{"id":12494,"date":"2026-10-21T22:30:55","date_gmt":"2026-10-22T01:30:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12494"},"modified":"2026-10-21T22:31:26","modified_gmt":"2026-10-22T01:31:26","slug":"o-corredor-sumiu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/10\/21\/o-corredor-sumiu\/","title":{"rendered":"O CORREDOR SUMIU"},"content":{"rendered":"<h3>(Chico Ribeiro Neto)<br \/>\nNo filme &#8220;A Fam\u00edlia&#8221; (1987), de Ettore Scola, o passeio da c\u00e2mera pelo corredor \u00e9 sinal de que os integrantes da fam\u00edlia est\u00e3o ficando mais velhos.<br \/>\nCada vis\u00e3o do corredor deserto \u00e9 sinal de que na pr\u00f3xima cena estar\u00e3o todos com pelo menos 10 anos a mais.<br \/>\nAntes enormes, largos, os corredores foram encolhendo. Sa\u00edram das casas com quintal e tudo e foram morar em apartamentos, de onde se passou a sair praticamente da sala para o quarto, quase sem passagem.<br \/>\nSer\u00e1 que a arquitetura moderna bolou isso pra gente n\u00e3o ver mais o tempo passar ou n\u00e3o ver na linha final do corredor quem est\u00e1 chegando?<br \/>\nO corredor da minha casa em Ipia\u00fa (BA) dava at\u00e9 pra jogar bola e seus\u00a0 azulejos amarelos, com desenhos mais escuros nas pontas, eram friozinhos para sentar numa tarde quente e ficar jogando gude. Muitas vezes a gude sumia no corredor e demorava pra achar.<br \/>\nAl\u00e9m da sala de visita, cabiam tr\u00eas quartos ao longo do corredor. Era vir correndo de dentro da sala de jantar para abra\u00e7ar meu pai Waldemar que acabava de chegar da sua Padaria Minerva, quase sempre com uma surpresa, como um p\u00e3o doce em forma de caub\u00f3i ou de um jacar\u00e9, com o que a gente fazia sucesso com os amigos. &#8220;Meu pai n\u00e3o faz pra vender, s\u00f3 pra gente&#8221;.<br \/>\nNo corredor cabia ainda muito mais coisa: revistas, peda\u00e7os de papel para fazer colagem, bolas de v\u00e1rios tamanhos, formigas de antenas tiradas, o chap\u00e9u do velho pendurado, uma capa de chuva e ainda duas cadeiras de lona encostadas na porta da rua, que eram pra cal\u00e7ar um pouco, pois quem quisesse entrar era s\u00f3 empurrar que j\u00e1 estava dentro de casa.<br \/>\nFaziam tamb\u00e9m parte do corredor pequenas quedas e r\u00e1pidas corridas, \u00e0s vezes trope\u00e7ando numa tia que sa\u00eda do quarto com um penico na m\u00e3o. E \u00e9 do corredor de Ipia\u00fa que v\u00eam os gritos dela pelo penico derramado, pelo banho ainda n\u00e3o tomado e pelo caf\u00e9 que t\u00e1 na mesa.<br \/>\nPercorro o corredor lentamente, como a c\u00e2mera de Ettore Scola. Vejo as tias rezando e os alvos e compridos bigodes de meu av\u00f4 Chico Ribeiro que, j\u00e1 vi\u00favo, coloca um pouco de talco no corpo para dormir, vestindo seu pijama velhinho mas muito bem engomado. Assim o velho morreu um dia, com o pijama e o talco, fazendo um neto come\u00e7ar a aprender o que \u00e9 sumir da vida.<br \/>\nJ\u00e1 no fim do corredor, viro-me\u00a0 para uma \u00faltima olhada antes de fechar a porta. Fechar, n\u00e3o, apenas encost\u00e1-la, pois estarei sempre voltando \u00e0quele corredor.<br \/>\n(Cr\u00f4nica publicada no jornal A Tarde em 27\/9\/1989).<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) No filme &#8220;A Fam\u00edlia&#8221; (1987), de Ettore Scola, o passeio da c\u00e2mera pelo corredor \u00e9 sinal de que os integrantes da fam\u00edlia est\u00e3o ficando mais velhos. Cada vis\u00e3o do corredor deserto \u00e9 sinal de que na pr\u00f3xima cena estar\u00e3o todos com pelo menos 10 anos a mais. 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