{"id":11899,"date":"2026-05-01T23:14:33","date_gmt":"2026-05-02T02:14:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11899"},"modified":"2026-05-01T23:14:48","modified_gmt":"2026-05-02T02:14:48","slug":"um-lampiao-multifacetado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/05\/01\/um-lampiao-multifacetado\/","title":{"rendered":"UM LAMPI\u00c3O MULTIFACETADO"},"content":{"rendered":"<h3>\u00a0\u00a0<strong> Em seu livro \u201cLampi\u00e3o, o Rei dos Cangaceiros\u201d, o escritor Billy Jaynes Chandler, diplomado em bacharel na Austin University, com mestrado em Texas e doutorado na University of Fl\u00f3rida, com base em mat\u00e9rias de jornais nordestinos da \u00e9poca, documentos de arquivos p\u00fablicos e entrevistas, descreve um Lampi\u00e3o multifacetado, cruel, perverso, estrategista, tocador de sanfona, letrista, com sede de vingan\u00e7a, \u00e0s vezes contestado pelos companheiros e at\u00e9 generoso em algumas ocasi\u00f5es.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 \u00c0s vezes, Lampi\u00e3o era como um raio, em outras, como uma nuvem passageira de chuva fina, com seu jeito matreiro de espi\u00e3o vasculhando sorrateiramente o terreno para depois dar o bote fatal. Em paz, com gestos humanit\u00e1rios, se sentindo como um governador do sert\u00e3o, era recebido como um rei, uma celebridade famosa que arrastava multid\u00f5es por onde passava.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Um exemplo dessa sua arte foi sua visita \u00e0 cidade sergipana de Carira, digna de nota, isto no in\u00edcio de 1929. Lampi\u00e3o e seu bando de sete chegaram montados em mulas. Dos seis soldados, quatro fugiram. Foi recebido pelo chefe de pol\u00edcia em sua casa, que, ao seu pedido, serviu um jantar.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Lampi\u00e3o mandou cerveja e cigarros para os dois soldados que ficaram na delegacia. Elogiou-os pela coragem e disse que s\u00f3 estava ali para conhecer o estado. Beberam e cantaram. Para onde os cangaceiros iam, uma multid\u00e3o os acompanhava.\u00a0 Lampi\u00e3o era alvo de aten\u00e7\u00e3o e admira\u00e7\u00e3o de todos. Sua cartucheira tinha dois palmos de largura e continham quatro fileiras de cartuchos, e duas mais de bot\u00f5es de ouro e prata.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0Falou da sua vida e indagou sobre as cidades dos arredores e quantos soldados possu\u00edam. Como n\u00e3o tinha sanfoneiro para tocar e fazer uma festa, horas depois pegaram suas mulas e partiram.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u201cGOVERNADOR DO SERT\u00c3O\u201d\u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Em suas andan\u00e7as pelos sert\u00f5es de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Cear\u00e1, Para\u00edba, Alagoas, Sergipe e Bahia, o cangaceiro que mais estados transitou no Nordeste, foi alvo de grandes fa\u00e7anhas e at\u00e9 chamado pela imprensa de \u201cGovernador do Sert\u00e3o\u201d, mas tamb\u00e9m sofreu fracassos e decep\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Seu maior erro foi ter tentado invadir Mossor\u00f3, no Rio Grande do Norte, e sua maior gl\u00f3ria foi sua visita triunfal ao padre C\u00edcero Rom\u00e3o Batista, o \u201cPadim Ci\u00e7o\u201d, em Juazeiro do Norte, em mar\u00e7o de 1926, quando de l\u00e1 saiu cheio de muni\u00e7\u00f5es do ex\u00e9rcito e com uma patente de capit\u00e3o (n\u00e3o oficial), integrado aos \u201cBatalh\u00f5es Patri\u00f3ticos\u201d, para combater a marcha de Luis Carlos Prestes, cujos soldados eram chamados de revoltosos.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Depois de uns aconselhamentos do padre, Lampi\u00e3o saiu de l\u00e1, passando por Barbalha, no encal\u00e7o de Prestes, at\u00e9 pensando em se regenerar e deixar de vez o canga\u00e7o, mas quis o destino que mudasse de ideia depois de sofrer persegui\u00e7\u00f5es das volantes de Pernambuco.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Sua ira voltou \u00e0 tona com mais for\u00e7a, e entre 1926\/27 foi o per\u00edodo em que Lampi\u00e3o mais se mostrou fac\u00ednora, vingativo, violento, com v\u00e1rios ataques a vilas, povoados e deixando para tr\u00e1s um rastro de mortes, com requintes de perversidades.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0O governador de Pernambuco, na \u00e9poca, Est\u00e1cio Coimbra, resolveu realizar uma persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel ao \u201crei do canga\u00e7o\u201d a partir das pris\u00f5es dos coiteiros, aqueles que n\u00e3o tinham muita influ\u00eancia e for\u00e7a no cen\u00e1rio pol\u00edtico da regi\u00e3o, como os grandes fazendeiros, coron\u00e9is de prest\u00edgio e chefes pol\u00edticos. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Lampi\u00e3o enfrentou v\u00e1rias batalhas com at\u00e9 100 homens contra for\u00e7as compostas de 400 e 500 soldados, mas no final dos anos 27 e in\u00edcio de 1928, foi se enfraquecendo, dividiu seu bando em v\u00e1rias partes para confundir a pol\u00edcia at\u00e9 se decidir atravessar o Rio S\u00e3o Francisco e se internar na Bahia.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Quando estava com for\u00e7a e incensado pela imprensa, teve a ousadia de propor ao governador de Pernambuco uma divis\u00e3o do estado onde ele se tornaria governo a partir da cidade de Arcoverde. Claro que o governador n\u00e3o o levou a s\u00e9rio e botou mais soldados em seu encal\u00e7o.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Com seus momentos de bondade e crueldade, enfrentou os espinhos cruentos da caatinga, fez festa, passou fome e sede, mas teve seus momentos de fartura quando se banqueteava com grandes fazendeiros e coron\u00e9is aliados. Esperto, subornou oficiais que fizeram vistas grosas e compunham sua rede no tr\u00e1fico de armas e muni\u00e7\u00f5es que sustentavam suas lutas e embates.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Em sua obra, Billy Chandler escreve sobre O banditismo no Sert\u00e3o, Virgulino, Lampi\u00e3o, Capit\u00e3o Lampi\u00e3o e o Padre C\u00edcero, Serra Grande, Mossor\u00f3, Queimadas (Bahia), Maria Bonita, A Campanha e os Coiteiros, Em Sergipe com o Governador Eronides, A Grandeza de um Homem, Angicos e um Bandido Social?<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>SERRA GRANDE<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 Entre suas invas\u00f5es, mortes, queimadas de casas e currais, extors\u00f5es, sequestros de ref\u00e9ns, fugas e batalhas, vamos falar um pouco sobre \u201cSerra Grande\u201d, uma terr\u00edvel carnificina, relatada pelo autor do livro, lan\u00e7ado pela editora Paz e Terra, em 1981.\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Durante os meses de abril e maio de 1926, Lampi\u00e3o e seu bando, como relata Billy, limitaram seu campo de a\u00e7\u00e3o \u00e0 fronteira entre Pernambuco e a Para\u00edba, com assaltos a vilas. O pior ataque foi em Algod\u00f5es, um lugarejo perto da estrada de rodagem de Recife. O bando saqueou as pessoas, casas comerciais e estupraram mocinhas e senhoras.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 O mais b\u00e1rbaro e sangrento foi perto de Serra Grande em final de novembro de 1926. O major Te\u00f3fanes Tores, o mesmo que prendeu o cangaceiro Ant\u00f4nio Silvino, e era suspeito de traficar armas e fazer corpo mole, preparou um ataque com 295 soldados contra cerca de 100 de Lampi\u00e3o.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0 Contam que foi a maior batalha daquele tempo. Como estavam sendo perseguidos, os cangaceiros atravessaram a serra \u00edngreme e armaram uma emboscada em condi\u00e7\u00f5es de acabar com a tropa. Foi dif\u00edcil quebrar a resist\u00eancia do \u201cterr\u00edvel general do canga\u00e7o\u201d.<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0\u00a0\u00a0 O combate come\u00e7ou por volta de nove horas da manh\u00e3 e s\u00f3 terminou na escurid\u00e3o, deixando 10 soldados e seis cangaceiros mortos, al\u00e9m de dezenas de feridos. O major n\u00e3o estava presente e quando resolveu chegar com mais refor\u00e7os, a luta j\u00e1 havia terminado com a fuga dos cangaceiros.\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0 Em seu livro \u201cLampi\u00e3o, o Rei dos Cangaceiros\u201d, o escritor Billy Jaynes Chandler, diplomado em bacharel na Austin University, com mestrado em Texas e doutorado na University of Fl\u00f3rida, com base em mat\u00e9rias de jornais nordestinos da \u00e9poca, documentos de arquivos p\u00fablicos e entrevistas, descreve um Lampi\u00e3o multifacetado, cruel, perverso, estrategista, tocador de sanfona, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11899"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11899"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11899\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11900,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11899\/revisions\/11900"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}