{"id":1246,"date":"2015-11-04T23:36:35","date_gmt":"2015-11-05T02:36:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=1246"},"modified":"2015-11-04T23:36:42","modified_gmt":"2015-11-05T02:36:42","slug":"a-contigencia-e-o-absoluto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2015\/11\/04\/a-contigencia-e-o-absoluto\/","title":{"rendered":"A CONTIG\u00caNCIA E O ABSOLUTO"},"content":{"rendered":"<p>De Orlando Senna<\/p>\n<p>Indica\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rio de Itamar Aguiar<\/p>\n<p>Blog Refletor\u00a0\u00a0\u00a0TAL-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Assustado com o estado geral das coisas, no mundo onde milh\u00f5es de pessoas vagam e morrem em terras estrangeiras tentando escapar da fome e da viol\u00eancia, onde uma guerra se espraia mundialmente disfar\u00e7ada em conflitos regionalizados, como se n\u00e3o fosse uma s\u00f3, e particularmente no Brasil, pa\u00eds idolatradamente amado que agora causa vergonha e decep\u00e7\u00e3o aos brasileiros de bem e do bem por culpa de pol\u00edticos, servidores p\u00fablicos e empres\u00e1rios criminosos, me aninhei na imagem e na lembran\u00e7a de duas pessoas muito importantes na minha vida.<\/p>\n<p>Estava\/estou assustado com a crise da esp\u00e9cie humana, mas tamb\u00e9m, ou consequentemente, com vontade de continuar a ser feliz, de preservar minha part\u00edcula divina, essa part\u00edcula que todo mundo tem, mesmo os que n\u00e3o sabem disso. E por isso me aninhei na minha professora Angelina Campos Felippi Viana e no meu compadre Roberto Pires, o cineasta, que protagonizam neste fim de semana eventos culturais na Bahia. Os convites est\u00e3o lado a lado na minha telinha: dona Angelina est\u00e1 lan\u00e7ando seu livro\u00a0<em>Aventureiros &amp; Sonhadores<\/em>\u00a0amanh\u00e3, s\u00e1bado, no Centro Cultural Ecoviva em Len\u00e7\u00f3is, na Chapada Diamantina; hoje, sexta-feira, o Instituto Mem\u00f3ria Roberto Pires, mantido por sua fam\u00edlia, exibe no XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador, o filme restaurado\u00a0<em>Abrigo Nuclear<\/em>, realizado por ele em 1981.<\/p>\n<p><u>Milit\u00e2ncia<\/u><\/p>\n<p>Roberto Pires, al\u00e9m de inventar lentes anam\u00f3rficas, fazer o primeiro filme longo da Bahia (<em>Reden\u00e7\u00e3o<\/em>, 1958), alimentar a semeadura do Cinema Novo com seus cl\u00e1ssicos\u00a0<em>A grande feira<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Tocaia no asfalto<\/em>, ser o mestre incontest\u00e1vel de sua gera\u00e7\u00e3o de diretores, fot\u00f3grafos e editores no que se refere \u00e0 tecnologia audiovisual, foi um ambientalista em tempo integral em uma \u00e9poca em que esse assunto n\u00e3o circulava na sociedade nem era uma pauta importante na m\u00eddia e na academia. Nos anos 1970 suas preocupa\u00e7\u00f5es com o destino da humanidade estavam focados na poss\u00edvel escassez de \u00e1gua no planeta, na exaust\u00e3o das reservas de petr\u00f3leo e no perigo mortal da utiliza\u00e7\u00e3o da energia nuclear para fins pac\u00edficos. Aten\u00e7\u00e3o: seu foco n\u00e3o era a bomba at\u00f4mica, a guerra nuclear, a prolifera\u00e7\u00e3o das ogivas nucleares de destrui\u00e7\u00e3o em massa. Era o lixo das centrais nucleares de produ\u00e7\u00e3o de eletricidade, res\u00edduos que continuar\u00e3o radioativos durante milhares de anos.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Abrigo Nuclear<\/em>, do qual participei como roteirista, \u00e9 exatamente sobre isso: a superf\u00edcie da Terra envenenada pela radia\u00e7\u00e3o, inabit\u00e1vel para o ser humano. Roberto realizou outros filmes sobre o tema, como\u00a0<em>C\u00e9sio 137<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Alternativa energ\u00e9tica<\/em>, mas \u00e9 no\u00a0<em>Abrigo<\/em>\u00a0onde sua criatividade inquieta e o foco central de sua milit\u00e2ncia ecol\u00f3gica est\u00e1 mais presentes, al\u00e9m do seu modus operandi artesanal. Amigos e familiares acreditam em uma possibilidade nunca comprovada que, na sua campanha contra os males da contamina\u00e7\u00e3o gerada pelo uso pac\u00edfico da energia nuclear, ele mesmo foi contaminado durante as pesquisas e filmagens de\u00a0<em>C\u00e9sio 137<\/em>\u00a0e<em>\u00a0Alternativa en\u00e9rgica<\/em>. Nunca desistiu. Testemunhou os acidentes radiol\u00f3gicos de Chernobyl e de Goi\u00e2nia (assunto de\u00a0<em>C\u00e9sia 137<\/em>) e j\u00e1 n\u00e3o estava entre n\u00f3s quando aconteceu a trag\u00e9dia de Fukushima. Na verdade estava, sempre estar\u00e1, como modelo de milit\u00e2ncia em prol da humanidade.<!--more--><!--more--><\/p>\n<p><u>Amor<\/u><\/p>\n<p>Ao aninhar meu pensamento em Roberto e em dona Angelina, o que busco s\u00e3o exemplos do humanismo de que tanto estamos necessitados nesses tempos de bestializac\u00e3o da esp\u00e9cie. Aos 94 anos de idade, dona Angelina est\u00e1 dando \u00e0 luz seu livro\u00a0<em>Aventureiros &amp; Sonhadores<\/em>, que conta um s\u00e9culo da hist\u00f3ria de sua terra natal, Len\u00e7\u00f3is, a pequena \u201ccapital\u201d da Chapada Diamantina. Hist\u00f3ria prenhe de garimpeiros vision\u00e1rios, guerras intestinas, riqueza e pobreza com detalhes e pontos de vista que s\u00f3 a viv\u00eancia faz alcan\u00e7ar. A cidade est\u00e1 em festa, muitos nativos espalhados pelo mundo est\u00e3o se encaminhando para l\u00e1, um grupo de teatro ensaia uma leitura do livro em pra\u00e7a p\u00fablica. Toda essa movimenta\u00e7\u00e3o porque se trata da professora que ensinou a v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, da mestra de milhares de pessoas e todas essas pessoas se sentem profundamente agradecidas e aben\u00e7oadas por ter tido a sorte de serem encaminhadas na vida por uma mulher t\u00e3o amplamente competente, amorosa e entregue \u00e0 sua miss\u00e3o educadora.<\/p>\n<p>Ela foi minha primeira e mais importante professora, me alfabetizou e me mostrou caminhos, e fiquei profundamente emocionado quando me convidou para fazer um pref\u00e1cio do seu livro. Cito em seguida trecho do que escrevi, na esperan\u00e7a de que, lendo-o, voc\u00eas entendam a minha emo\u00e7\u00e3o e o que quero dizer quando uso o conceito humanismo e rezo para que exemplos como ela continuem a nos iluminar, a nos ajudar a criar o nosso, de cada um, sentido da vida.<\/p>\n<p>\u201cLembro-me de muitos momentos desse meu aprendizado com a melhor das professoras, das epifanias que ela fazia acontecer no meu esp\u00edrito infantil. Lembran\u00e7as que, pelo tempo, v\u00eam \u00e0 tona com a textura dos sonhos e da imagina\u00e7\u00e3o mas que guardam, na ess\u00eancia, a nitidez dos alicerces, das bases e firmamentos que norteiam meu viver. Enquanto escrevo, minha mem\u00f3ria insiste em focar um desses momentos emblem\u00e1ticos, acontecido nos meus cinco ou seis anos de idade. Durante uma das aulas de dona Angelina, meu primo Augusto Senna Maciel, sentado a meu lado e induzido por algum ensinamento ou revela\u00e7\u00e3o dela, afirmou o que para mim era um absurdo: Papai Noel n\u00e3o existe. Contestei, discutimos, elevamos a voz, dona Angelina se aproximou, soube da nossa discord\u00e2ncia e nos chamou para uma conversa reservada. Na conversa, doce como sempre, deu raz\u00e3o a Augusto, me informou que os verdadeiros Papais No\u00e9is eram nossos pais e av\u00f3s, eram eles e n\u00e3o um velhinho de barba branca e roupa vermelha que deixavam presentes em nossos sapatos durante a noite de Natal. Diante do meu assombro, da minha poss\u00edvel cara de bezerro desmamado, ela sorriu e ressignificou o assunto: \u2018n\u00e3o fique triste, voc\u00ea vai continuar tendo seu Papai Noel, s\u00f3 que agora sabendo que ele n\u00e3o \u00e9 um s\u00f3, s\u00e3o v\u00e1rios\u2019. Foi o dia em que dona Angelina me ensinou a relatividade da vida, a condicionalidade, a diferen\u00e7a entre o absoluto e a conting\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p><strong>Coment\u00e1rio: <\/strong><\/p>\n<p>Este \u00e9 mais um dos artigos, l\u00facido e bem escrito da lavra de Orlando, desta feita falando de parte da sua intimidade sempre vinculada \u00e0 Cultura e \u00e0 arte cinematogr\u00e1fica, pelo menos desde que o conhe\u00e7o e que j\u00e1 faz muitos anos, mais de meio s\u00e9culo. Desta feita trata de duas importantes pessoas em sua vida, a primeira Professora Angelina Viana e, Roberto Pires o compadre, cujo compadrio se deu em fun\u00e7\u00e3o da milit\u00e2ncia e sonhos de ambos, na tentativa de fazer do Cinema o instrumento em defesa da humaniza\u00e7\u00e3o e da humanidade de humanos, no espectro do vivo planeta azul, a Terra.<\/p>\n<p>Ao contrario de Orlando n\u00e3o desfrutei a oportunidade, o privilegio de ter sido aluno de Dona Angelina em Len\u00e7\u00f3is, cidade onde estudamos em um col\u00e9gio criado pelo saudoso Professor Renato Pereira Viana, um exemplar criador de col\u00e9gios na Bahia e no Brasil durante os prec\u00e1rios anos 1950, 1960 e 1970. No \u00faltimo s\u00e1bado fomos agraciados com o lan\u00e7amento da obra <em>Aventureiros &amp; Sonhadores <\/em>que, narra de modo coloquial, parte da hist\u00f3ria dos \u00faltimos cem anos da m\u00e1gica e encantadora Len\u00e7\u00f3is. A maior parte dos membros das fam\u00edlias mais antigas do lugar se fez presente, com destaque para muitas senhoras com mais que oitenta anos. Parab\u00e9ns Orlando, parab\u00e9ns Dona Angelina seus familiares, por este singelo encontro na Capital dos Diamantes.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u00a0Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s Doutor em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 em 2014, pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Orlando Senna Indica\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rio de Itamar Aguiar Blog Refletor\u00a0\u00a0\u00a0TAL-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina. 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