{"id":11918,"date":"2026-05-07T23:59:02","date_gmt":"2026-05-08T02:59:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11918"},"modified":"2026-05-07T23:59:12","modified_gmt":"2026-05-08T02:59:12","slug":"a-cabana-do-outro-lado-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/05\/07\/a-cabana-do-outro-lado-do-mundo\/","title":{"rendered":"A CABANA DO OUTRO LADO DO MUNDO"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>Eu tinha uns 9 pra 10 anos. Fazia parte da turma de rua da Ladeira dos Aflitos, em Salvador. A TV ainda n\u00e3o tinha chegado a Salvador (s\u00f3 chegaria em novembro de 1960) e as ruas eram nossa melhor divers\u00e3o nos anos de 1957 e 58.<\/p>\n<p>Na rua Tuiuti, que fazia esquina com a Ladeira dos Aflitos, em Salvador, havia um terreno baldio. O terreno era grande e numa parte funcionava uma oficina de autom\u00f3veis. O resto do terreno era puro mato e muitos p\u00e9s de mamona cujos gomos serviam como \u201cbalas\u201d em nossas \u201cguerras\u201d.<\/p>\n<p>Como fazem os sem-terra em \u00e1rea improdutiva, ali nos assentamos. Constru\u00edmos uma cabana onde produzimos amizades e sonhos e desfrutamos da liberdade de estar s\u00f3s, sem a chatea\u00e7\u00e3o de pai e m\u00e3e.<\/p>\n<p>Tudo foi feito na marra. Desmatamos uma pequena \u00e1rea e, com ajuda do pessoal da oficina, fincamos quatro estacas. Para a cobertura usamos uma lona de caminh\u00e3o velha jogada no fundo da oficina. Sem janela, as laterais foram feitas com papel\u00e3o e galhos de \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Trouxemos de casa tr\u00eas banquinhos velhos onde ficavam revistas em quadrinhos. Foi numa delas, \u201cLuluzinha\u201d, que nos inspiramos para o cartaz na entrada da cabana. Na revista o personagem Bolinha mant\u00e9m um clube de meninos com o lema \u201cMenina n\u00e3o entra\u201d, que a gente escreveu numa folha de caderno e pendurou na porta da cabana.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou bom de medidas, mas a barraca devia ter uns 3 a 4 metros quadrados, o bastante para caber nossos sonhos. Fazia um calor retado, mas levar a merenda de casa pra l\u00e1 tinha outro sabor.<\/p>\n<p>Meu pai Waldemar ganhou uma caixa de charutos Suerdieck. Roubei um e levei para o nosso \u201cclube\u201d. Fumamos o charuto como o \u201ccachimbo da paz\u201d. Sa\u00edmos tontos, enjoados e tossindo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Daqui a pouco vamos para a Avenida Sete de Setembro para tocar campainhas das casas e sair correndo e sorrindo. E tamb\u00e9m um sobe no ombro do outro para roubar bandeirolas verde-amarelas que est\u00e3o amarradas nos postes, esperando o desfile patri\u00f3tico de 2 de Julho, data da Independ\u00eancia do Brasil na Bahia.<\/p>\n<p>Fomos abandonando a cabana. A oficina cresceu, a lona apodreceu, uma estaca caiu. A cabana foi indo embora, ou foi a gente.<\/p>\n<p>Ali ficou um peda\u00e7o bonito da nossa inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Segue o poema \u201cVelha Ch\u00e1cara\u201d, de Manuel Bandeira:<\/p>\n<p>\u201cA CASA ERA por aqui&#8230;<\/p>\n<p>Onde? Procuro-a e n\u00e3o acho.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o uma voz que esqueci:<\/p>\n<p>\u00c9 a voz deste mesmo riacho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ah quanto tempo passou!<\/p>\n<p>(Foram mais de cinquenta anos)<\/p>\n<p>Tantos que a morte levou!<\/p>\n<p>(E a vida&#8230;nos desenganos&#8230;)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A usura fez t\u00e1bua rasa<\/p>\n<p>Da velha ch\u00e1cara triste:<\/p>\n<p>N\u00e3o existe mais a casa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o menino ainda existe.\u201d<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) Eu tinha uns 9 pra 10 anos. Fazia parte da turma de rua da Ladeira dos Aflitos, em Salvador. A TV ainda n\u00e3o tinha chegado a Salvador (s\u00f3 chegaria em novembro de 1960) e as ruas eram nossa melhor divers\u00e3o nos anos de 1957 e 58. 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