{"id":12033,"date":"2026-06-09T22:24:28","date_gmt":"2026-06-10T01:24:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=12033"},"modified":"2026-06-09T22:38:58","modified_gmt":"2026-06-10T01:38:58","slug":"o-ronco-das-grandes-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/06\/09\/o-ronco-das-grandes-cidades\/","title":{"rendered":"O RONCO DAS GRANDES CIDADES"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0\u00a0\u00a0 Na louca correria do dia a dia dos problemas, at\u00e9 acho que ningu\u00e9m nunca parou num jardim, em um banco de uma pra\u00e7a, para ouvir o ronco ensurdecedor nos centros das grandes cidades ou metr\u00f3poles. Com o tempo, as pessoas v\u00e3o ficando surdas e, de t\u00e3o entorpecidas, n\u00e3o conseguem ouvir nada ao seu redor.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Ao comentar sobre este assunto, um m\u00fasico amigo meu me disse certa vez que harmonizando\u00a0 bem as batidas com os gritos e sussurros de gente conversando nos passeios, o ronco dos motores e as buzinas dos ve\u00edculos, as britadeiras e furadeiras nos asfaltos, as sirenes das ambul\u00e2ncias e dos carros apressados da pol\u00edcia, os sons das propagandas, os an\u00fancios dos ambulantes e os megafones nas portas das lojas dariam para compor uma sinfonia.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 N\u00e3o quis muito questionar porque n\u00e3o sou do ramo, n\u00e3o \u00e9 minha especialidade, mas respondi que ficaria uma sinfonia desafinada, no que ele retrucou afirmando que, com uma letra adaptada ao tema numa boa gravadora, daria uma bela melodia da vida. Acrescentou ainda que a IA faz tudo isso hoje.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0\u00a0 Fico aqui imaginando que um m\u00fasico, ou maestro, poderia juntar todos as batidas desses sons das grandes metr\u00f3poles e fazer a partitura de um concerto. Poderia render um rock, um folk, um ax\u00e9 music tipo \u201cbate estaca\u201d, um country ou at\u00e9 mesmo um samba brasileiro aut\u00eantico. N\u00e3o sei se daria um forr\u00f3, mas tudo dependeria da composi\u00e7\u00e3o.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Pelo menos me livraria daquele trauma quando sou obrigado a sair da minha casa para ir ao centro de Vit\u00f3ria da Conquista resolver \u201cpepinos\u201d, principalmente em reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 tanta preocupa\u00e7\u00e3o que nem consigo dormir direito na v\u00e9spera.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Minha vida foi uma loucura infernal em Salvador, pra l\u00e1 e pra c\u00e1, como um doido para ganhar dinheiro, mas, com o passar do tempo, a idade bateu forte que n\u00e3o suporto mais as grandes cidades. Meu desejo \u00e9 me recolher em meu insignificante canto, isolado de tudo, num buraco qualquer.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 Prefiro o mugido da vaca, o relinchar dos equinos, os uivos dos coiotes, os latidos dos cachorros e raposas, o cantar do galo na madrugada e dos p\u00e1ssaros no campo do que o barulho das grandes cidades. O som dos animais e as cantorias dos adjut\u00f3rios lembram minhas ra\u00edzes tel\u00faricas.<\/h3>\n<h3>\u00a0 \u00a0Como agora quase tudo \u00e9 na base da senha, fico irritado com a zoeira das fofocas e besteir\u00f3is dos compadres e comadres esperando pacientemente seus momentos de serem chamados. Pior ainda \u00e9 ter que ficar de olho no painel, com a voz de uma mulher, ou sei l\u00e1 quem, avisando senha PNH 124, mesa 13.<\/h3>\n<h3>Para ter menor impacto nos meus nervos, que n\u00e3o s\u00e3o mais de a\u00e7os como antes, levo um livro para ler, s\u00f3 que n\u00e3o consigo mais me concentrar. Ou leio ou fico de olho na tela! Deveria ter uma lei aprovada pelo Congresso Nacional, o mais caro do mundo, proibindo a frequ\u00eancia de idosos nesses lugares.<\/h3>\n<h3>\u00a0\u00a0 No entanto, como o Estado \u00e9 masoquista, tirano e maquiav\u00e9lico, quanto mais matar o velho lentamente, melhor, porque \u00e9 menos um custo previdenci\u00e1rio. \u00c9 um al\u00edvio quando cai mais um atestado de \u00f3bito no INSS, mas sempre tem um herdeiro.<\/h3>\n<h3>\u00a0 O plano dessa gente do poder vai nessa dire\u00e7\u00e3o, tendo em vista que as pesquisas d\u00e3o conta que em pouco tempo vamos ter uma popula\u00e7\u00e3o maior de idosos no Brasil. Os caras j\u00e1 est\u00e3o fazendo as contas e apertando o cerco.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Parece que fugi um pouco da quest\u00e3o do ronco das grandes cidades. \u00c9 meu marrento h\u00e1bito de ir alinhavando um assunto com um outro, mas acho at\u00e9 que uma coisa tem a ver com a outra.<\/h3>\n<h3>Bem que os m\u00fasicos do Sarau A Estrada poderiam se reunir para fazer o som, o ronco ou a louca sinfonia dos centros das grandes cidades. Ser\u00e1 que daria uma boa melodia? Poderia at\u00e9 juntar com os sons dos bichos da zona rural.<\/h3>\n<h3>\u00a0 Para fazer um teste, \u00e9 s\u00f3 ficar ali por uns tempos na Pra\u00e7a Bar\u00e3o do Rio Branco, na Nove de Novembro e imedia\u00e7\u00f5es. Eu at\u00e9 me prontificaria contribuir com alguns versinhos, e aqui em nosso meio o que n\u00e3o faltam s\u00e3o poetas e poetisas inspirados.<\/h3>\n<h3>\u00a0 O que acham disso Itamar, Viviane, Luis Alt\u00e9rio, Dal Farias, Carlos Maia, Manno Di Souza, Baducha, Dorinho, J\u00e2nio Arapiranga, Fabr\u00edcio, Nery e, enfim, todos estradeiros da vida? V\u00e3o dizer que estou \u00e9 ficando caduco, lel\u00e9 da cuca!<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0 Na louca correria do dia a dia dos problemas, at\u00e9 acho que ningu\u00e9m nunca parou num jardim, em um banco de uma pra\u00e7a, para ouvir o ronco ensurdecedor nos centros das grandes cidades ou metr\u00f3poles. Com o tempo, as pessoas v\u00e3o ficando surdas e, de t\u00e3o entorpecidas, n\u00e3o conseguem ouvir nada ao seu redor. 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