{"id":12169,"date":"2026-07-17T22:57:54","date_gmt":"2026-07-18T01:57:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12169"},"modified":"2026-07-17T23:00:57","modified_gmt":"2026-07-18T02:00:57","slug":"as-crueldades-de-lampiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/07\/17\/as-crueldades-de-lampiao\/","title":{"rendered":"AS CRUELDADES DE LAMPI\u00c3O"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0\u00a0 Sabemos que os sertanejos, os testemunhos e a imprensa do sert\u00e3o e do litoral daquela \u00e9poca exageravam, mas os fatos de crueldades ocorreram, com requintes de barbaridade animalesca.<\/h3>\n<h3>\u00a0Lampi\u00e3o tinha at\u00e9 seus momentos de generosidade, mas quando se tratava de vingan\u00e7a contra aqueles que o denunciavam, despejava toda sua raiva monstruosa. Houve tempos em que seus bandos deixaram os cabelos crescerem e por onde passavam deixavam um odor desagrad\u00e1vel misturado com perfumes.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Por natureza, o \u201crei do canga\u00e7o\u201d j\u00e1 era violento, por\u00e9m aumentou a partir das persegui\u00e7\u00f5es de Jos\u00e9 Saturnino, da aus\u00eancia da justi\u00e7a e quando teve quase toda sua fam\u00edlia exterminada pelas For\u00e7as das Volantes. Primeiro foi seu irm\u00e3o Livino, em 1926, depois Ezequiel, em 1934, o Ant\u00f4nio, sem contar seu pai Jos\u00e9 Ferreira e sua m\u00e3e por volta 1930.<\/h3>\n<h3>Como os sertanejos em geral, movidos pelas secas inclementes, as injusti\u00e7as sociais, o poderio dos coron\u00e9is, dos chefes pol\u00edticos, pelo atraso e o isolamento total do pa\u00eds, Lampi\u00e3o tinha essa alma \u00e1rida, carrasca, agreste, de casca dura, pedregulhosa e espinhosa como a caatinga e o ch\u00e3o estorricado do Nordeste.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Em seu livro \u201cLampi\u00e3o \u2013 Senhor do Sert\u00e3o\u201d, a autora \u00c9lise Grunspan-Jasmin descreve alguns trechos horr\u00edveis dessa crueldade de Lampi\u00e3o contra seus pr\u00f3prios conterr\u00e2neos, citando, inclusive, cordelistas, jornalistas e escritores, como o Ranulfo Prata que muito fala de seus crimes repugnantes.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Nos combates, talvez uma t\u00e1tica para amedrontar seus inimigos, os cabras e o bando de Lampi\u00e3o gritavam, xingavam e urravam como dem\u00f4nios, ao ponto de soldados das tropas atirarem sem ermo e outros corriam em disparada pelas caatingas e desapareciam.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Quando esteve na Bahia, por exemplo, entre 1928 at\u00e9 meado dos anos 30, Lampi\u00e3o cometeu muitos massacres, alguns deles ficaram marcados na hist\u00f3ria, como a matan\u00e7a de sete soldados em Queimadas, de uma forma cruel.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Muitos artigos e obras escritas insistem no seu desejo de reduzir suas v\u00edtimas \u00e0 animalidade, ferrando o corpo dos vencidos, deixando nele a sua marca. Num cap\u00edtulo da sua obra intitulado \u201cCrime\u201d, o sertanejo Ranulfo enumera algumas perversidades perpetradas por Lampi\u00e3o na Bahia e Sergipe, em cinco anos que os ocupou.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 De acordo com om autor, a singularidade de Lampi\u00e3o exprime pelos supl\u00edcios e sofrimentos f\u00edsicos e morais, sempre atento para inventar novos requintes de crueldade. Ap\u00f3s os saques de casas comerciais, cortava orelhas, castrava, estuprava raparigas adolescentes, contaminando-as do mal ven\u00e9reo e violava mulheres casadas \u00e0 vista dos maridos.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 De certa feita tra\u00e7ou a canivete duas longas e obliquas incis\u00f5es nas costas de uma v\u00edtima que obrigou o paciente a ir para Caldas do Cip\u00f3, onde levou meses \u00e0 espera de uma cicatriza\u00e7\u00e3o custosa de se fazer. Al\u00e9m dele, os sertanejos tamb\u00e9m sofreram nas m\u00e3os das volantes e dos cangaceiros que o precederam.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Ranulfo conta o caso do velho Salinas, pequeno propriet\u00e1rio do S\u00edtio Almacega, situado nos arredores de Jeremoabo, na Bahia. Ele caiu na besteira de informar \u00e0s volantes onde se encontrava Lampi\u00e3o. Sabendo da vingan\u00e7a, Salinas deixou todos seus bens e se escondeu na cidade.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Em maio de 1930, Salinas resolveu voltar para sua casa, mesmo sob advert\u00eancia dos amigos e parentes. Lampi\u00e3o esperou o momento certo e entrou em sua casa. Com ares solenes, lembrou-lhe a perf\u00eddia do seu ato, antes de infligir-lhe o castigo.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Depois, com sangue frio e calculista, amarrou quatro dos seus cinco filhos, bra\u00e7o com bra\u00e7o, perna com perna, abatendo-os com uma bala na cabe\u00e7a, exigindo que o pai visse todo supl\u00edcio. Ap\u00f3s os filhos, Lampi\u00e3o cortou as orelhas de Salinas, arrancou o olho direito (o seu era defeituoso), castrou-o, quebrou seus dentes e ordenou que indicasse o caminho at\u00e9 a casa do seu \u00faltimo filho.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Ap\u00f3s entrar na casa, Lampi\u00e3o abateu seu \u00faltimo filho com uma bala de fuzil. O pai, em seguida, foi liquidado e Lampi\u00e3o abriu seu peito para ver como era o cora\u00e7\u00e3o de um traidor. Depois de tudo, partiu, deixando suas v\u00edtimas sem sepultura.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Para Ranulfo, o cad\u00e1ver de Salinas simboliza o sofrimento vivido todos os dias pelos sertanejos. Esse cad\u00e1ver revela a impot\u00eancia do sertanejo, sempre v\u00edtima da viol\u00eancia que lhe \u00e9 constantemente infligida, corpo machucado, mas tamb\u00e9m corpo exclu\u00eddo do corpo social, corpo esquecido de todos.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Ele diz que sua obra n\u00e3o representa apenas um documento fiel das atrocidades, mas \u00e9 tamb\u00e9m concebida como eco do clamor e do apelo lan\u00e7ados pelas popula\u00e7\u00f5es desditosas, que vivem, escorchadas sob o couro duro de suas alparcatas.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Clamor que deseja ser ouvido pela consci\u00eancia p\u00fablica brasileira e apelo dirigido aos respons\u00e1veis pelos destinos do pa\u00eds. Em minha opini\u00e3o, at\u00e9 hoje, este pa\u00eds dividido, tem uma d\u00edvida alta para com o Nordeste.<\/h3>\n<h3>\u00a0Para Ranulfo, somos mero porta-voz da ang\u00fastia de milhares de seres humildes, dos mais desgra\u00e7ados do pa\u00eds, p\u00e9s-rapados, p\u00e1rias, intoc\u00e1veis, a\u00e7oitados por mil flagelos.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Dizem autores, escritores, jornalistas e historiadores que Lampi\u00e3o, em certos momentos, era dotado de uma for\u00e7a destruidora sobrenatural ou mesmo diab\u00f3lica. O artigo do colunista Humberto de Campos, no Di\u00e1rio de Pernambuco, em junho de 1926, descreve o ataque \u00e0 vila de Cura\u00e7\u00e1, na Bahia.<\/h3>\n<h3>\u00a0 \u00c0 frente de 60 cangaceiros, ele invadiu a vila, estuprou, roubou, depredou, matou, asfixiou e fez jorrar sangue. Quinze homens tombaram. O cora\u00e7\u00e3o de um deles foi arrancado pela garganta e levado como trof\u00e9u entre gritos e urros.<\/h3>\n<h3>\u00a0Num artigo do Di\u00e1rio de Pernambuco, de 5 de agosto de 1938, o ex-cangaceiro Gato Bravo relembra os supl\u00edcios infligidos por Lampi\u00e3o ao velho Jos\u00e9 Vieira, habitante de Serra da Furna, pr\u00f3xima de Santana do Ipanema. Lampi\u00e3o amarrou os test\u00edculos dele numa corda, passando-a numa viga e puxando-a devagarinho.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Outra vez, em Tapera do Padre, segundo Gato Bravo, o seu chefe colocou um homem num balan\u00e7o, rodando at\u00e9 subir muito e deixando voltar, enquanto seu pessoal dava gargalhadas. O infeliz morreu louco, caindo no ch\u00e3o como uma cabra.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Uma terminologia m\u00e9dica definia o drama de que padecia a regi\u00e3o. \u201cO sert\u00e3o, e por extens\u00e3o o Nordeste, \u00e9 visto como uma regi\u00e3o \u201cdoente\u201d do canga\u00e7o\u201d. Em decorr\u00eancia da aus\u00eancia do Estado, a sociedade brasileira constatava que o canga\u00e7o era um mal cr\u00f4nico imposs\u00edvel de ser erradicado.<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0 Sabemos que os sertanejos, os testemunhos e a imprensa do sert\u00e3o e do litoral daquela \u00e9poca exageravam, mas os fatos de crueldades ocorreram, com requintes de barbaridade animalesca. \u00a0Lampi\u00e3o tinha at\u00e9 seus momentos de generosidade, mas quando se tratava de vingan\u00e7a contra aqueles que o denunciavam, despejava toda sua raiva monstruosa. 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