{"id":12544,"date":"2026-10-27T22:15:17","date_gmt":"2026-10-28T01:15:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12544"},"modified":"2026-10-27T22:15:42","modified_gmt":"2026-10-28T01:15:42","slug":"uma-trincheira-da-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/10\/27\/uma-trincheira-da-resistencia\/","title":{"rendered":"UMA TRINCHEIRA DA RESIST\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0O Nordeste das grandes secas que fizeram tombar milhares de nordestinos e viveu por s\u00e9culos isolado do pa\u00eds como arcaico, do canga\u00e7o e do banditismo, do coronelismo, dos chefes pol\u00edticos perdul\u00e1rios e corruptos, messi\u00e2nico e religioso, da diversidade cultural e das injusti\u00e7as sociais sempre foi uma trincheira da resist\u00eancia nas lutas pol\u00edticas pela liberdade e pela democracia.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Contra a domina\u00e7\u00e3o estrangeira, crises econ\u00f4micas e a opress\u00e3o imperial, a regi\u00e3o travou suas batalhas, como na Insurrei\u00e7\u00e3o Pernambucana (1645\/1654), um movimento que uniu portugueses, brasileiros, ind\u00edgenas e africanos escravizados para expulsar os holandeses da Companhia das \u00cdndias Ocidentais do Nordeste.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Tivemos outras tantas revoltas, como a Guerra dos Mascates (1710\/1711), um conflito em Pernambuco que envolveu disputas de poder entre a aristocracia rural decadente dos senhores de engenhos de a\u00e7\u00facar e os comerciantes.<\/h3>\n<h3>\u00a0 N\u00e3o podemos esquecer da Conjura\u00e7\u00e3o Baiana, em 1798, uma rebeli\u00e3o de car\u00e1ter popular separatista, realizada em Salvado, com ideais iluministas que exigia a independ\u00eancia da Coroa Portuguesa, o fim da escravid\u00e3o e das injusti\u00e7as sociais. A revolta foi liderada por negros, alfaiates e soldados.<\/h3>\n<h3>\u00a0 A Revolu\u00e7\u00e3o Pernambucana, de 1817, foi mais uma manifesta\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00a0\u00a0separatista contra a crise do a\u00e7\u00facar e do algod\u00e3o, bem como o aumento dos impostos pelo Imp\u00e9rio.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Aconteceu ainda a Confedera\u00e7\u00e3o do Equador, em 1824, um movimento revolucion\u00e1rio em Pernambuco que contou tamb\u00e9m com a participa\u00e7\u00e3o de outros estados contestando o poder centralizador do imperador D. Pedro I.<\/h3>\n<h3>\u00a0 De grande import\u00e2ncia foi a Revolta dos Mal\u00eas, em 1835, a maior rebeli\u00e3o dos africanos em todo Brasil ocorrida em Salvador quando mais de 600 africanos mul\u00e7umanos lutaram bravamente pela liberdade e fim da escravid\u00e3o. Por trai\u00e7\u00e3o de alguns, o movimento foi abafado e correu muito sangue e atrocidades pelas for\u00e7as do poder central.<\/h3>\n<h3>\u00a0 A nossa hist\u00f3ria pouco registra sobre o Quebra-Quilos (1872\/1877), um protesto popular que se espalhou pelas feiras das cidades da Para\u00edba se estendendo para outros estados da regi\u00e3o contra a posi\u00e7\u00e3o do sistema m\u00e9trico decimal e eleva\u00e7\u00e3o das taxas cobradas pelo Imp\u00e9rio.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 De grande repercuss\u00e3o nacional e internacional foi a Guerra de Canudos, no sert\u00e3o baiano, de 1896\/1897, sob a lideran\u00e7a do messi\u00e2nico religioso Ant\u00f4nio Conselheiro, que atraiu cerca de 30 mil adeptos trabalhadores sertanejos rurais, ex-escravizados que fugiam da seca e da mis\u00e9ria, distribu\u00eddos em mais de cinco mil casas.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Tornou-se uma comunidade socialista autossustent\u00e1vel, com produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e rebanhos compartilhados, que o governo republicano massacrou impiedosamente depois de v\u00e1rias expedi\u00e7\u00f5es. Praticamente, toda popula\u00e7\u00e3o foi dizimada ao final do conflito, em outubro de 1897.<\/h3>\n<h3>\u00a0Com caracter\u00edsticas semelhantes, tivemos o movimento Pau de Colher, entre os anos de 1934 e 1938, em pleno banditismo do canga\u00e7o do bando de Lampi\u00e3o, ocorrido no munic\u00edpio de Casa Nova, na Bahia, sob a lideran\u00e7a do beato Jos\u00e9 Senhorinho, inspirado nas ideias de outros messi\u00e2nicos nordestinos, como Severino Tavares e Jos\u00e9 Louren\u00e7o (Caldeir\u00e3o), na Serra do Araripe.<\/h3>\n<h3>\u00a0 O movimento aconteceu na ditadura do Governo de Get\u00falio Vargas que classificou o agrupamento de trabalhadores rurais como comunista. Foi outro triste massacre que as for\u00e7as da Bahia, Pernambuco e Piau\u00ed dizimaram milhares de pessoas, em 1938.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 N\u00e3o podemos deixar de registrar as guerras que os estados da Bahia, Piau\u00ed, Cear\u00e1 e Maranh\u00e3o travaram para expulsar as tropas portuguesas ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia do Brasil, por volta de 1823. Diferente do Sudeste, a independ\u00eancia nessas prov\u00edncias n\u00e3o se consolidou no Sete de Setembro de 1822 e exigiu confrontos populares com a participa\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas, negros escravos e trabalhadores do campo e das cidades.<\/h3>\n<h3>\u00a0 A Bahia foi o palco mais sangrento da guerra contra as for\u00e7as portuguesas comandadas por Madeira de Melo. O ex\u00e9rcito e volunt\u00e1rios cercaram a capital por terra e mar e expulsaram definitivamente os portugueses, em 2 de julho de 1823.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 O mesmo ocorreu no Piau\u00ed, na Batalha de Jenipapo, em 13 de mar\u00e7o de 1823. No Maranh\u00e3o, a rendi\u00e7\u00e3o foi consolidada em 28 de julho do mesmo ano. No Cear\u00e1 foi organizado o Ex\u00e9rcito Libertador que ajudou as lutas nos estados vizinhos do Piau\u00ed e Maranh\u00e3o.<\/h3>\n<h3>\u00a0 At\u00e9 os tempos atuais de 2026, o Nordeste demonstrou ser uma trincheira de resist\u00eancia contra os usurpadores do poder que ainda alimentam implantar no Brasil uma ditadura militar e calar a democracia, como no golpe de 1964. De forma democr\u00e1tica, essa resist\u00eancia foi mais uma vez comprovada pelo mapa da vota\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Portanto, os sulistas e as regi\u00f5es do sudeste e centro-oeste devem respeitar o povo nordestino e n\u00e3o praticar atos xen\u00f3fobos preconceituosos, inclusive por ter ajudado a construir esses territ\u00f3rios brasileiros com mentes e bra\u00e7os fortes.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Por causa deles, o Nordeste sempre foi v\u00edtima de profundas desigualdades regionais. Al\u00e9m do mais, \u00e9 aqui que est\u00e1 o maior celeiro da cultura brasileira com renomados nomes de proje\u00e7\u00e3o nacional e internacional nas suas diversas linguagens art\u00edsticas, acad\u00eamicas e populares.<\/h3>\n<h3>Temos como fontes inspiradoras para todo Brasil a composi\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica, a literatura, a poesia, o teatro, as tradi\u00e7\u00f5es e express\u00f5es populares, a magistratura, dentre tantas outras atividades culturais que nos orgulha de sermos nordestinos, como se diz, \u201ccabras da peste\u201d.<\/h3>\n<h3><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0O Nordeste das grandes secas que fizeram tombar milhares de nordestinos e viveu por s\u00e9culos isolado do pa\u00eds como arcaico, do canga\u00e7o e do banditismo, do coronelismo, dos chefes pol\u00edticos perdul\u00e1rios e corruptos, messi\u00e2nico e religioso, da diversidade cultural e das injusti\u00e7as sociais sempre foi uma trincheira da resist\u00eancia nas lutas pol\u00edticas pela liberdade e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12544"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12544"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12544\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12545,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12544\/revisions\/12545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12544"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12544"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12544"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}