicadores, escolas, universidades, debates, eventos que divulguem o filme. N\u00e3o basta fazer o filme. Diretores, atores, roteiristas, produtores, todos temos que investir mais nesse caminho at\u00e9 o espectador. Jogar a culpa no outro \u00e9 sempre um jeito de n\u00e3o crescer, enquanto pegar a responsabilidade para si \u00e9 sempre um jeito de se empoderar para mudar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><u>Filme de arte, filme comercial. Esses conceitos significam alguma coisa?<\/u><\/p>\n<p>MD \u2014 Essa divis\u00e3o entre &#8220;filme de festival&#8221; e \u201cfilme para o p\u00fablico\u201d \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o prejudicial para o cinema brasileiro e est\u00e1 baseada em quest\u00f5es enganosas muitas vezes. Dizemos que um filme \u00e9 \u201cde arte\u201d quando ele n\u00e3o \u00e9 narrativo e tem poucos di\u00e1logos. Mas n\u00e3o ter di\u00e1logos n\u00e3o torna nenhum filme art\u00edstico. Esse medo da narrativa \u00e9 uma bobagem. Se di\u00e1logo n\u00e3o \u00e9 art\u00edstico, Bergman \u00e9 o qu\u00ea? Eu escrevo por causa dos gregos, de Shakespeare, fa\u00e7o filmes por causa do Kubrick, Coppola, Woody Allen, Billy Wilder, Bergman, Truffaut (muito mais do que Godard). Todos eles contam hist\u00f3rias. Ent\u00e3o, qual \u00e9 o problema de contar uma hist\u00f3ria? Queria fazer uma camiseta que diz: &#8220;Glauber era um g\u00eanio, mas n\u00e3o \u00e9 um g\u00eanero\u201d. N\u00e3o existe filme &#8220;tipo Glauber&#8221;, ele foi \u00fanico e cada um precisa descobrir seu jeito de fazer cinema. Ainda tem muita gente que enche o filme de caminhadas e contraplanos das copas das \u00e1rvores, super closes de pele com poro aparecendo e chama isso de &#8220;cinema de inven\u00e7\u00e3o&#8221;, mas n\u00e3o est\u00e3o inventando nada. Est\u00e3o s\u00f3 copiando o que foi feito 50 anos atr\u00e1s. O cinema argentino d\u00e1 um banho no brasileiro, e por qu\u00ea? Porque investe em hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><u>Ponha um fim nesta entrevista.<\/u><\/p>\n<p>MD \u2014 Tor\u00e7o para que a gente amadure\u00e7a como classe audiovisual, chame a responsabilidade de todo processo pra as nossas m\u00e3os e tope de fato inventar alguma coisa, encontrar um caminho que fa\u00e7a filmes art\u00edsticos sim, mas com vontade comunicativa. O cinema \u00e9 plural, com espa\u00e7o para muitos tipos de filme e isso \u00e9 muito bom. Precisamos descobrir nosso caminho at\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Quando isso acontecer vai ser muito saud\u00e1vel para o cinema nacional.<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s Doutor em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 em 2014, pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Indica\u00e7\u00e3o de Itamar Aguiar Caderno de Cinema\u00a0\u00a0cadernodecinema.com.br\/blog\/manuela-dias-sem-papas-na-lingua\u00a0 Entrevista a Orlando Senna A roteirista Manuela Dias, baiana de Salvador, gr\u00e1vida de sete meses, est\u00e1 vivendo uma fase agitada e luminosa de sua carreira, que come\u00e7ou por volta de 1996, no fim de sua adolesc\u00eancia, quando escreveu e atuou em sua primeira pe\u00e7a de teatro,\u00a0Soul 4, no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1333"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1333"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1333\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1334,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1333\/revisions\/1334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}