{"id":11948,"date":"2026-05-15T23:30:13","date_gmt":"2026-05-16T02:30:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11948"},"modified":"2026-05-15T23:34:24","modified_gmt":"2026-05-16T02:34:24","slug":"os-coiteiros-o-cangaco-e-o-sofrimento-dos-sertanejos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/05\/15\/os-coiteiros-o-cangaco-e-o-sofrimento-dos-sertanejos\/","title":{"rendered":"OS COITEIROS, O CANGA\u00c7O E O SOFRIMENTO DOS SERTANEJOS"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0<strong> As d\u00e9cadas de 20 e 30 do s\u00e9culo XX foram os anos mais dif\u00edceis para os sertanejos nordestinos que tinham que conviver com a opress\u00e3o dos coron\u00e9is fazendeiros, dos chefes pol\u00edticos, a persegui\u00e7\u00e3o dos cangaceiros e as secas que retiravam milhares da sua terra natal para outras bandas \u00e0 procura de melhorias para matar a fome.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Com esses flagelos da viol\u00eancia humana e da natureza, os sertanejos ficavam acossados e, sem muitas op\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia, muitos partiam para ser soldados ou coiteiros dos bandos de Lampi\u00e3o, que se tornou conhecido at\u00e9 nos Estados Unidos atrav\u00e9s do jornal The New York Times, que o considerou como o mais famoso bandido da Am\u00e9rica Latina.\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Entre o final dos anos 20 e at\u00e9 meados dos 30, a Bahia foi um dos estados nordestinos mais atingidos por esses fatores, principalmente por parte da seca e do canga\u00e7o quando Lampi\u00e3o aqui chegou de mansinho e falando de paz em 1928. Sem recursos do Estado para combater a trucul\u00eancia dos cangaceiros, os sertanejos passaram a viver numa terra de ningu\u00e9m.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Esse cen\u00e1rio de sofrimentos \u00e9 mostrado pelo autor do livro \u201cLampi\u00e3o, o Rei dos Cangaceiros\u201d, de Billy Jaynes Chandler, principalmente no capitulo \u201cA Campanha e os Coiteiros\u201d.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 A situa\u00e7\u00e3o tornou-se ainda mais cr\u00edtica com a Revolu\u00e7\u00e3o de 30 e prosseguiu nos anos 32\/33 com a Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de S\u00e3o Paulo e quando o Nordeste sofreu uma de suas piores secas da sua hist\u00f3ria. Com estas revolu\u00e7\u00f5es, grande parte do policiamento foi requisitada pelos comandos, deixando vilas, povoados e cidades desprotegidos.\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 A campanha contra o canga\u00e7o na Bahia come\u00e7ou em outubro de 1931, isto depois de Lampi\u00e3o ter praticado muitas invas\u00f5es nas regi\u00f5es de Jeremoabo, Queimadas, Senhor do Bonfim, Jacobina, Morro do Chap\u00e9u, arredores de Juazeiro, Cura\u00e7\u00e1 e vizinhan\u00e7as de Uau\u00e1.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 In\u00edcio de 1932 come\u00e7ou com um desastre, no Raso da Catarina, em Maranduba, sob o comando do tenente Liberato de Carvalho. Nesse combate, cinco soldados morreram e mais de dez ficaram feridos, muitos dos quais vieram a falecer depois.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Durante toda campanha, a quest\u00e3o sempre se esbarrava na falta de recursos, bem como na rede de coiteiros mantidos por Lampi\u00e3o, no tr\u00e1fico de armas e muni\u00e7\u00f5es que envolvia \u201ccoron\u00e9is\u201d e oficiais da pr\u00f3pria pol\u00edcia.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0DOIS TIPOS DE COITEIROS<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Na classifica\u00e7\u00e3o do escritor Billy, havia dois tipos de coiteiros. O primeiro constitu\u00eddo por fazendeiros, negociantes e chefes pol\u00edticos ricos, caso do coronel Jo\u00e3o S\u00e1 (Jeremoabo), que ajudavam Lampi\u00e3o por necessidade, visando proteger suas propriedades e bens. Esse grupo gozava de imunidade na pol\u00edcia e na justi\u00e7a, mesmo depois da Revolu\u00e7\u00e3o de 30.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 O segundo tipo de coiteiros consistia de vaqueiros, moradores, lojistas e comerciantes dos povoados que tinham pouca influ\u00eancia e ficavam entre a cruz e a espada. Esse pessoal sofria extors\u00f5es, torturas e roubos nas m\u00e3os da pol\u00edcia. Nessa encruzilhada, o sertanejo n\u00e3o tinha muita op\u00e7\u00e3o, ou decidia ser coiteiro ou soldado.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Esta segunda classe, composta dos mais pobres, era chamada de \u201ccoiteiros de p\u00e9 no ch\u00e3o\u201d e sofria mais nas m\u00e3os da pol\u00edcia do que nas dos cangaceiros. Estes coiteiros tinham medo dos cangaceiros e eram obrigados a fazer seus servi\u00e7os porque n\u00e3o contavam com a prote\u00e7\u00e3o policial. \u201cUma consequ\u00eancia inevit\u00e1vel dessa situa\u00e7\u00e3o, era a onda de viol\u00eancia que muitas volantes deixavam em sua passagem\u201d \u2013 relata o escritor.\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Os abusos da pol\u00edcia eram constantemente noticiados na \u00e9poca pelos jornais nordestinos e at\u00e9 do Rio de Janeiro. O sert\u00e3o se transformou num quadro de horror com espancamentos e roubos de animais pela pol\u00edcia. Enquanto isso, os bandos de Lampi\u00e3o sempre levavam a melhor e depois se recolhiam aos seus esconderijos.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 \u201cPode acreditar que hoje, no sert\u00e3o, j\u00e1 se tem mais alegria quando Lampi\u00e3o chega \u00e0 porta do que a simples not\u00edcia de que as for\u00e7as se aproximam\u201d \u2013 disse um fazendeiro de Sergipe, referindo-se \u00e0 pol\u00edcia da Bahia. \u201cA brutalidade das tropas era atribu\u00edda, sem d\u00favida, \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e raiva, mas \u00e9 evidente que a viol\u00eancia, em muitos casos, era empregada deliberadamente\u201d \u2013 enfatizou o escritor Billy Chandler.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Outro fator que contribuiu para esse quadro de terror da campanha era a pr\u00f3pria natureza dos soldados, quase todos analfabetos e ignorantes, sem contar que seus soldos eram baixos e recebiam com atrasos de meses.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Era necess\u00e1rio escolher um lado ou outro. Muitos se alistavam para ter um emprego, e outros, inclusive criminosos, eram for\u00e7ados para escapar da pena, caso de Z\u00e9 Calu, de \u00c1gua Branca, em Alagoas.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 A for\u00e7a mais temida pelos sertanejos era os chamados \u201cnazarenos\u201d do povoado pernambucano do mesmo nome, uma mistura de soldados, milicianos e volunt\u00e1rios que sempre perseguiram Lampi\u00e3o enquanto vida.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Por sua vez, Lampi\u00e3o tinha seu lado cruel, bondoso e at\u00e9 justiceiro, a depender de quem era seu amigo e atendia seus pedidos, ou seu inimigo que n\u00e3o tinha perd\u00e3o. Se \u00e9 para matar, mata logo, dizia aos seus companheiros e acrescentava que cometia suas atrocidades para ser respeitado.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Grande parte da fama de Lampi\u00e3o foi constru\u00edda pela imprensa, inclusive se tornou c\u00e9lebre no exterior. Como ele tinha v\u00e1rios bandos e amigos fazendeiros, chegou-se ao ponto que muitos sertanejos aliados seus, quando precisavam se locomover de uma regi\u00e3o para outra, carregavam um \u201cpasse\u201d, tipo passaporte, assinado pelo \u201crei do canga\u00e7o\u201d.\u00a0 Quem tinha esse \u201cpasse\u201d n\u00e3o era importunado.\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 As d\u00e9cadas de 20 e 30 do s\u00e9culo XX foram os anos mais dif\u00edceis para os sertanejos nordestinos que tinham que conviver com a opress\u00e3o dos coron\u00e9is fazendeiros, dos chefes pol\u00edticos, a persegui\u00e7\u00e3o dos cangaceiros e as secas que retiravam milhares da sua terra natal para outras bandas \u00e0 procura de melhorias para matar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11948"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11948"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11948\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11951,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11948\/revisions\/11951"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}