{"id":11992,"date":"2026-05-29T23:58:57","date_gmt":"2026-05-30T02:58:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11992"},"modified":"2026-05-29T23:59:09","modified_gmt":"2026-05-30T02:59:09","slug":"um-bandido-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/05\/29\/um-bandido-social\/","title":{"rendered":"&#8220;UM BANDIDO SOCIAL?&#8221;"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0<strong> Depois de quase 88 anos de morto, Lampi\u00e3o continua sendo cultuado no Nordeste. Para uns como her\u00f3i, justiceiro e at\u00e9 generoso. Para outros, um bandido sanguin\u00e1rio que se aliou aos poderosos propriet\u00e1rios de terras, os coron\u00e9is e aos chefes pol\u00edticos.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 De qualquer forma, o canga\u00e7o foi uma cria do sistema injusto, sem lei e at\u00e9 mesmo das grandes secas, como a de 1877\/79 que chegou a ceifar a vida de cerca de 300 mil nordestinos. Para historiadores, entre os bandidos sociais, existiram tr\u00eas tipos, o nobre salteador, o chefe de guerrilhas e o vingador.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Em seu \u00faltimo cap\u00edtulo \u201cUm Bandido Social? \u201d, o escritor Billy Jaynes Chandler fecha sua obra \u201cLampi\u00e3o, o Rei dos Cangaceiros\u201d dizendo que \u201cem geral, as autoridades, e a maior parte do povo, sentiam pena deles, ponto de vista este que se originava da ideia de que o canga\u00e7o era o reflexo da ignor\u00e2ncia, pobreza e injusti\u00e7a da sociedade sertaneja: os cangaceiros eram, portanto, criminosos comuns, por\u00e9m, v\u00edtimas das circunst\u00e2ncias\u201d.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Em falando da quest\u00e3o das cabe\u00e7as dos chefes terem sido expostas em museu (Lampi\u00e3o, Maria Bonita e outros), Billy cita que nos Estados Unidos, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1850, uma cabe\u00e7a, que diziam ser do bandido Joaquim Murieta, foi exibida, conservada em u\u00edsque na Calif\u00f3rnia, e sua chegada foi anunciada por uma salva de tiros.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Quanto \u00e0 sua indaga\u00e7\u00e3o no cap\u00edtulo, o escritor destaca a an\u00e1lise feita pelo historiador brit\u00e2nico Eric Hobsbawm que estabeleceu uma teoria para classificar os bandidos segundo suas caracter\u00edsticas e opini\u00e3o que sobre eles tinham as diferentes pessoas. O historiador incluiu Lampi\u00e3o neste estudo, mas s\u00f3 que ele fez sua cr\u00edtica mais baseada nas lendas do que nas realidades.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Chandler se fixa mais nos bandidos vingadores que, de acordo com o autor, se distinguem dos verdadeiros bandidos sociais, devido ao seu uso excessivo de viol\u00eancia. Hobsbawm reconhece que Lampi\u00e3o podia ser terr\u00edvel e, por esta raz\u00e3o, o coloca entre os vingadores. Declara ainda que Lampi\u00e3o n\u00e3o pode se classificar como um verdadeiro bandido social em vista de sua alian\u00e7a com propriet\u00e1rios.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0O brit\u00e2nico chega a afirmar, at\u00e9 de forma contradit\u00f3ria, que o \u201crei do canga\u00e7o\u201d defendia os pobres. Justifica sua viol\u00eancia como involunt\u00e1ria, pois resultava das diversas tens\u00f5es que marcaram a ruptura social entre o Nordeste tradicional e a nova ordem capitalista e, portanto, era inevit\u00e1vel.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Al\u00e9m de Robin Hood (n\u00e3o se sabe se sua exist\u00eancia foi verdadeira), Hobsbawm, no cap\u00edtulo sobre os nobres salteadores, do seu livro banditismo, destaca dois tipos, Juro Janosik, da Eslov\u00e1quia, e Diego Corrientes, da Andaluzia, personagens imprecisos do s\u00e9culo XVIII.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Billy Chandler ressalta que o povo humilde dos sert\u00f5es deu altas notas a Lampi\u00e3o \u2013 embora alguns, de m\u00e1 vontade \u2013 pelo seu sucesso. Segundo Billy, h\u00e1 uma tend\u00eancia entre eles, de esquecer parte do horror que acompanhou sua carreira e lembrarem mais de suas a\u00e7\u00f5es, muitas delas inventadas.\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0Na verdade, Lampi\u00e3o nunca desejou alterar a estrutura b\u00e1sica da sociedade em que viveu. Seus la\u00e7os com ela eram \u00edntimos e profundos, como Hobsbawm reconheceu. O cangaceiro se aproveitou de uma sociedade injusta, para explor\u00e1-la brutalmente.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 O canga\u00e7o teve v\u00e1rias e diferentes origens, umas baseadas na perversidade humana, e outras, nas condi\u00e7\u00f5es sociais extremamente injustas \u2013 completa o autor.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Mesmo assim, foi uma forma de protesto social. H\u00e1 d\u00favidas se essa caracteriza\u00e7\u00e3o de banditismo social pode ser aplicada a Lampi\u00e3o. \u201cA preocupa\u00e7\u00e3o com a opress\u00e3o dos pobres e dos fracos pelos ricos e poderosos nunca despertou seu interesse\u201d.\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Depois de quase 88 anos de morto, Lampi\u00e3o continua sendo cultuado no Nordeste. Para uns como her\u00f3i, justiceiro e at\u00e9 generoso. 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