{"id":12167,"date":"2026-07-16T23:52:40","date_gmt":"2026-07-17T02:52:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12167"},"modified":"2026-07-16T23:52:51","modified_gmt":"2026-07-17T02:52:51","slug":"a-vaca-buzina-na-porta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/07\/16\/a-vaca-buzina-na-porta\/","title":{"rendered":"A VACA BUZINA NA PORTA"},"content":{"rendered":"<h3>(Chico Ribeiro Neto)<\/h3>\n<h3>Tem uma vaca que passa na porta do meu pr\u00e9dio todo dia de manh\u00e3 cedo. Seu mugido \u00e9 uma buzina e em vez dos chifres o que h\u00e1 \u00e9 um grosso para-choque de ferro.<\/h3>\n<h3>Outro dia a vaca atrasou. Na hora certa, todo mundo de panela na m\u00e3o, ela n\u00e3o chegava. E olhe que ela \u00e9 quase t\u00e3o pontual quanto a vaca natural, aquela do curral. Tinha furado um pneu e a camionete Fiat demorou para entregar o leite de porta em porta.<\/h3>\n<h3>Em vez do galo tem uma neurotizante sirene de uma constru\u00e7\u00e3o que me acorda \u00e0s 6:45. Se n\u00e3o acordar, \u00e0s 7 ela toca de novo, soltando aquele barulho misto de ambul\u00e2ncia e de f\u00e1brica. Essa segunda sirene \u00e9 como quem diz: &#8220;Voc\u00ea ainda est\u00e1 a\u00ed, na cama?&#8221;<\/h3>\n<h3>Os primeiros ru\u00eddos do dia nem sempre s\u00e3o bem-vindos. O barulhinho das panelas e das x\u00edcaras sendo ajeitadas \u00e9 auspicioso, sinal do caf\u00e9 \u00e0 vista. J\u00e1 as primeiras horas da manh\u00e3 lembram o of\u00edcio, pegar o carro, engarrafar, entrar em sinaleira, sair de sinaleira j\u00e1 com outra buzina atr\u00e1s.<\/h3>\n<h3>Quando se tem um nen\u00e9m, o primeiro choro do dia \u00e9 bom de ser ouvido, faz a gente recuperar uma certa paz, uma ainda confian\u00e7a no mundo.<\/h3>\n<h3>Saindo do sil\u00eancio do sono, retomamos a cidade e todos os seus barulhos, e tem hora que chega a ser assustador.<\/h3>\n<h3>Quando trabalhava no centro da cidade, gostava, \u00e0s vezes, de entrar na Igreja de S\u00e3o Bento para respirar aquele sil\u00eancio, conversar comigo e reingressar na massa que descia a Ladeira trope\u00e7ando em camel\u00f4s e fugindo dos autom\u00f3veis para desembocar na Barroquinha, um verdadeiro fervilhar de vendedores, desocupados, ocupados, passantes, apressados e aposentados.<\/h3>\n<h3>Se fosse fim de tarde, procurava a murada da Pra\u00e7a Castro Alves e, depois de esgueirar-me entre os carros, conquistava finalmente uma ampla olhada sobre o mar, aliviando-me um pouco da cidade que estava \u00e0s costas.<\/h3>\n<h3>Barulho igual a um ferry-boat voltando da ilha, domingo de tarde, \u00e9 dif\u00edcil de achar. Parece que as pessoas acumulam barulho na tranquilidade da ilha e j\u00e1 v\u00eam soltando pelo caminho. O sil\u00eancio parece incomod\u00e1-las, parece ser-lhes insuport\u00e1vel. Quanto mais alto os r\u00e1dios dos carros, melhor. Quem conseguir escapar dos r\u00e1dios dos carros cair\u00e1 junto a um samb\u00e3o. E assim que o ferry-boat atraca, a monumental buzina\u00e7\u00e3o. Depois, em casa, salvo e s\u00e3o.<\/h3>\n<h3>Nossos pobres ouvidos t\u00eam resistido a tanta coisa, s\u00e3o matraqueados di\u00e1ria e insistentemente nessa cidade grande cujo medidor de decib\u00e9is j\u00e1 deve ter quebrado os ponteiros.<\/h3>\n<h3>Voc\u00ea j\u00e1 teve a infeliz ideia de pedir a um motorista de t\u00e1xi pra baixar o r\u00e1dio? O sujeito toma aquilo como o maior desaforo do mundo e alguns chegam at\u00e9 a aumentar mais ainda depois do pedido. Ele se nivela ao barulho, sua frequ\u00eancia \u00e9 l\u00e1 em cima pra conseguir operar no ensurdecedor n\u00edvel de todo tr\u00e2nsito, n\u00edvel onde qualquer tentativa de di\u00e1logo soa mal.<\/h3>\n<h3>Enfim, em casa, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 colocar\u00a0 o headphone e ouvir Vivaldi, alimentando um pouco o sil\u00eancio que vem de dentro.<\/h3>\n<h3>(Cr\u00f4nica publicada no jornal A Tarde em 11\/1\/1989)<\/h3>\n<h3>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em\u00a0<a href=\"http:\/\/leiamaisba.com.br\/\">leiamaisba.com.br<\/a>)<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) Tem uma vaca que passa na porta do meu pr\u00e9dio todo dia de manh\u00e3 cedo. Seu mugido \u00e9 uma buzina e em vez dos chifres o que h\u00e1 \u00e9 um grosso para-choque de ferro. Outro dia a vaca atrasou. Na hora certa, todo mundo de panela na m\u00e3o, ela n\u00e3o chegava. 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