{"id":12302,"date":"2026-08-21T22:46:57","date_gmt":"2026-08-22T01:46:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12302"},"modified":"2026-08-21T22:47:12","modified_gmt":"2026-08-22T01:47:12","slug":"o-estupro-de-mulheres-e-meninas-nos-tempos-do-cangaco-nordestino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/08\/21\/o-estupro-de-mulheres-e-meninas-nos-tempos-do-cangaco-nordestino\/","title":{"rendered":"O ESTUPRO DE MULHERES E MENINAS NOS TEMPOS DO CANGA\u00c7O NORDESTINO"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0\u00a0 O flagelo do canga\u00e7o n\u00e3o atingiu apenas os homens, muitos deles mortos de forma cruel e b\u00e1rbaro, tendo seus corpos esquartejados e cabe\u00e7as decapitadas, A viol\u00eancia era de lado a lado entre cangaceiros e as volantes, chamadas de \u201cmacacos\u201d.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Em cenas chocantes e repugnantes, centenas de mulheres nordestinas sertanejas do campo, dos vilarejos e pequenas cidades, principalmente meninas a partir dos 12 anos, foram estupradas, surradas e viviam diariamente amedrontadas ao ponto de se refugiarem nas caatingas agrestes e espinhosas.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio dos anos 1900 foram os mais violentos, e o Estado nada fez para proteger essas mulheres. Parece\u00a0\u00a0 que a hist\u00f3ria apagou de suas p\u00e1ginas esse fen\u00f4meno social macabro que ainda teve como causa as secas, quando mulheres comercializavam seus corpos e crian\u00e7as eram vendidas para n\u00e3o morrerem de fome.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Um dos casos mais traum\u00e1ticos, superado pela for\u00e7a bruta e carrasca do sert\u00e3o daquela \u00e9poca, coisa que intriga at\u00e9 a psiquiatria, foi o de Dad\u00e1, mulher do cangaceiro Corisco (Cristino Gomes da Silva), o Diabo Louro.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Menina de doze anos, da regi\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio da Gl\u00f3ria (Bahia), que ainda brincava de boneca, foi estuprada animalescamente por ele repetidas vezes, ao ponto de deixar sua vagina em carne viva jorrando sangue. O pai teve de entregar a menina, sen\u00e3o seria morto por Corisco.<\/h3>\n<h3>\u00a0 O relato nojento foi feito pela escritora Adriana Negreiros em sua obra \u201cMaria Bonita \u2013 sexo, viol\u00eancia e mulheres no canga\u00e7o\u201d. A Maria Gomes de Oliveira, ou Maria de D\u00e9a, assim conhecida por causa da sua m\u00e3e, n\u00e3o chegou a ser estuprada porque j\u00e1 tinha um marido e acompanhou Lampi\u00e3o por vontade pr\u00f3pria.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Na verdade, o feminismo come\u00e7ou a brotar de dentro das mulheres a partir dos anos 20, embora contestado e amorda\u00e7ado, especialmente no Nordeste arcaico cangaceiro. Nas p\u00e1ginas dos jornais, o assunto suscitava an\u00e1lise de articulistas como a de que o feminismo estaria se tornando uma praga terr\u00edvel, entrando em searas onde jamais deveria penetrar.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Mesmo diante das barbaridades dos cangaceiros e das volantes, onde mulheres e meninas eram violentadas porque usavam cabelos curtos e vestidos at\u00e9 o joelho, em 1927, a professora Celina Guimar\u00e3es Viana foi a primeira mulher brasileira a se alistar para uma vota\u00e7\u00e3o. O fato ocorreu em Mossor\u00f3 (Rio Grande do Norte).<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 O pioneirismo nasceu no Rio Grande do Norte quando elegeu, em 1928, a primeira prefeita da Am\u00e9rica Latina. Luiza Alzira Soriano, de 32 anos, ganhou a disputa para prefeita de Lajes, fato noticiado pelo The New York Times. Em 1920 as americanas haviam conquistado o pleno direito de ir \u00e0s urnas. No Brasil, somente em 1932.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Quanto a quest\u00e3o do canga\u00e7o, Maria Bonita, companheira de Lampi\u00e3o, foi a primeira mulher a entrar no grupo, em 1930. Outras logo vieram, como Maria Miguel dos Santos, a Mariquinha, sua ex-cunhada, que ganhou a vida em Juazeiro do Norte como rameira e passou a ser companheira de \u00c2ngelo Roque, o temido Labareda.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Mesmo com Maria Bonita, Lampi\u00e3o n\u00e3o deixava de satisfazer seu desejo intenso de cobrir uma f\u00eamea, como se referia ao ato de estuprar uma mulher, enquanto ela chorava. Foi um tempo de terror para as mulheres que se escondiam no mato quando se noticiava a chegada de volantes ou cangaceiros nas vilas e povoados.<\/h3>\n<h3>Em Mirandela (Bahia), o \u201crei do canga\u00e7o\u201d ficou indignado porque um homem de oitenta anos estava casado com uma mocinha. Deu uma surra no velho e convocou seus homens a aplicar \u201cum gera\u201d &#8211; estupro coletivo no sert\u00e3o \u2013 na jovem. Por ser chefe, n\u00e3o entrou na fila.<\/h3>\n<h3>\u00a0 No sert\u00e3o agreste, mulher que dava muitas risadas e era alegre faceira, era malvista e chamada de \u201csendeiras\u201d. No entendimento dos cangaceiros, conforme ressalta Adriana em seu livro, o estupro ocorria porque as mulheres queriam. A terceira esposa do tio de Labareda, por n\u00e3o oferecer resist\u00eancia ao \u201cgera\u201d, foi tida por sem-vergonha.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Interessante que entre eles, havia at\u00e9 uma \u00e9tica do estupro. Mulheres e filhas de coiteiros n\u00e3o podiam sofrer \u201cum gera\u201d. Em 1930, numa festa de S\u00e3o Jo\u00e3o, em Santo Ant\u00f4nio da Gl\u00f3ria, uma menina de 15 anos, filha do protetor do \u201ccapit\u00e3o\u201d, foi deflorada pelo cabra Sabi\u00e1. Pela regra, foi imediatamente liquidado.<\/h3>\n<h3>\u00a0 As mulheres e meninas viviam entre a cruz e a espada. As volantes tamb\u00e9m praticavam o estupro. Foi o que fizeram com a filha de dona Elvira que dava asilo aos cangaceiros no interior de Pernambuco.<\/h3>\n<h3>Numa busca em sua casa, os \u201cmacacos\u201d encontraram a menina sozinha. O cabo Rosano decidiu estuprar a garota e depois oferec\u00ea-la aos colegas. A menina tinha 13 anos e ficou desfalecida. Em estado lastim\u00e1vel, o soldado achou por bem mat\u00e1-la.<\/h3>\n<h3>\u00a0 A jovem sertaneja deflorada n\u00e3o conseguia mais se casar. Um livro popular sobre as nubentes da \u00e9poca, intitulado \u201cO que uma jovem esposa deve saber\u201d, da escritora norte-americana Emma F.A. Drake, publicado no Brasil, em 1932, definia a mulher rec\u00e9m-casada como assustada, t\u00edmida, cheia de um vago temor no que se referia aos mist\u00e9rios do matrim\u00f4nio.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Bem, depois de Maria Bonita, tida como debochada, risada de rapariga (mulher da vida) e Mariquinha, outras entraram para o canga\u00e7o, como Ant\u00f4nia Pereira da Silva que se juntou ao Gato que gostou de outra mulher de nome Inacinha. Quando o cangaceiro se engra\u00e7ava com uma mulher, ela n\u00e3o tinha outra op\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser acompanh\u00e1-lo ou morrer.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 L\u00eddia, a morena cabrocha mais bela e que chegava a usar vestidos folgados mostrando os peitos, foi companheira do depravado Z\u00e9 Bahiano, o ferrador de mulheres, conhecido como o Pantera Negro do Sert\u00e3o. Por ela ter se agarrado com o cabra Bem-te-Vi, foi esmagada e morta barbaramente a pauladas.<\/h3>\n<h3>\u00a0Na cidade de Iti\u00faba, pr\u00f3xima de Senhor do Bonfim, o bando de Lampi\u00e3o usou chicotes e palmat\u00f3rias para violentar mulheres jovens que seguiam as tend\u00eancias da moda e cortavam o cabelo a \u201cla gar\u00e7onne\u201d (curtinho), como a da atriz Louise Broocks, musa do cinema mudo. Foram submetidas a uma sess\u00e3o de chicotadas, conforme noticiou o jornal \u201cA Noite\u201d (Rio de Janeiro).<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Naquele tempo, as mulheres se reuniam para costurar, cerzir, alinhavar e tricotar enquanto batiam papos e falavam das fofocas. No entanto, era prudente certa modera\u00e7\u00e3o no ato do of\u00edcio.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Segundo tese de doutorado do m\u00e9dico Ant\u00f4nio dos Santos Coragem, da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, (1919), pedalar as m\u00e1quinas produzia excita\u00e7\u00e3o vaginal. Para evitar uma epidemia de lux\u00faria, recomendava-se o uso das possantes apenas uma vez por semana.<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0 O flagelo do canga\u00e7o n\u00e3o atingiu apenas os homens, muitos deles mortos de forma cruel e b\u00e1rbaro, tendo seus corpos esquartejados e cabe\u00e7as decapitadas, A viol\u00eancia era de lado a lado entre cangaceiros e as volantes, chamadas de \u201cmacacos\u201d. \u00a0\u00a0 Em cenas chocantes e repugnantes, centenas de mulheres nordestinas sertanejas do campo, dos vilarejos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12302"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12302"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12302\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12303,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12302\/revisions\/12303"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12302"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12302"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12302"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}