{"id":12383,"date":"2026-09-11T22:35:16","date_gmt":"2026-09-12T01:35:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12383"},"modified":"2026-09-11T22:37:36","modified_gmt":"2026-09-12T01:37:36","slug":"os-cangaceiros-na-visao-da-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/09\/11\/os-cangaceiros-na-visao-da-esquerda\/","title":{"rendered":"OS CANGACEIROS NA VIS\u00c3O DA ESQUERDA"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0 A mis\u00e9ria e as injusti\u00e7as sociais no Nordeste, a vingan\u00e7a entre fam\u00edlias, o poder dos latifundi\u00e1rios, o dom\u00ednio dos chefes pol\u00edticos e as secas foram os principais fatores que deram origem \u00e0 viol\u00eancia e ao canga\u00e7o. Afinal, o homem \u00e9 produto do meio.<\/h3>\n<h3>O canga\u00e7o n\u00e3o tinha ideologia pol\u00edtica definida de tend\u00eancia esquerdista comunista. Seus membros eram desprovidos dessa no\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Os bandos, especialmente os chefiados por Lampi\u00e3o, eram ex\u00edmios guerrilheiros das caatingas, mas n\u00e3o revolucion\u00e1rios, com prop\u00f3sito de derrubar o poder constitu\u00eddo.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Ant\u00f4nio Silvino, o \u201cRifle de Ouro\u201d (1875-1944) foi um bandoleiro sanguin\u00e1rio que entrou no canga\u00e7o movido pela morte do pai e as brigas entre propriet\u00e1rios de terras; Jesu\u00edno Brilhante (1844-1879), o primeiro cangaceiro, tido como \u201crom\u00e2ntico\u201d (Robin Hood do Sert\u00e3o), roubava dos coron\u00e9is para ajudar os famintos da seca; Sinh\u00f4 Pereira (1896-1979), de fam\u00edlia rica e nobre, \u00a0ingressou por vingan\u00e7a na briga entre os Pereira e Carvalho; e Lampi\u00e3o (1898-1938) foi instigado a entrar no canga\u00e7o pela persegui\u00e7\u00e3o do fazendeiro Jos\u00e9 Saturnino \u00e0 sua fam\u00edlia.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Nenhum, aparentemente, possu\u00eda motivos ideol\u00f3gicos pol\u00edticos no sentido de lutar para derrubar os poderosos e protestar contra a opress\u00e3o imposta aos sertanejos, abandonados pela aus\u00eancia dos governantes, embora suas a\u00e7\u00f5es revelassem formas de revolta e rebeldia contra estes senhores. Deles o banditismo tirou proveito para si, cada um usando suas raz\u00f5es individuais para fazer fortunas.<\/h3>\n<h3>\u00a0 No entanto, a esquerda daquela \u00e9poca, tendo como expoente Luis Carlos Prestes, e ainda muitos nos tempos atuais, via e v\u00ea o bando de Lampi\u00e3o como guerrilheiros revolucion\u00e1rios enfrentando o Governo em defesa dos sofridos camponeses.<\/h3>\n<h3>Talvez por desconhecimento ou estrat\u00e9gia para refor\u00e7ar suas tropas, os revolucion\u00e1rios tentaram incorporar os cangaceiros \u00e0s suas for\u00e7as. Um grupo isolado chegou a formar um bando, mas fracassou. Dentro do contexto do Nordeste daquela \u00e9poca, messi\u00e2nico e religioso, era dif\u00edcil introduzir uma doutrina revolucion\u00e1ria socialista. \u00a0Padre C\u00edcero, o senhor do sert\u00e3o, era inimigo n\u00famero um de Prestes que poderia ter sucesso se os cangaceiros o seguissem.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Em 1926, durante sua passagem pelo Nordeste, a Coluna Prestes \u201cpaquerou\u201d o \u201crei do canga\u00e7o\u201d v\u00e1rias vezes com seus bilhetes para que ele se engajasse \u00e0s suas causas, considerando que Lampi\u00e3o tamb\u00e9m era um guerrilheiro revolucion\u00e1rio e podia derrubar o poder.<\/h3>\n<h3>At\u00e9 pelo seu baixo n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o, o bandoleiro n\u00e3o tinha ideia dessa ess\u00eancia ideol\u00f3gica pol\u00edtica de Carlos Prestes. Ele foi sendo empurrado pela viol\u00eancia nordestina. Tornou-se cangaceiro cruel n\u00e3o para tirar a pobreza da mis\u00e9ria em que vivia. N\u00e3o tinha ideais socialistas e usou toda sua for\u00e7a para extorquir pol\u00edticos e grandes propriet\u00e1rios, inclusive do com\u00e9rcio.<\/h3>\n<h3>Ant\u00f4nio Silvino, por exemplo, foi o \u00fanico cangaceiro a atacar os senhores de engenho do litoral nordestino. Todos eles fizeram suas fortunas que depois ca\u00edram nas m\u00e3os dos soldados e oficiais corruptos. Repartiam migalhas com os pobres para obter deles a admira\u00e7\u00e3o como her\u00f3is.<\/h3>\n<h3>Lampi\u00e3o e seu bando, influenciados pelo deputado Floro Bartolomeu e o Padre C\u00edcero, o \u201cPadim Ci\u00e7o\u201d , inimigos ferrenhos dos comunistas, entraram nos \u201cBatalh\u00f5es Patri\u00f3ticos\u201d para combater a Coluna, em troca do t\u00edtulo fajuto de \u201ccapit\u00e3o\u201d e dos armamentos.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Quando a Coluna Prestes se debandou para a Bol\u00edvia e Prestes fugiu para Moscou, na R\u00fassia, ele passou a ideia aos bolchevistas de que Lampi\u00e3o e seus cangaceiros poderiam ajudar a fazer a revolu\u00e7\u00e3o no Brasil pela for\u00e7a que exerciam na regi\u00e3o e esta ideia perdurou at\u00e9 a Intentona Comunista de 1935.<\/h3>\n<h3>\u00a0 As cabe\u00e7as decapitadas de Lampi\u00e3o, Maria Bonita e muitos de seus cabras, mortos no combate de Angico, em 1938, ficaram por um tempo em Macei\u00f3 e depois foram transferidas para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Em 1959, conforme assinala a jornalista e escritora Adriana Negreiros em sua obra \u201cMaria Bonita\u201d, os jornais dos Di\u00e1rios Associados promoveram uma campanha pelo sepultamento das cabe\u00e7as, somente ocorrido em 1969.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Essa campanha contou com figuras ilustres da esquerda, a exemplo do deputado estadual Francisco Juli\u00e3o, de Pernambuco, l\u00edder das Ligas Camponesas, movimento em prol da reforma agr\u00e1ria que nunca aconteceu no Brasil.<\/h3>\n<h3>\u00a0Chocado com o que vira em Salvador, em sua visita ao Museu Antropol\u00f3gico Est\u00e1cio Lima, o deputado Juli\u00e3o defendeu o enterro das cabe\u00e7as, sobretudo pelo respeito que lhe inspirava a figura hist\u00f3rica de Lampi\u00e3o, para ele, o primeiro homem do Nordeste, oprimido pela injusti\u00e7a dos poderosos a batalhar contra o latif\u00fandio e a arbitrariedade. Em sua opini\u00e3o, o cangaceiro chefe foi s\u00edmbolo de resist\u00eancia pol\u00edtica.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Interessante que o grande historiador ingl\u00eas (nasceu em Alexandria, no Egito e viveu na \u00c1ustria e Alemanha) Eric Hobsbawm (1917-2012), marxista convicto, em seus escritos, fazia esta mesma leitura em rela\u00e7\u00e3o a Lampi\u00e3o e outros bandoleiros famosos que agiram em outros pa\u00edses. Hobsbawm os inclu\u00eda na lista de revolucion\u00e1rios que se levantaram e protestaram contra as injusti\u00e7as do sistema capitalista.<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 A mis\u00e9ria e as injusti\u00e7as sociais no Nordeste, a vingan\u00e7a entre fam\u00edlias, o poder dos latifundi\u00e1rios, o dom\u00ednio dos chefes pol\u00edticos e as secas foram os principais fatores que deram origem \u00e0 viol\u00eancia e ao canga\u00e7o. Afinal, o homem \u00e9 produto do meio. 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