{"id":11903,"date":"2026-05-04T23:15:09","date_gmt":"2026-05-05T02:15:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11903"},"modified":"2026-05-04T23:15:32","modified_gmt":"2026-05-05T02:15:32","slug":"pelo-buraco-da-agulha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/05\/04\/pelo-buraco-da-agulha\/","title":{"rendered":"PELO BURACO DA AGULHA"},"content":{"rendered":"<h3><strong>\u00a0\u00a0 Com suas vistas turvas pelo avan\u00e7ado do tempo em exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz fumacenta do candeeiro, lembro da minha m\u00e3e tentando, por v\u00e1rias vezes, passar a ponta da linha pelo fundo da agulha, para remendar as velhas cal\u00e7as pu\u00eddas do meu pai, desgastadas pelas labutas da ro\u00e7a.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Lambia o fio v\u00e1rias vezes com as salivas da boca e ficava impaciente, bradava e, por fim, nos pedia para passar a linha. \u201c\u00cata homem desleixado, esta cal\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o suporta mais remendos e ele sempre insiste em tapar os buracos. Esta cal\u00e7a virou um molambo\u201d \u2013 desabafava, mas terminava fazendo mais e mais remendos.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Quando citam aquela par\u00e1bola, ou met\u00e1fora de Cristo, escrita pela B\u00edblia, feita pelos homens (nem sei se Ele disse isso), de que era mais f\u00e1cil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos c\u00e9us, sempre recordo da minha m\u00e3e com sua briga entre a agulha, seu buraco e a linha.\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Muitos religiosos interpretam ao p\u00e9 da letra. A agulha era um port\u00e3o estreito das fortifica\u00e7\u00f5es dos reinos e Ele n\u00e3o quis dizer que o rico ia para os quintos dos infernos. Tudo indica que se referia aos avarentos, soberbos e exploradores dos pobres.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Desde o princ\u00edpio da funda\u00e7\u00e3o do cristianismo, l\u00e1 pelos anos 300, a cultura da Igreja Cat\u00f3lica sempre foi de consolar o pobre, ser temente a Deus, a tudo aceitar com resigna\u00e7\u00e3o e sofrimento, pois teria a recompensa dos c\u00e9us. Era a cultura do comodismo.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Mas, voltando ao assunto dos remendos nas roupas e da dificuldade da minha m\u00e3e, com suas vistas curtas, em ter que passar o fio no buraco da agulha, essas coisas n\u00e3o existem mais nos tempos de hoje. Nem o povo roceiro trabalhador do campo faz mais isso.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Nada de remendos, com as facilidades nos tempos atuais e a onda do consumismo, at\u00e9 o sertanejo est\u00e1 sempre renovando suas vestimentas, e as esposas n\u00e3o precisam fazer esse trabalho de ficar passando a linha no funda da agulha para costurar os rasg\u00f5es.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Quanto ao meu velho pai, naquela \u00e9poca, quando a cal\u00e7a estava nas \u00faltimas, sem lugar para mais remendos, de tanto minha m\u00e3e reclamar, ele juntava uns trocados e comprava uma \u201cfazenda de pano\u201d, um brim ou uma mescla, como assim era chamado.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Ficava alegre quando ia \u00e0 feira ao s\u00e1bado ou domingo e comprava um corte de cal\u00e7a na loja ou na banca de um mascate. Era uma satisfa\u00e7\u00e3o danada e estava sempre mostrando o tecido. Apreciava sua textura e a cor por v\u00e1rias vezes.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 &#8211; Amanh\u00e3 cedo vou levar ao seu \u201cTonho\u201d, o alfaiate das redondezas, para fazer uma cal\u00e7a. Esse pano \u00e9 bom e bonito \u2013 repetia at\u00e9 enjoar. Ficava em p\u00e9 com esmero para o costureiro tirar as medidas certas e fazia mil recomenda\u00e7\u00f5es. Procurava saber o dia que o servi\u00e7o ficava pronto e contando os dias.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Ah, quando sobrava uns trocados a mais, ele adquiria dois cortes de \u201cfazenda\u201d. Um mais r\u00fastico era para a labuta na ro\u00e7a e enfrentar os garranchos. O outro era para uma festa, uma visita aos compadres e, principalmente, para ir \u00e0 missa na cidade ou nos povoados.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Quem ficava mais contente com isso era minha pobre m\u00e3e, pois ia, pelo menos, passar um certo tempo sem ter que ficar tentando, por v\u00e1rias vezes, passar o fio da linha no fundo da agulha para remendar a cal\u00e7a, ou a camisa.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>Para quem n\u00e3o tem uma vis\u00e3o boa, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil enfiar a linha no fundo da agulha. N\u00e3o resta d\u00favida que \u00e9 um desafio, assim como outros na nossa vida do dia a dia.\u00a0 Mesmo esbravejando, minha m\u00e3e n\u00e3o desistia e, \u00e0s vezes, pedia ajuda. Hoje temos outros obst\u00e1culos a enfrentar e muitos desistem nas primeiras dificuldades.\u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 \u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0 Com suas vistas turvas pelo avan\u00e7ado do tempo em exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz fumacenta do candeeiro, lembro da minha m\u00e3e tentando, por v\u00e1rias vezes, passar a ponta da linha pelo fundo da agulha, para remendar as velhas cal\u00e7as pu\u00eddas do meu pai, desgastadas pelas labutas da ro\u00e7a. \u00a0 Lambia o fio v\u00e1rias vezes com as [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11903"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11903"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11903\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11904,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11903\/revisions\/11904"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}