{"id":12575,"date":"2026-11-05T23:45:32","date_gmt":"2026-11-06T02:45:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12575"},"modified":"2026-11-05T23:45:43","modified_gmt":"2026-11-06T02:45:43","slug":"o-homem-mais-sovina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/11\/05\/o-homem-mais-sovina\/","title":{"rendered":"O HOMEM MAIS SOVINA"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0\u00a0 Trabalhar para viver, ou viver para o trabalho? Nos tempos atuais ainda tem muita gente que s\u00f3 vive para o trabalho, com a ganancia de s\u00f3 juntar grana e, normalmente, essas pessoas s\u00e3o por demais sovinas ao ponto de fazer caso de um tost\u00e3o, ou centavo.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 A sovinice deveria ser mais um pecado capital que s\u00e3o sete, consolidados por te\u00f3logos da Igreja Cat\u00f3lica como Ev\u00e1grio P\u00f4ntico, o papa Greg\u00f3rio I e S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, mas \u00e9 irm\u00e3 da avareza, o apego exagerado ao dinheiro e aos bens materiais.<\/h3>\n<h3>\u00a0O sovino \u00e9 soberbo, tem inveja dos outros, conserva a ira, mas n\u00e3o vive na lux\u00faria; n\u00e3o \u00e9 guloso e nem pregui\u00e7oso. Na maioria das vezes nem se alimenta direito para n\u00e3o ter que gastar e nada de luxo e viagens. Trabalha como condenado, anda maltrapilho, sujo e at\u00e9 passa fome. Evita tomar banho todo dia.<\/h3>\n<h3>\u00a0&#8211; Um pedacinho de carne para voc\u00ea e outro para mim, um tiquinho de feij\u00e3o e uns caro\u00e7os de arroz divididos \u2013 assim era Beliz\u00e1rio para com a mulher, um cara que conheci l\u00e1 no sert\u00e3o, que tinha a fama de m\u00e3o de vaca, um sovino de primeira, que s\u00f3 vivia para trabalhar como escravo; botar dinheiro de papel no colch\u00e3o e caba\u00e7as de moedas na cumeeira da casa.<\/h3>\n<h3>Todo dia ele olhava o varal da carne e reduzia o tamanho entre ele e a esposa, com pena de acabar. Toda vizinhan\u00e7a conhecia Beliz\u00e1rio quando ele retornava da feira resmungando ter gastado muito com comida.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Se n\u00e3o vendesse, Beliz\u00e1rio deixava o mam\u00e3o ou outras frutas apodrecerem, mas n\u00e3o se atrevesse pedir que ele n\u00e3o dava a ningu\u00e9m. Tinha uma ch\u00e1cara na fazendo e passava fogo de espingarda quem entrasse nela.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 . Foi o cara mais sovina que j\u00e1 conheci na vida. Para guardar mais dinheiro, s\u00f3 tinha uma cal\u00e7a, uma camisa e uma cueca samba can\u00e7\u00e3o. Quando estavam muito desgastadas e fedendo, mandava a mulher lavar e ficava nu trancado no quarto esperando secar no sol.<\/h3>\n<h3>\u00a0 O cara fazia a fam\u00edlia comer numa cuia de caba\u00e7a e com as m\u00e3os para n\u00e3o comprar pratos e talheres. Nem copo tinha em sua casa e negava at\u00e9 dar \u00e1gua para algu\u00e9m que passasse em sua porta. O bicho era miser\u00e1vel demais!<\/h3>\n<h3>\u00a0 Al\u00e9m da sovinice, Beliz\u00e1rio era severo com os tr\u00eas filhos homens que comiam o p\u00e3o que o diabo amassou e trabalhavam sem nada ter. Um dia os meninos armaram um esquema e ca\u00edram no mundo levando o dinheiro dele. Ficou enlouquecido e botou a mulher para fora de casa.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Come\u00e7ou a juntar tudo de novo, mesmo vivendo sozinho como um c\u00e3o molambento. At\u00e9 ficou rico, mas nunca fez uma viagem e s\u00f3 frequentava a cidade em dia de feira para vender suas mercadorias. Andava num jumento para n\u00e3o ter que comprar um burro ou um cavalo.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Um dia ele se atracou com um cara que o jurou de morte por causa do troco de um tost\u00e3o. Era t\u00e3o ranzinza que ningu\u00e9m queria mais saber dele, nem tampouco puxar conversa. Ficou t\u00e3o isolado e rejeitado no lugarejo que resolveu vender tudo e sumir para outras bandas.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Beliz\u00e1rio m\u00e3o de vaca, ou sovino, como era conhecido nas redondezas, antes de ir embora e partir para longe, chegou a simular um assalto e at\u00e9 se feriu, espalhando a not\u00edcia de que roubaram todo seu dinheiro, talvez prevendo que algu\u00e9m da fam\u00edlia, por direito, fosse aparecer para pegar alguma coisa dele.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Nunca soube que fim levou Beliz\u00e1rio e onde morreu. Dia desse estava conversando com minha irm\u00e3 e demos boas gargalhadas dos seus atos de sovinices. Sua casquinhagem era fora de s\u00e9rie. Era como se fosse um vivo-morto.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Mesmo nos dias atuais, ainda existem muitos Beliz\u00e1rios por a\u00ed nesses grot\u00f5es do Brasil. Quando conversava com minha irm\u00e3 sobre esse caso, ela apontou para um Beliz\u00e1rio de bermuda e chinelo, arrastando umas bugigangas num carrinho de m\u00e3o.<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0 Trabalhar para viver, ou viver para o trabalho? 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