{"id":11956,"date":"2026-05-19T21:55:14","date_gmt":"2026-05-20T00:55:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11956"},"modified":"2026-05-19T22:15:05","modified_gmt":"2026-05-20T01:15:05","slug":"os-ladroes-de-cavalos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/05\/19\/os-ladroes-de-cavalos\/","title":{"rendered":"OS LADR\u00d5ES DE CAVALOS"},"content":{"rendered":"<h3><strong>\u00a0 Esse neg\u00f3cio de beber muita \u00e1gua, bem que a ci\u00eancia \u2013 naquela \u00e9poca n\u00e3o era t\u00e3o evolu\u00edda assim \u2013 poderia ter feito um estudo para saber somo era o intestino dos nordestinos durante as secas mais agudas dos anos 1887\/89, 1913\/14, 1919\/20, 1932\/33 e tantas outras onde n\u00e3o caia um pingo do c\u00e9u, sem contar que n\u00e3o havia comida, a n\u00e3o ser ra\u00edzes dos umbuzeiros e polpas dos mandacarus. \u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 O sertanejo do agreste catingueiro deveria ter uma barriga de pedra, adaptada para resistir a falta de \u00e1gua e alimento. N\u00e3o tinha nem lama nas cacimbas e tanques para ingerir, mas estou aqui para falar mesmo sobre os ladr\u00f5es de cavalos na regi\u00e3o.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00c9 que de tanto ler sobre o Nordeste, me veio esse assunto na \u201ctelha\u201d, aquela de cer\u00e2mica feita do barro verdadeiro da terra que d\u00e1 boa liga, n\u00e3o a de zinco e pl\u00e1stico. As \u201ctelhas\u201d de hoje s\u00e3o mais de materiais sint\u00e9ticos, subst\u00e2ncias que transmitem uma s\u00e9rie de doen\u00e7as, inclusive cancer\u00edgenas.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 No velho Nordeste, ladr\u00e3o de cavalo (jumento, burro, mula), vaca ou bode, era considerado o indiv\u00edduo mais abomin\u00e1vel do que o assassino ou homicida, principalmente quando atuava em leg\u00edtima defesa e por vingan\u00e7a.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Como praticamente n\u00e3o tinha justi\u00e7a numa terra de ningu\u00e9m, o ladr\u00e3o de cavalo era sentenciado \u00e0 morte, sem d\u00f3 e compaix\u00e3o e poderia ser at\u00e9 de forma cruel como nos tempos primitivos. N\u00e3o havia perd\u00e3o e era um crime intoler\u00e1vel no sert\u00e3o.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Os cangaceiros, por exemplo, atiravam em quem os chamassem de ladr\u00f5es de cavalos. Eles diziam que tomavam emprestado para depois devolver os animais. Roubar uma r\u00eas no pasto do outro era uma guerra para o fim do mundo, e muitas brigas entre fam\u00edlias come\u00e7aram assim.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Como no Nordeste, no Velho Oeste norte-americano, durante o s\u00e9culo XIX, conforme relatam os filmes de faroeste, tamb\u00e9m bandido ladr\u00e3o de cavalo tinha que ser imediatamente executado na forca. Era visto como elemento de baixo n\u00edvel, um ser desprez\u00edvel e nojento. Ladr\u00e3o de cavalo era reconhecido de longe at\u00e9 pela sela do animal.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>O cauboy entrava na cidade ou vila, amarrava o cavalo no mour\u00e3o e entrava no salon para tomar um uisque ou jogar um carteado. Algu\u00e9m saia de fininho e ia logo avisar ao cherife que tinha um ladr\u00e3o de cavalo no bar.\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Com o desenvolvimento e a evolu\u00e7\u00e3o do Nordeste, que os tirou do isolamento profundo, essa categoria tornou-se rara, a n\u00e3o ser os intermedi\u00e1rios dos frigor\u00edficos que matam esses equinos para vender suas carnes e couros para a China.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Esses meliantes furtam na calada da noite e ficam impunes. O jumento, por exemplo, s\u00edmbolo da for\u00e7a, da resist\u00eancia e da cultura popular nordestina, \u00e9 uma esp\u00e9cie em extin\u00e7\u00e3o. Os governantes fazem de conta que nada est\u00e1 acontecendo. Fazem vistas grossas.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 &#8211; Fica voc\u00ea a\u00ed falando de ladr\u00f5es de cavalos, coisa do passado, de gente caduca, enquanto a na\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo depenada pelos ladr\u00f5es dos cofres p\u00fablicos, n\u00e3o por gente \u201cp\u00e9 rapada\u201d, mas por poderosas quadrilhas sofisticadas, protegidas por uma rede de advogados e at\u00e9 chefes pol\u00edticos mancomunados.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>&#8211; \u00c9, meu camarada, at\u00e9 que voc\u00ea tem raz\u00e3o e digo mais que esses sujeitos safados nem s\u00e3o t\u00e3o execr\u00e1veis como os antigos ladr\u00f5es de cavalos. Ningu\u00e9m importa mais com seus crimes, de t\u00e3o comum que se tornaram, e milh\u00f5es at\u00e9 votam neles nas elei\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 S\u00f3 para n\u00e3o perder o fio da meada, imaginou se os corruptos de hoje, que deixam milhares famintos, sem educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, assist\u00eancia social e um rastro profundo de desigualdade social fossem tratados como os ladr\u00f5es de cavalos no antigo Nordeste? N\u00e3o ficava um, meu irm\u00e3o. Seriam mortos a pauladas e pedradas.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 &#8211; A\u00ed, meu amigo, se Cristo fosse vivo, poderia intervir e dizer, levanta a primeira pedra quem nunca pecou! A grande maioria dos brasileiros teria que jogar suas pedras fora e dar meia volta de cabe\u00e7a baixa, envergonhados.\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Esse neg\u00f3cio de beber muita \u00e1gua, bem que a ci\u00eancia \u2013 naquela \u00e9poca n\u00e3o era t\u00e3o evolu\u00edda assim \u2013 poderia ter feito um estudo para saber somo era o intestino dos nordestinos durante as secas mais agudas dos anos 1887\/89, 1913\/14, 1919\/20, 1932\/33 e tantas outras onde n\u00e3o caia um pingo do c\u00e9u, sem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11956"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11956"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11956\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11959,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11956\/revisions\/11959"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}