{"id":11945,"date":"2026-05-14T22:48:37","date_gmt":"2026-05-15T01:48:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11945"},"modified":"2026-05-14T22:48:48","modified_gmt":"2026-05-15T01:48:48","slug":"obrigado-dona-cleonice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/05\/14\/obrigado-dona-cleonice\/","title":{"rendered":"OBRIGADO, DONA CLEONICE"},"content":{"rendered":"<h3><strong>(Chico Ribeiro Neto)<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Cleonice ainda brincava de boneca quando casou com Waldemar aos 16 anos. Teve quatro filhos: Luiz, Jos\u00e9 Carlos, Cleomar e eu.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Nasci em Ipia\u00fa (BA) em 1948. A fam\u00edlia veio de l\u00e1 para Salvador uns 6 a 7 anos depois.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Waldemar e Cleonice arrendaram uma pens\u00e3o, um velho casar\u00e3o na Avenida Sete de Setembro, 239, defronte ao Col\u00e9gio das Merc\u00eas. Hoje s\u00f3 resta a fachada do velho casar\u00e3o.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Depois, Waldemar labutou com armaz\u00e9m na Rua da Imperatriz, na Cidade Baixa, onde tamb\u00e9m moramos. Cleonice voltou a arrendar um pensionato num casar\u00e3o da Rua Gabriel Soares, 33 (Ladeira dos Aflitos) por volta de 1958, enquanto Waldemar levava coco seco de caminh\u00e3o para vender em S\u00e3o Paulo, retornando com uma carga de confec\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Dona Cleonice tomava conta da pens\u00e3o, que tinha uns 25 h\u00f3spedes, com muita energia. Tinha um empregado que cuidava da limpeza e fazia as compras di\u00e1rias (n\u00e3o havia freezer e as geladeiras eram pequenas) na feira do Largo 2 de Julho. Eram 5 quilos de carne por dia. Trabalhavam ainda uma cozinheira e uma copeira.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Numa luta de 10 anos \u00e0 frente do 33 Cleonice enfrentou de tudo. Desapartou uma briga de espadins entre dois universit\u00e1rios concluintes do curso do Centro de Prepara\u00e7\u00e3o de Oficiais da Reserva (CPOR), do Ex\u00e9rcito. Eles iam se formar no dia seguinte e levaram os espadins para a pens\u00e3o, onde come\u00e7ou uma briga.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Teve um h\u00f3spede que fugiu de madrugada pela janela do primeiro andar do casar\u00e3o, usando uma \u201cteresa\u201d, corda feita com len\u00e7\u00f3is, e deixando tr\u00eas meses sem pagar e uma mala cheia de roupa velha.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Depois de velha, Cleonice costumava dizer na minha presen\u00e7a: \u201cChico ficou assim perdido porque n\u00e3o tive tempo de tomar conta dele\u201d. Ela sempre achou tempo para cuidar da minha asma e das coceiras.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Praia do Unh\u00e3o, s\u00f3 depois de terminar o dever. Uma vez fui pescar nas pedras do Unh\u00e3o e perdi o hor\u00e1rio. Quando deu uma da tarde, Cleonice desceu a encosta do Unh\u00e3o e come\u00e7ou a me gritar. Ela dobrou meu dedo mindinho e fomos assim at\u00e9 em casa.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Costumava dizer: \u201cChiquinho foi o que menos apanhou l\u00e1 em casa\u201d.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>J\u00e1 vi\u00fava e mais velha, dona Cleonice foi morar em Aracaju junto aos filhos Luiz. Z\u00e9 Carlos e Cleomar. Morreu em Aracaju com 86 anos.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Em Salvador, onde trabalhava em dois lugares, sem tempo pra nada, fiquei\u00a0 uma vez uns 15 dias sem ligar pra ela. \u00a0A\u00ed ela me liga:<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u201cComo vai voc\u00ea? T\u00e1 Tudo bem?\u201d<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u201cTudo bem, velha\u201d.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 nem gripado?\u201d<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Ela sentia saudades de Salvador, mas costumava dizer: \u201cN\u00e3o sei por que em Salvador tem tanta lavagem e a cidade s\u00f3 anda fedendo!\u201d<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Gostava de citar alguns ditados populares: \u201c\u00c1gua e conselho s\u00f3 se d\u00e1 a quem pede\u201d. Quando via algu\u00e9m que era pobre e ficou rico e metido a besta, dizia: \u201cQuando n\u00e3o chovia onde \u00e9 que nambu bebia?\u201d<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Andava meio ressabiada com a Igreja Cat\u00f3lica, decepcionada com os casos de corrup\u00e7\u00e3o e abuso sexual. Tinha simpatia pelo espiritismo e achava-se vidente. Uma vez, de madrugada, ela estava no interior e acordou com uma dor terr\u00edvel no polegar direito. N\u00e3o havia ferimento algum no dedo. De manh\u00e3, chegou Luiz de viagem, com um panar\u00edcio enorme no polegar direito.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Ela dava a receita de como se livrar de uma visita chata: \u201cVoc\u00ea concorda com tudo que a pessoa fala. Ela se cansa e vai logo embora!\u201d<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Dona Cleonice lia muito depois que deixou a vida de dona de pens\u00e3o. Gostava de ouvir m\u00fasica e ficou encantada com \u201cRoda Viva\u201d, de Chico Buarque, em 1967. Cleomar comprou o disco compacto com \u201cRoda Viva\u201d. Cleonice ouviu tr\u00eas vezes e depois disse a Cleomar: \u201cAgora eu j\u00e1 sei o que \u00e9 curtir\u201d.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u201cTem dias que a gente se sente<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Como quem partiu ou morreu&#8230;\u201d<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Obrigado, velha, agora eu sei o que \u00e9 chorar.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>(Na foto, eu e mam\u00e3e Cleonice).<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/strong><\/h3>\n<h3><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) Cleonice ainda brincava de boneca quando casou com Waldemar aos 16 anos. Teve quatro filhos: Luiz, Jos\u00e9 Carlos, Cleomar e eu. Nasci em Ipia\u00fa (BA) em 1948. A fam\u00edlia veio de l\u00e1 para Salvador uns 6 a 7 anos depois. Waldemar e Cleonice arrendaram uma pens\u00e3o, um velho casar\u00e3o na Avenida Sete [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11945"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11945"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11945\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11946,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11945\/revisions\/11946"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}