{"id":12416,"date":"2026-09-23T00:25:14","date_gmt":"2026-09-23T03:25:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12416"},"modified":"2026-09-23T00:25:25","modified_gmt":"2026-09-23T03:25:25","slug":"na-linguagem-de-gil-vicente-e-camoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/09\/23\/na-linguagem-de-gil-vicente-e-camoes\/","title":{"rendered":"NA LINGUAGEM DE GIL VICENTE E CAM\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0 Quando ainda era menino e morava com meus pais na ro\u00e7a, falava e escrevia \u201cerrado\u201d como os matutos sertanejos. Quando fui para a escola na cidade, todos colegas arreliavam de mim. Era motivo de piadas e bullying. Demorei muito para aprender o \u201ccerto\u201d.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Foi no sert\u00e3o profundo, fora da zona da mata e do litoral dos engenhos, que os primeiros colonizadores portugueses, a partir dos s\u00e9culos XVI, XVII e XVIII, principalmente com as sesmarias, levaram a linguagem escrita e falada para os rinc\u00f5es do Nordeste.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Quem abre essa quest\u00e3o \u00e9 o historiador especialista em canga\u00e7o, formado na vis\u00e3o da escola gilbertiana, Frederico Pernambucano de Melo, em sua obra \u201cGuerreiros do Sol\u201d, ao citar outros autores, como Luis Aguiar da Costa Pinto, C\u00e2mara Cascudo, Euclides da Cunha, dentre outros.<\/h3>\n<h3>\u00a0 \u201cNo pref\u00e1cio \u00e0 segunda edi\u00e7\u00e3o\u201d, Gilberto de Melo Kujawski, destaca a fala de Pernambucano quando assinala que o nordestino n\u00e3o fala o portugu\u00eas errado (como parece ao homem da cidade) e sim, o mais puro vern\u00e1culo do s\u00e9culo XVI, contempor\u00e2neo de Gil Vicente e Cam\u00f5es.<\/h3>\n<h3>\u00a0 \u201cO sertanejo nascia, crescia e vivia limitado pelo mais severo isolamento, organizando o poder por sua conta e risco, longe dos centros oficiais de administra\u00e7\u00e3o, pol\u00edcia e justi\u00e7a\u201d.<\/h3>\n<h3>\u00a0 No primeiro cap\u00edtulo sobre o ciclo do gado, ou do couro, Frederico descreve a postura arcaica, religiosa medieval, messi\u00e2nica, familiar, o conservadorismo pol\u00edtico arraigado, bem como o seu precioso classicismo vocabular, confundido por estudiosos apressados com o que seria o falar errado.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Na verdade, conforme refor\u00e7a o escritor, se est\u00e1 diante do \u201cportugu\u00eas do s\u00e9culo XVI\u201d, do falar cl\u00e1ssico de Cam\u00f5es e Gil Vicente, segundo demonstraram as pesquisas de M\u00e1rio Marroquim e Virg\u00edlio de Lemos.<\/h3>\n<h3>\u00a0 C\u00e2mara Cascudo chega a usar o termo \u201cvocabul\u00e1rio teimoso\u201d, para acrescentar que o sertanejo assim condicionado manteve o idioma velho, rijo e sonoro dos antigos colonizadores. Cascudo conta uma hist\u00f3ria que se passou com ele nos anos 30, e que nem por ter sabor de piada o privou de passar vergonha.<\/h3>\n<h3>\u00a0 \u201cH\u00e1 meses uma velha negra, ralhando com o neto glut\u00e3o, informou-me que ele, come\u00e7ando a comer, n\u00e3o tinha PARAN\u00c7A. Confessou que ficou por muito tempo rindo da idosa. No entanto, ao voltar a Natal e, ap\u00f3s ter consultado o seu velho dicion\u00e1rio de Morais, concluiu encabulado: Quem estava digno de risada era eu. PARAN\u00c7A \u00e9 o ato de parar.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Em \u201cNotas de Refer\u00eancias\u201d, Frederico Pernambucano de Melo volta a citar C\u00e2mara Cascudo de que o sertanejo n\u00e3o fala errado. Fala diferente de n\u00f3s apenas. Sua pros\u00f3dia, constru\u00e7\u00e3o gramatical e vocabul\u00e1rio n\u00e3o s\u00e3o atuais nem faltos de l\u00f3gica.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Em sua vis\u00e3o, a rodovia, h\u00e1 poucos anos, conseguiu prender o sertanejo em massa ao litoral e sua linguagem est\u00e1 se modificando ao contato do nosso palavrear brasileiros diverso. Mesmo assim, ainda existem, voc\u00e1bulos cl\u00e1ssicos.<\/h3>\n<h3>\u00a0 \u201cO que nos faz sorrir \u00e9 a nossa ignor\u00e2ncia dos escritores portugueses de outrora. Em Luis Gomes perguntei ao prefeito Ant\u00f4nio Gon\u00e7alves se morava na vila, no que respondeu \u201ctenho casa aqui, mas sempre ASSISTO na fazenda\u201d.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 O poeta de \u201cMar\u00edlia de Dirceu\u201d, Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga (1744-1807), um dos chefes da Inconfid\u00eancia Mineira, assim enumerava suas posses rom\u00e2nticas: \u201cTenho pr\u00f3prio casal e nele ASSISTO\u201d.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Cam\u00f5es n\u00e3o usava ESTOU (penso), VENTURA (sorte), HOME (no sentido pronominal indefinido), CALIDADE, DESAGARDECIDO (desagradecido), ERARO (claro), DIXE (disse), ALEVANTAR (levantar), ARRECEIO, PR\u00d3PIO (pr\u00f3prio), TREI\u00c7\u00c3O (trai\u00e7\u00e3o).<\/h3>\n<h3>\u00a0 Quando um sertanejo diz FILOSOMIA, em vez de fisionomia, n\u00f3s achamos uma gra\u00e7a. Luis de Cam\u00f5es, o hiperpl\u00e1sico das nossas antologias escolares d\u00e1 um exemplo: Que era DALTA gera\u00e7\u00e3o\/ Logo na FILOSOMIA&#8230;<\/h3>\n<h3>\u00a0S\u00e1 de Miranda escrevia ALUMEIA, TROMENTO, DEMUDADO, HOME: \u201cDe tal sono as deixam cheias\/ Que n\u00e3o pode HOME erguer\u201d. O sertanejo emprega ENTONCES, ASSOSSEGOU, EMPACHO (embara\u00e7o), DESPOIS, INT\u00c9 (at\u00e9), ANRIQUE por Henrique. Assim assinava o cardeal Rei Dom ANRIQUE. N\u00e3o conv\u00e9m rotular de portugu\u00eas-errado o linguajar do nosso sertanejo.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Interessante que BABULAGEM em nosso Nordeste corresponde ao nosso fake news inglesado, ou o que \u00e9 not\u00edcia falsa, mentirosa.<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Quando ainda era menino e morava com meus pais na ro\u00e7a, falava e escrevia \u201cerrado\u201d como os matutos sertanejos. Quando fui para a escola na cidade, todos colegas arreliavam de mim. Era motivo de piadas e bullying. Demorei muito para aprender o \u201ccerto\u201d. \u00a0\u00a0 Foi no sert\u00e3o profundo, fora da zona da mata e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12416"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12416"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12416\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12417,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12416\/revisions\/12417"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12416"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12416"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12416"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}