{"id":12430,"date":"2026-09-25T00:02:50","date_gmt":"2026-09-25T03:02:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12430"},"modified":"2026-09-25T00:03:01","modified_gmt":"2026-09-25T03:03:01","slug":"o-pulover-cheirava-a-naftalina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/09\/25\/o-pulover-cheirava-a-naftalina\/","title":{"rendered":"O PUL\u00d4VER CHEIRAVA A NAFTALINA"},"content":{"rendered":"<h3>(Chico Ribeiro Neto)<br \/>\nAs tanajuras zuniam em volta dos postes da Rua Tuiuti, em Salvador. A chuva fina n\u00e3o impedia a reuni\u00e3o da turma na esquina, e o velho casaquinho, com alguns fios saindo dos punhos, tinha o cheiro de naftalina. &#8220;Afinal, nunca mais choveu, e essas baratas s\u00e3o um caso s\u00e9rio&#8221;.<br \/>\nChove na rua da minha inf\u00e2ncia e toda essa \u00e1gua descendo a Ladeira dos Aflitos vai parar na velha &#8220;Praia de Doutor Barros&#8221;, vizinha \u00e0 Praia da Pregui\u00e7a.<br \/>\nDe manh\u00e3, sa\u00eda o sol e o brilho dos paralelep\u00edpedos lavados do\u00eda um pouco nos olhos. Empurrados para a beira da boca-de-lobo, montinhos que tinham de um tudo: folha, barbante, caixinha de chiclete e peda\u00e7os de bola de gude.<br \/>\nA pequena enxurrada junto ao meio-fio me traz barquinhos e lembran\u00e7as.<br \/>\nPul\u00f4ver. S\u00f3 de pronunciar essa palavra j\u00e1 me sentia um pouco mais aquecido. Tinha que us\u00e1-lo por cima de alguma blusa\u00a0 sen\u00e3o espinhava muito.<br \/>\nEra hora de pegar alguma revista, pois l\u00e1 fora est\u00e1 chovendo muito. Mas era s\u00f3 passar um pouquinho que l\u00e1 ia todo mundo correndo pro murinho do Edif\u00edcio Tuiuti\u00a0 justamente na esquina com a Ladeira dos Aflitos, pois dava pra se ver tudo: as meninas que sa\u00edam de lambreta e as que n\u00e3o sa\u00edam, apenas rodavam as saias e jogavam sorrisos pra c\u00e1.<br \/>\nEncontro &#8220;Gel Beleza&#8221; no Shopping Iguatemi, e os chopes v\u00e3o puxando mais lembran\u00e7as. Temos conversa pra noite toda, pois da inf\u00e2ncia quanto mais lembran\u00e7a se tira, mais se tem. Desfi\u00e1-las \u00e9 um prazer insubstitu\u00edvel.<br \/>\nSe a chuva passa mais, a gente pode jogar gude. Caso contr\u00e1rio, s\u00f3 resta o Banco Imobili\u00e1rio. N\u00e3o d\u00e1 pra picula, pois t\u00e1 escorregando muito.<br \/>\nQuem sabe um baba daqui a pouco? Jogar bot\u00e3o tamb\u00e9m era bom em dia de chuva. Cada um com sua caixinha de jogadores embaixo do bra\u00e7o e pesados goleiros em caixas de f\u00f3sforos cheias de chumbo. Goleiro leve ca\u00eda logo. Bonito era goleiro bem forrado, com o escudo do time bem no meio do peito e o nome logo abaixo.<br \/>\nA chuva interrompia nossa rotina de sol, de toda tarde na Praia do Unh\u00e3o, cabelo quase vermelho e as costas quase sempre despelando.<br \/>\nA chuva nos devolvia um pouco a n\u00f3s mesmos, mas como crian\u00e7a n\u00e3o gosta de ficar sozinha, ao primeiro estio estava cheio o muro do Edif\u00edcio Tuiuti.<br \/>\nA roupa de frio sempre tinha um cheirinho de guardado que invariavelmente me fazia espirrar. Adorava um pul\u00f4ver em que uma m\u00e3o entrava pela outra. Achava um grande charme amarr\u00e1-lo em volta do pesco\u00e7o, se bem que ele s\u00f3 resolvia cair no ch\u00e3o quando passava uma menina perto.<br \/>\nO baba na chuva era bom, at\u00e9 pela molequeira de chutar a po\u00e7a em vez da bola, e molhar o advers\u00e1rio todo. Tinha hora que esquec\u00edamos completamente da bola e l\u00e1 estavam os dois times a se molharem. O paralelep\u00edpedo ficava um verdadeiro quiabo, e perto de fazer o gol era uma queda s\u00f3, ralando metade da bunda.<br \/>\nComo at\u00e9 hoje, a Ladeira dos Aflitos era cheia de casas em cujas bicas o banho era renovador. Um tor\u00f3 constante na cara, sem precisar fechar a torneira. Depois, era caminhar e tirar os pedacinhos de ferrugem da bica que ficavam na cabe\u00e7a.<br \/>\nPerto de dormir, levantar o colch\u00e3o e pegar aquela revista que mam\u00e3e Cleonice n\u00e3o podia ver. A chuva ajudava.<br \/>\n(Cr\u00f4nica publicada no jornal A Tarde em 8\/8\/1990).<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) As tanajuras zuniam em volta dos postes da Rua Tuiuti, em Salvador. A chuva fina n\u00e3o impedia a reuni\u00e3o da turma na esquina, e o velho casaquinho, com alguns fios saindo dos punhos, tinha o cheiro de naftalina. &#8220;Afinal, nunca mais choveu, e essas baratas s\u00e3o um caso s\u00e9rio&#8221;. 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