{"id":12347,"date":"2026-09-02T22:17:52","date_gmt":"2026-09-03T01:17:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12347"},"modified":"2026-09-02T22:18:03","modified_gmt":"2026-09-03T01:18:03","slug":"o-cangaco-a-acao-da-policia-e-os-crimes-organizados-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/09\/02\/o-cangaco-a-acao-da-policia-e-os-crimes-organizados-no-brasil\/","title":{"rendered":"O CANGA\u00c7O, A A\u00c7\u00c3O DA POL\u00cdCIA E OS CRIMES ORGANIZADOS NO BRASIL"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0 O modus operandi \u00e9 praticamente o mesmo. At\u00e9 parece que os comandos dos crimes organizados, as mil\u00edcias e os narcotraficantes dos centros urbanos do Brasil de hoje aprenderam na mesma cartilha do canga\u00e7o nordestino de h\u00e1 cem anos, profissionalizado por Lampi\u00e3o.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Dentro desse contexto, a pol\u00edcia dos tempos atuais (n\u00e3o atingindo todos) n\u00e3o difere muito das tropas que combatiam o canga\u00e7o em termos de brutalidades, matan\u00e7as e viol\u00eancias. Os sertanejos tinham mais medo daqueles soldados do que dos cangaceiros.<\/h3>\n<h3>\u00a0 O conceito hoje do cidad\u00e3o brasileiro entre bandido e pol\u00edcia, mudou pouca coisa. Os pobres, os negros e exclu\u00eddos em geral continuam sendo massacrados em seus direitos, e a Justi\u00e7a normalmente est\u00e1 do lado do rico e do poderoso. Essas categorias desassistidas ficam entre a cruz e a espada.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 As origens dessa viol\u00eancia e barb\u00e1rie tamb\u00e9m se repetem. Nos s\u00e9culos passados, at\u00e9 meados dos anos 1900, o territ\u00f3rio do Nordeste viveu completamente isolado do Estado, sob o comando dos coron\u00e9is, dos grandes propriet\u00e1rios de terras, dos chefes pol\u00edticos corruptos. Reinavam as injusti\u00e7as sociais.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Nos \u00faltimos cem anos ou mais, os morros foram sendo invadidos pela pobreza miser\u00e1vel, inclusive de retirantes nordestinos, sem nenhum amparo e presen\u00e7a do Estado. O canga\u00e7o nordestino se tornou num canga\u00e7o urbano. Os bandoleiros cangaceiros de ontem s\u00e3o os bandidos criminosos de hoje que deixam a popula\u00e7\u00e3o entre a cruz e a espada, como vivia o sofrido nordestino.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Os personagens s\u00f3 trocaram de pastos; os governantes por anos cruzaram os bra\u00e7os; o banditismo mudou de lugar; parte da pol\u00edcia faz papel de coiteiros; pol\u00edticos se envolvem com as m\u00e1fias; a injusti\u00e7a social pouco mudou; os lampi\u00f5es comandam os crimes organizados; o cidad\u00e3o \u00e9 obrigado a pagar suas taxas de prote\u00e7\u00e3o; delator \u00e9 morto barbaramente; e os subgrupos seguem as ordens dos chef\u00f5es.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 O nordestino daqueles tempos, por mais de 50 anos, sofria muito mais nas m\u00e3os dos bandoleiros e policiais do que atualmente nas favelas. Viviam acossados por todos os lados e ainda tinham que enfrentar as secas inclementes que mataram milhares de pessoas de fome e doen\u00e7as.<\/h3>\n<h3>As mulheres eram as mais violentadas, discriminadas, presas pelo pai carrasco, estupradas ainda meninas de onze e doze anos e centenas obrigadas a seguir o canga\u00e7o. Estudar as quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais do Nordeste \u00e9 se aprofundar no mart\u00edrio daquelas mulheres, muitas ferradas com ferro em brasa, arrastadas pelos cabelos caatinga a dentro e mortas a pauladas, pior que animais selvagens.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0 Nos anos 30, Lampi\u00e3o dividiu seu bando em subgrupos (Corisco, Virginio, Z\u00e9 Baiano, Labareda, Z\u00e9 Sereno e cada um dominava uma regi\u00e3o, como acontece hoje nas grandes cidades. As arrecada\u00e7\u00f5es das extors\u00f5es contra os sertanejos, os saques, os sequestros, os ped\u00e1gios de prote\u00e7\u00e3o eram divididos, sendo que a maior parte ficava com Lampi\u00e3o. Os m\u00e9todos urbanos pouco diferenciavam dos de hoje.<\/h3>\n<h3>Tudo era bem administrado e organizado. Para os denunciantes e delatores, a morte era certa e b\u00e1rbara. Cabe\u00e7as eram decapitadas e degoladas. Os comandos de hoje tamb\u00e9m t\u00eam seus c\u00f3digos e \u201c\u00e9ticas de conduta\u201d. Aqueles que cometem desatinos ou delatam, s\u00e3o queimados em pneus, esquartejados e at\u00e9 enterrados vivos.<\/h3>\n<h3>\u00a0Coincid\u00eancia, ou n\u00e3o, no meado dos anos 30 para e final da d\u00e9cada, Lampi\u00e3o e seus bandos se tornaram personagens internacionais, inclusive cobi\u00e7ados pelo comunismo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica para fazerem parte da Intentona Comunista de 1935, chefiada por Carlos Prestes.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Eram at\u00e9 vistos como guerrilheiros revolucion\u00e1rios do povo campon\u00eas. Na era Vargas, considerados como \u201cextremistas\u201d e terroristas, como Trump classificou os comandos brasileiros. O canga\u00e7o passou a ser uma quest\u00e3o de amea\u00e7a \u00e0 soberania nacional.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 As empresas alem\u00e3s Bayer e Zeiss (Alba Filme-Fortaleza) financiaram as filmagens de um document\u00e1rio sobre suas a\u00e7\u00f5es criminosas, feitas pelo s\u00edrio-liban\u00eas Benjamin Abrah\u00e3o (1936). Contava at\u00e9 com a simpatia dos nazistas de Adolf Hitler. O Governo Get\u00falio Vargas estava mais preocupado em combater os comunistas do que as atrocidades dos cangaceiros.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Quanto ao fornecimento de armas e muni\u00e7\u00f5es para os cangaceiros, a pr\u00e1tica era quase semelhante. Al\u00e9m dos coron\u00e9is, fazendeiros, pol\u00edticos e comerciantes que eram protegidos, o pr\u00f3prio ex\u00e9rcito e oficiais da pol\u00edcia abasteciam Lampi\u00e3o com modernos equipamentos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Para disfar\u00e7ar, os armamentos, muitos contrabandeados, eram transportados em cargas de farinha e outras mercadorias que iam para as feiras. At\u00e9 meados dos anos 30, os cangaceiros tinham armas sofisticadas fabricadas na Alemanha, na B\u00e9lgica e Estados Unidos, enquanto as volantes, chamadas de \u201cmacacos\u201d usavam velhos trabucos do in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Com sua estrat\u00e9gia militar, sua intelig\u00eancia, ast\u00facia, esperteza e como bom pol\u00edtico nos relacionamentos com autoridades municipais e estatais, exemplo do compadrio com o governador de Sergipe, Eronides de Carvalho, eleito em 1935, Lampi\u00e3o seria hoje o chefe mais famoso de qualquer cartel ou organiza\u00e7\u00e3o criminosa. Naquela \u00e9poca, ele j\u00e1 era reconhecido internacionalmente como tal, como o bandoleiro mais famoso da Am\u00e9rica Latina.<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 O modus operandi \u00e9 praticamente o mesmo. 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