{"id":11976,"date":"2026-05-25T22:05:35","date_gmt":"2026-05-26T01:05:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11976"},"modified":"2026-05-25T22:05:47","modified_gmt":"2026-05-26T01:05:47","slug":"visoes-de-uma-casa-de-farinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/05\/25\/visoes-de-uma-casa-de-farinha\/","title":{"rendered":"VIS\u00d5ES DE UMA CASA DE FARINHA"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0\u00a0<strong> Quando escolheram o tema \u201cCasa de Farinha\u201d para o pr\u00f3ximo debate do \u201cSarau A Estrada\u201d, marcado para o dia 13\/06, brotou dentro de mim as vis\u00f5es dos tempos de menino. Posso dizer que nasci e me criei dentro de uma casa de farinha, aquela bem tradicional e artesanal do \u201cCaldeir\u00e3ozinho\u201d do sert\u00e3o de Piritiba.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0&#8211; Cumpade, o aviamento mais dif\u00edcil e complicado para se fazer dentro de uma casa de farinha \u00e9 o parafuso. A madeira tem que ser de bara\u00fana tipo rosa leg\u00edtima e n\u00e3o \u00e9 toda \u00e1rvore que serve \u2013 dizia meu pai, que era lavrador, carpinteiro, marceneiro e construtor de curral e casa de farinha.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Com seu fac\u00e3o, machado, espingarda e no bornal carne seca, rapadura, farinha e \u00e1gua, ele se embrenhava numa mata para encontrar uma bara\u00fana de lei. \u00c0s vezes, retornava da sua \u201cca\u00e7ada\u201d ao entardecer e voltava no outro dia. Dizia que o pau tinha que ser bem roli\u00e7o.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Era um ritual demorado e quando encontrava pedia licen\u00e7a ao curupira, o protetor das florestas, para derrub\u00e1-lo. Com o machado, deixava no tamanho certo para esculpir o parafuso com o form\u00e3o, de maneira a encaixar bem na pe\u00e7a de rosca, para apertar a prensa que poderia ser de pau ferro ou pau d\u00b4arco. Na parte inferior, um furo, para realizar o aperto com um porrete resistente. O parafuso tinha que ser bem sebado.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0Os outros equipamentos tamb\u00e9m formavam um conjunto importante para fazer funcionar a casa de farinha. A casa, a mais simples poss\u00edvel, (nada de motor) era no estilo de um galp\u00e3o com telhas de cer\u00e2mica. Os v\u00e3os ficavam abertos.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Em dia de casa de farinha, logo cedo chegavam as raspadeiras com suas facas afiadas nas m\u00e3os para a labuta da raspa. Era a atividade mais divertida, embora cansativa, porque durante a limpeza das mandiocas rolavam cantorias e as fofocas entre as comadres.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u2013 E a\u00ed, comade, Josefa apanhou barriga com um rapaz de S\u00e3o Paulo. Ficou mal falada. O velho era exigente e n\u00e3o gostava muito de raspadeira tagarela e dava pressa ao trabalho.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Logo na entrada, numa parte mais elevada, como se fosse um palanque de adobe, era colocada a roda que poderia ser de cedro com uma abertura em torno dela para encaixar o reio ligado ao ralador de pequenas serras para ralar a mandioca. Com duas pequenas alavancas, a roda era puxada em parceria de dois homens, no compasso da cantoria. O arrasto tinha que ser afinado.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 O ralador, assentado numa mesa e embaixo um coxo para receber a massa da mandioca, era o mais perigoso. Qualquer descuido da mulher poderia ser fatal e ter sua m\u00e3o tragada pelas serras dentadas.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 A raladeira precisava ser experiente, ligeira e atenta. Uma raiz ia empurrando a outra. Depois de toda ralada, a massa ia para o cocho da prensa com uma tampa apertada pelo parafuso at\u00e9 extrair toda \u00e1gua, a chamada manipueira.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Sem o forno a lenha, com pedras sab\u00e3o ou m\u00f3, geralmente constru\u00eddo de barro, com duas ou tr\u00eas bocas, em dire\u00e7\u00e3o ao poente, n\u00e3o havia farinha. Depois de classificada a massa atrav\u00e9s das peneiras, entrava o puxador de rodo, pra l\u00e1 e pra c\u00e1, at\u00e9 a farinha ficar torrada no ponto ideal.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 A farinha do seu Mateus era considerada a melhor de toda regi\u00e3o, bem fina e com bastante tapioca. Ah, n\u00e3o podia tirar muita tapioca para fazer beijus, sen\u00e3o ele esbravejava! Era ranzinza nesse ponto, e ele mesmo fazia quest\u00e3o de cuidar desses detalhes do processo.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Como era ainda pequeno, cinco ou seis anos de idade, minha tarefa era puxar os jumentos com os ca\u00e7u\u00e1s, da casa de farinha at\u00e9 a ro\u00e7a e vice-versa. As pr\u00f3prias mulheres descarregavam e eu n\u00e3o podia demorar no caminho, sen\u00e3o levava um tabefe.\u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0\u00a0 O bom mesmo era quando caia o entardecer, na boca da noite, quando toda aquela trabalheira chegava ao fim com a farinha ensacada nos sacos de 50 quilos. Minha m\u00e3e que tudo fazia, aproveitava as pedras quentes do forno s\u00f3 em brasas para espalhar a beijuzada.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Ai, era s\u00f3 alegria e todos entravam na prosa at\u00e9 altas horas da noite. Era s\u00f3 jogar conversa fora sobre causos e hist\u00f3rias de valent\u00f5es e coron\u00e9is. Ficava assuntando e, mesmo cansado da labuta, n\u00e3o cochilava. Gostava de ouvir aquela gente simples da ro\u00e7a proseando.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Rolavam os pr\u00f3prios causos das casas de farinhas. Muitos diziam que eram mal-assombradas. Como a resid\u00eancia era sempre pr\u00f3xima da casa de farinha, uns contavam que no sil\u00eancio da madrugada ouvia-se falat\u00f3rios, mulher raspando mandioca e at\u00e9 a roda rolar sozinha.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam nada para fazer e ficam a\u00ed contando lorotas. N\u00e3o existem fantasmas! S\u00e3o coisas dessas cabe\u00e7as ocas que ficam inventando essas trabuzanas \u2013 afirmava o meu pai, dizendo que nunca tinha visto nada, mas minha m\u00e3e confirmava que ouvia.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0Adorava ouvir aquelas prosas dos adultos tabar\u00e9us ou matutos, muitas eram lendas e outras verdadeiras. Assim era a vida de um dia de uma casa de farinha. No s\u00e1bado era s\u00f3 levar os produtos para a feira de Piritiba. No domingo era a vez do distrito de Andara\u00ed. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0 Quando escolheram o tema \u201cCasa de Farinha\u201d para o pr\u00f3ximo debate do \u201cSarau A Estrada\u201d, marcado para o dia 13\/06, brotou dentro de mim as vis\u00f5es dos tempos de menino. Posso dizer que nasci e me criei dentro de uma casa de farinha, aquela bem tradicional e artesanal do \u201cCaldeir\u00e3ozinho\u201d do sert\u00e3o de Piritiba. 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