{"id":12340,"date":"2026-08-29T00:03:53","date_gmt":"2026-08-29T03:03:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12340"},"modified":"2026-08-29T00:06:00","modified_gmt":"2026-08-29T03:06:00","slug":"a-seca-de-1932-e-o-cangaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/08\/29\/a-seca-de-1932-e-o-cangaco\/","title":{"rendered":"A SECA DE 1932 E O CANGA\u00c7O"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0\u00a0 Sempre tenho dito e repito que o Nordeste precisa ser mais estudado e lido, principalmente pelos nordestinos. Na hist\u00f3ria do Brasil, n\u00e3o existiu povo que mais sofreu e foi mais relegado ao isolamento e \u00e0 pr\u00f3pria sorte, desde os tempos coloniais.<\/h3>\n<h3>\u00a0Muitos autores escritores, estudiosos do assunto, economistas renomados e acad\u00eamicos em geral se aprofundaram nesta quest\u00e3o. A literatura \u00e9 vasta e nela est\u00e1 contida cenas de horrores, massacres, barbaridades, matan\u00e7as indiscriminadas, injusti\u00e7as sociais, sem contar as secas e o canga\u00e7o que deixaram um rastro de destrui\u00e7\u00e3o.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 A seca de 1877\/79 foi a mais cruel e exterminou milhares de nordestinos, que maltrapilhos, quase nus, tombaram nas estradas e morreram de fome e sede. Outras vieram, como a de 1932, que tamb\u00e9m deixou um rastro de destrui\u00e7\u00e3o, ao lado do banditismo do canga\u00e7o que n\u00e3o dava tr\u00e9gua aos sertanejos.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Em seu livro \u201cMaria Bonita-sexo, viol\u00eancia e mulheres no canga\u00e7o\u201d, a autora Adriana Negreiros mostra esta face cadav\u00e9rica da seca que at\u00e9 os cangaceiros precisavam lidar com este fen\u00f4meno, embora contassem com a conjuntura pol\u00edtica a seu favor.<\/h3>\n<h3>As mulheres (estupros), os idosos e as crian\u00e7as foram os que mais sofreram com as viol\u00eancias das secas e do canga\u00e7o. Sobre a de 32, Adriana cita que os bois estavam morrendo t\u00e3o esqu\u00e1lidos que os urubus s\u00f3 se serviam de seus intestinos.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Nas esta\u00e7\u00f5es ferrovi\u00e1rias, retirantes saqueavam trens que transportavam fardos de charques, na tentativa desesperada de conseguir algum alimento. Tropas tinham que intervir, cometendo todo tipo de espancamentos e torturas.<\/h3>\n<h3>\u00a0 \u201cPelas estradas, fam\u00edlias que abandonavam suas pequenas propriedades de solo rachado, largavam corpos de parentes pr\u00f3ximos, sucumbidos \u00e0 fome e \u00e0 sede durante as travessias. Pequenas cidades eram tomadas pelos sertanejos com crian\u00e7as de pernas t\u00e3o finas e barrigas t\u00e3o inchadas que mal conseguiam caminhar\u201d.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Os bandoleiros passavam dias sem beber \u00e1gua. Lampi\u00e3o, apesar da sua resist\u00eancia f\u00edsica fora do comum, por vezes se deitava no Raso da Catarina, clamando aos c\u00e9us por uma gota d\u00b4\u00e1gua. Quando existia alguma fonte dispon\u00edvel, ela estava contaminada por besouros, larvas de insetos e fezes de cabras.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Na Bahia, a seca de 32 se tornou ainda mais mort\u00edfera por causa de um plano mirabolante e maluco de combate ao bando de Lampi\u00e3o, criado pelo capit\u00e3o Jo\u00e3o Miguel. Sua ideia desastrada foi a de evacuar a caatinga, visando afastar cangaceiros de seus coitos.<\/h3>\n<h3>\u00a0 O interventor Juracy Magalh\u00e3es, nomeado por Get\u00falio Vargas, decidiu aderir \u00e0 iniciativa do militar. O resultado foi que as cidades baianas, al\u00e9m der castigadas pela seca, passaram a receber levas e mais levas de sertanejos famintos.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Contam que cerca de 12 mil sertanejos da zona rural foram obrigados a deixar suas casas e a viver como mendigos nas pontas das ruas, formando batalh\u00f5es de famintos. Centenas come\u00e7aram a morar debaixo de \u00e1rvores e nos adros das igrejas, vivendo de pequenas esmolas.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Os cangaceiros foram os que menos sentiram o rigor da seca. Eles resolveram passar boas temporadas em Sergipe onde desfrutavam de uma grande rede de coiteiros que inclu\u00eda duas grandes fam\u00edlias ricas, os Brito e os Carvalho.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Enquanto sertanejos morriam de fome, mulheres eram violentadas e crian\u00e7as vendidas como mercadorias, os bandos de Lampi\u00e3o recebiam boa comidas, inclusive queijo do reino e bebidas importadas.<\/h3>\n<h3>Eles n\u00e3o paravam de cometer suas atrocidades, principalmente contra aqueles que os denunciavam \u00e0 pol\u00edcia, como ocorreu em Uau\u00e1 e Jeremoabo, onde o senhor Manuel Salinas e seus tr\u00eas filhos foram barbaramente mortos. Salinas teve o sacrif\u00edcio maior. Lampi\u00e3o cortou suas orelhas e furou seus olhos; arrancou seus test\u00edculos; e extirpou seus l\u00e1bios. N\u00e3o contente, ordenou aos seus cabras que quebrassem sua dentadura a coronhadas.<\/h3>\n<h3>O velho foi colocado no lombo de um cavalo e levado at\u00e9 uma propriedade vizinha onde morava Ulisses, seu filho mais velho, executado com dois tiros diante da esposa e das crian\u00e7as.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Conforme se espalhou pelo sert\u00e3o, al\u00e9m de morto a golpes de punhal, o cangaceiro Quixabeira teria aberto o peito de Salinas, arrancado seu cora\u00e7\u00e3o e arremessado o \u00f3rg\u00e3o no meio do mato.<\/h3>\n<h3>Existem relatos de sertanejos enterrados vivos e criancinhas lan\u00e7adas ao fogo para punir pais delatores. As volantes tamb\u00e9m deixavam suas manchas de sangue e brutalidades por onde passavam. O sertanejo ficava entre a cruz e a espada.<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0 Sempre tenho dito e repito que o Nordeste precisa ser mais estudado e lido, principalmente pelos nordestinos. 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