{"id":11842,"date":"2026-04-17T22:21:40","date_gmt":"2026-04-18T01:21:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11842"},"modified":"2026-04-17T22:24:54","modified_gmt":"2026-04-18T01:24:54","slug":"curisco-resolve-se-vingar-dos-delatores-e-retomar-o-bastao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/04\/17\/curisco-resolve-se-vingar-dos-delatores-e-retomar-o-bastao\/","title":{"rendered":"CURISCO RESOLVE SE VINGAR DOS DELATORES E RETOMAR O BAST\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>\u201cSe entrega Curisco, eu n\u00e3o me entrego n\u00e3o&#8230;\u201d diz o cancioneiro em refer\u00eancia ao cangaceiro valente, \u201cDiabo Louro\u201d, quando recebeu voz de pris\u00e3o do tenente Jos\u00e9 Rufino, em Barro Alto, na Bahia, pr\u00f3ximo de Miguel Calmon, em 1940, dois anos depois da morte de Lampi\u00e3o, pela tropa de Jo\u00e3o Bezerra, na gruta de Angicos (Sergipe).<\/p>\n<p>Curisco ficou sentido e furioso com a morte do seu amigo \u201ccumpade\u201d e prometeu se vingar dos delatores, Domingos, o homem de duas profiss\u00f5es (vaqueiro e embarcadi\u00e7o a servi\u00e7o de Deus e do Diabo) e Pedro da C\u00e2ndida, o piv\u00f4 das dela\u00e7\u00f5es. Sua mulher Dad\u00e1 teria dito, agora \u00e9 o \u201cfim de quase tudo\u201d. Os dois delatores tiveram um fim tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Depois de tudo consumado em Angicos, Curisco atravessou o Rio S\u00e3o Francisco, na companhia de Dad\u00e1, e pensava na sucess\u00e3o do chefe, mas num embate sofreu ferimentos s\u00e9rios que atingiram seus bra\u00e7os, deixando quase impossibilitado de manejar uma arma, conforme narra o m\u00e9dico e antrop\u00f3logo Est\u00e1cio Lima, em sua obra \u201cO Mundo Estranho dos Cangaceiros\u201d.<\/p>\n<p>Com \u201cmacacos\u201d por todo lado e Z\u00e9 Rufino em seu encal\u00e7o, Curisco vivia amargurado. \u201cN\u00e3o largava eu, a procura de Curisco. De quando em vez, tomava ele um sumi\u00e7o, sem que a persegui\u00e7\u00e3o esmorecesse\u201d \u2013 disse o militar em entrevista ao autor do livro.<\/p>\n<p>Conta que uma vez chegou a Barro Alto, em dia de feira, onde perguntou a todos se haviam visto dois homens, duas mulheres e uma menina. Pouca coisa de informa\u00e7\u00f5es, mas encontrou na ponta da rua um rapaz galopando num cavalo melado. Indagado, disse que ia para Pulgas.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Rufino quis saber do paradeiro do pessoal e disse logo que n\u00e3o eram ladr\u00f5es (o sertanejo tem raiva dessa classe) e sim parentes. O rapaz confirmou que tinha um pessoal em sua casa e veio ao povoado para fazer comprar para as visitas.<\/p>\n<p>O tenente chamou o mo\u00e7o para tomar uma cerveja num bar com o motorista do caminh\u00e3o Z\u00e9 Cl\u00e1udio, que conhecia o local. Todos rumaram para a fazenda Ju\u00e1. O caminh\u00e3o parou uma l\u00e9gua antes da chegada para pegar os cangaceiros de surpresa, mas Curisco ouviu o barulho do motor.<\/p>\n<p>Como guia involunt\u00e1rio, o rapaz pressentiu ter ca\u00eddo numa armadilha, mas j\u00e1 era tarde. O tenente seguiu com um mosquet\u00e3o e seu soldado Mulundu com uma metralhadora belga de 32 tiros. Formaram o cerco \u00e0 casa do velho Pacheco, com a estrat\u00e9gia de distribuir a for\u00e7a em pontos diferentes.<\/p>\n<p>Dad\u00e1 foi a primeira a ver os macacos da janela e avisou ao marido que mandou que lhe acompanhasse. Curisco pulou a cerca de quiabentos e Dad\u00e1 a do fundo. Z\u00e9 Rufino atirou nos fugitivos para intimidar, mas o casal tocou em frente.<\/p>\n<p>O soldado \u201cCampanha\u201d atirou e baleou Dad\u00e1 que caiu. Ela logo avisou a Curisco que havia sido alvejada. \u201cMaiores s\u00e3o os poderes de Deus\u201d \u2013 respondeu o marido. O tenente alcan\u00e7ou o cangaceiro e gritou para ele se entregar que garantia sua vida. A resposta dele foi bala.<\/p>\n<p>O soldado rastejador Gerv\u00e1sio ficou frente a frente com Curisco. \u201cGerv\u00e1sio fez um tango-lomango da peste e a bala n\u00e3o pegou. Rufino correu para dar ajuda e Curisco manobrou dando as costas. Os dois militares atiraram pelas costas. O tenente confessou que n\u00e3o gostava de fazer fogo pelas costas, quanto mais contra um cabra valente, mas acrescentou que n\u00e3o havia outro jeito.<\/p>\n<p>Os tiros arrombaram o buxo de Curisco, e o soldado cuidou de coloc\u00e1-lo para dentro. \u201cDeus lhe pague\u201d \u2013 foi a palavra de Curisco. Z\u00e9 Rufino mandou colocar os dois em redes diferentes e tocaram para a casa de farinha.<\/p>\n<p>Como Curisco ainda estava com vida. Dada indagou se Z\u00e9 Rufino garantia suas vidas. Pegaram a menina Rufina debaixo da cama. Nisso, Dad\u00e1 que estava com o osso da perna espatifada, deu um grande gemido de dor.<\/p>\n<p>\u201cCala a boca, \u00e9gua safada\u201d \u2013 disse um soldado. \u201cMe respeite macaco filho da puta, filho de uma \u00e9gua. Puta \u00e9 sua m\u00e3e. Respeite que sou casada\u201d \u2013 respondeu Dad\u00e1.<\/p>\n<p>O tenente providenciou transportar os dois at\u00e9 Barro Alto. Ainda em vida numa esteira, Curisco topou tomar uma cachacinha com a mulher. De l\u00e1 seguiram para Ventura numa estrada ruim, mas Curisco n\u00e3o resistiu. Com mais um dia chegaram a Miguel Calmon onde a perna de Dad\u00e1 foi amputada pelo doutor Reinaldo, s\u00f3 que deu gangrena.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Rufino, ent\u00e3o, a entregou para o coronel Felipe que a levou para Salvador, pois os c\u00f4t\u00f4cos continuavam ruins. A cabe\u00e7a de Curisco se juntou \u00e0s de Lampi\u00e3o e Maria Bonita, no Museu Est\u00e1cio de Lima.<\/p>\n<p>Depois de Curisco, ainda surgiu um tal de Ant\u00f4nio de Dina, mas este n\u00e3o passava de um marginal, de um delinquente e n\u00e3o possu\u00eda os atributos de um cangaceiro. Chegou a ser preso e fugiu da Casa de Deten\u00e7\u00e3o da Bahia indo parar em Pernambuco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe entrega Curisco, eu n\u00e3o me entrego n\u00e3o&#8230;\u201d diz o cancioneiro em refer\u00eancia ao cangaceiro valente, \u201cDiabo Louro\u201d, quando recebeu voz de pris\u00e3o do tenente Jos\u00e9 Rufino, em Barro Alto, na Bahia, pr\u00f3ximo de Miguel Calmon, em 1940, dois anos depois da morte de Lampi\u00e3o, pela tropa de Jo\u00e3o Bezerra, na gruta de Angicos (Sergipe). 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