{"id":12586,"date":"2026-11-06T23:27:12","date_gmt":"2026-11-07T02:27:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12586"},"modified":"2026-11-06T23:27:24","modified_gmt":"2026-11-07T02:27:24","slug":"o-cangaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/11\/06\/o-cangaco\/","title":{"rendered":"&#8220;O CANGA\u00c7O&#8221;"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0\u00a0 O BANDITISMO COMUM E O SOCIAL<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Os brasileiros em geral ficam escandalizados e se chocam com a onda de viol\u00eancia com requintes de crueldades que tomou conta do pa\u00eds nos \u00faltimos anos. O povo clama por mais policiamento e mais armas. Alguns chegam a pedir pena de morte, o que na pr\u00e1tica j\u00e1 existe em muitos casos.<\/h3>\n<h3>\u00a0 \u00a0Esta vis\u00e3o nem sempre foi assim, conforme assinala o soci\u00f3logo e antrop\u00f3logo Carlos Alberto D\u00f3ria que, juntamente com seu colega Arthur Shaker, desenvolveu nos anos 70 do s\u00e9culo passado um estudo sobre o Ciclo do Canga\u00e7o no Nordeste Brasileiro (1870-1940).<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 De acordo com D\u00f3ria, que escreveu a obra \u201cO Canga\u00e7o\u201d, houve um tempo em que a maioria das pessoas torcia pelos bandidos em luta contra a pol\u00edcia. Parcela significativa da sociedade n\u00e3o contrapunha ao crime a necessidade de mais repress\u00e3o.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Para ele, a no\u00e7\u00e3o de \u201cfora da lei\u201d era relativa. Para a lei do Estado, qualquer um que age de forma violenta, roube ou mate \u00e9 considerado um bandido. Mas, o \u201cfora da lei\u201d de que tratamos aqui, o bandido social, se distingue do criminoso comum.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Em sua pesquisa sobre o Canga\u00e7o no Nordeste, D\u00f3ria destaca que o bandido social era em geral membro de uma sociedade rural, encarado como criminoso pelo Estado e pelos grandes propriet\u00e1rios.<\/h3>\n<h3>\u00a0No entanto, para a sociedade camponesa daquela \u00e9poca era considerado como her\u00f3i por sua gente, seja um justiceiro, vingador ou algu\u00e9m que rouba aos ricos. Este tipo de bandido nada tem a ver com o comum, o criminoso que a comunidade entrega \u00e0 pol\u00edcia.<\/h3>\n<h3>\u00a0 O bandido social era um campon\u00eas que, por algum motivo, \u201ccaiu em desgra\u00e7a\u201d perante os poderosos locais, ou um rebelde que merece ser admirado e protegido contra os inimigos.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 \u201cEste tipo de banditismo social \u00e9 um dos fen\u00f4menos mais universais da hist\u00f3ria. Existiu na China, na Inglaterra (Robin Hood), na It\u00e1lia, na Espanha, no Peru, na Indon\u00e9sia, na Ucr\u00e2nia e no Nordeste Brasileiro\u201d. O Billy The Kid e o pr\u00f3prio Lampi\u00e3o se transformaram em her\u00f3is legend\u00e1rios.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Todos esses bandidos possuem tra\u00e7os comuns por terem surgido de sociedades rurais que viveram a transi\u00e7\u00e3o entre a organiza\u00e7\u00e3o tribal, ou de cl\u00e3, e a moderna sociedade capitalista em fase de industrializa\u00e7\u00e3o, a qual destr\u00f3i a predomin\u00e2ncia dos la\u00e7os de fam\u00edlia.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 \u201cNesta sociedade, portanto, ser\u00e1 perfeitamente compreens\u00edvel se um campon\u00eas resolver pegar em armas para \u201cvingar a honra\u201d de sua irm\u00e3, violentada pelo filho de um propriet\u00e1rio, ou se rebelar e defender seus parentes que se recusam a pagar os tributos devidos \u00e0s autoridades\u201d.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Mas, Carlos D\u00f3ria diz que Lampi\u00e3o est\u00e1 longe de ser o \u201cmodelo\u201d de bandido social, embora tenha sido o mais famoso cangaceiro. Uma pesquisa, segundo o autor da obra, permite identificar dois tipos principais de \u201cfora da lei\u201d, o ladr\u00e3o nobre, que rouba dos ricos para dar aos pobres, e o vingador, ou justiceiro, que ao procurar reparar uma injusti\u00e7a, semeia o terror entre os opressores.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Em seu entendimento, por\u00e9m, Lampi\u00e3o consegue reunir, em sua trajet\u00f3ria de crimes, caracter\u00edsticas tanto de um como de outro tipo. Nas sociedades rurais, o banditismo se manifesta atrav\u00e9s de surtos, de end\u00eamico para epid\u00eamico, como durante as secas prolongadas, exemplo da estiagem de 1877\/79.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Os principais surtos ocorreram na segunda metade do s\u00e9culo XIX, per\u00edodo de franca expans\u00e3o do capitalismo sobre o mundo rural. \u201cNo Brasil, apesar de o surto do canga\u00e7o ter ocorrido em fins do s\u00e9culo XIX e come\u00e7o do XX, existiram casos na primeira metade do s\u00e9culo XVIII.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Muitos iniciaram sua carreira de bandido n\u00e3o pelo crime, mas como v\u00edtima de uma injusti\u00e7a ou persegui\u00e7\u00e3o movida pelas autoridades. Por isso que este tipo de bandido \u00e9 admirado pelo povo.<\/h3>\n<h3>Ele nunca \u00e9 inimigo dos poderosos em geral, mas das autoridades. Mesmo finda sua miss\u00e3o, ele n\u00e3o consegue voltar a uma vida normal. Dessa forma, o banditismo se torna um modo de vida.<\/h3>\n<h3><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0 O BANDITISMO COMUM E O SOCIAL \u00a0\u00a0 Os brasileiros em geral ficam escandalizados e se chocam com a onda de viol\u00eancia com requintes de crueldades que tomou conta do pa\u00eds nos \u00faltimos anos. O povo clama por mais policiamento e mais armas. 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