{"id":11799,"date":"2026-04-03T22:59:18","date_gmt":"2026-04-04T01:59:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11799"},"modified":"2026-04-03T22:59:51","modified_gmt":"2026-04-04T01:59:51","slug":"cuma-cunteceu-nas-revelacoes-do-valente-cangaceiro-labareda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/04\/03\/cuma-cunteceu-nas-revelacoes-do-valente-cangaceiro-labareda\/","title":{"rendered":"&#8220;CUMA CUNTECEU&#8221; NAS REVELA\u00c7\u00d5ES DO VALENTE CANGACEIRO LABAREDA"},"content":{"rendered":"<p>O m\u00e9dico e antrop\u00f3logo Est\u00e1cio de Lima, em sua obra \u201cO Mundo Estranho dos Cangaceiros\u201d transcreve uma entrevista que fez com \u00c2ngelo Roque da Costa (Anjo), vulgo Labareda, do grupo de Lampi\u00e3o, na linguagem matuta, com pitadas po\u00e9ticas, ipsis liter, dif\u00edcil de se falar e escrever.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que Lampi\u00e3o foi morto, em 1938, na gruta do Angico (Sergipe), Est\u00e1cio era presidente do Conselho Penitenci\u00e1rio da Bahia e acolheu e defendeu muitos cangaceiros presos e outros que se entregaram. Ele chegou a empregar alguns depois de indultados.<\/p>\n<p>Na entrevista, Labareda descreve o chefe que muitas vezes vacilava nas decis\u00f5es e era afrontado. Quando \u201ccarmo\u201d \u201cagia como uma mo\u00e7a, mas aperreado era uma fera\u201d. Era cruel e at\u00e9 justo em algumas ocasi\u00f5es. \u00c1s vezes se apiedava da pobreza e distribu\u00eda algum dinheiro. N\u00e3o perdoava quem o denunciava aos \u201cmacacos\u201d.<\/p>\n<p>Labareda, nascido pelas bandas de Santo Ant\u00f4nio da Gl\u00f3ria (Curral dos Bois), na Bahia, conta que ajudava os v\u00e9io na ro\u00e7a. \u201cMinha m\u00e3e era mul\u00e9 da cusinha, dus fio i da inxada. Eram arremediados. \u201cS\u00f3 nus tempo di seca qui parecia u mundo i si acaba!\u201d<\/p>\n<p>Como Anjo Roque se bardi\u00f4 pr\u00f4 canga\u00e7o? Tudo foi por causo da sua irm\u00e3 Sabina, de quinze anos. O soldado Hor\u00e1cio Caboclo (Couro Seco) mandou uma carta para sua irm\u00e3 chamando-a para fugir. Anjo foi ao juiz de Direito. \u201cEle entonces mi arrespondeu qui u sordado tam\u00e9m tinha irim\u00e3 e cumo ele namorava cum a minha irim\u00e3, eu fizesse u mesmo, cum a do sordado\u201d. Naquele tempo, soldado mandava no interior mais que o prefeito.<\/p>\n<p>&#8211; Entonces, Dout\u00f4, visto isso, s\u00f3 si tomano pruviden\u00e7a, pru conta da gente.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 si cria, m\u00ednimo \u2013 foi a resposta do juiz. \u2013 J\u00e1 t\u00f4 criado, Dout\u00f4.<\/p>\n<p>O soldado disse que ia buscar a Sabina. \u201cCabra zarro, ele disse i compareceu. Mas num vortou! Ficou ispichado nu ch\u00e3o\u201d. O Pai de Couro Seco (Andr\u00e9 Cab\u00f4co) deu uma facada nas costas de Anjo Roque, que o enganou dizendo que ia para S\u00e3o Paulo. No dia seguinte ele recebeu um \u201ccert\u00earo\u201d. \u201cEle miricia; era ordin\u00e1rio i ruim Cuma a peste. Foi duas on\u00e7a qui eu tirei du pasto, us povo dizia\u201d.<\/p>\n<p>Dias depois, Anjo Roque foi cercado em sua casa. Houve brigada e seu irm\u00e3o e sua mulher foram mortos. Tocaram fogo em sua casa com seu pai dentro, bem como no curral, na casa de farinha e no chiqueiro \u2013 conforme relata.<\/p>\n<p>Labareda conta que a \u00fanica sa\u00edda foi pedir prote\u00e7\u00e3o ao um coronel de Jeremoabo. Depois se entranhou no Raso da Catarina onde lutou contra a for\u00e7a e matou um sargento. Houve viol\u00eancia contra seus parentes.<\/p>\n<p>No aperto, Anjo Roque, o Labareda, procurou Lampi\u00e3o e entrou para o grupo composto por oito homens (Curisco, Arvoredo, Virginio, Luis Pedro, Ezequiel, Fortaleza, Volta Seca, entre outros), isto em 1928.<\/p>\n<p>Depois disso ele narra as viagens das brigadas e persigas pelas caatingas que fez com Lampi\u00e3o pela Bahia, inclusive em Queimadas, onde muitos soldados foram mortos. Em seu portugu\u00eas caipira, ele conta os aperreios dos cangaceiros, o dia em que Lampi\u00e3o quase morre de sede no sert\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cBebemo cum muita gana\u00e7a e u rezurtado foi qui provequemo, i a gente gumit\u00f4 tudo\u201d. Segundo ele, quando se est\u00e1 com muita sede, \u00e1gua s\u00f3 segura na barriga, quando misturada com rapadura ou farinha.<\/p>\n<p>\u201cTivemo nuti\u00e7a qui, in Juaz\u00earo, havia u\u00b4a vi\u00fava v\u00e9ia muito rica: Viajemo na procura da vi\u00fava. Cheguemo in casa dela, cum u quilari\u00e1 du dia\u201d. Levaram tudo dela e mais 10 contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>Em Pernambuco, num lugar chamado de Tacutiara, o bando se encontrou com um soldado da for\u00e7a que mentiu dizendo ser tangedor de burro. Ap\u00f3s ser descoberto, \u201cLampi\u00e3o cort\u00f4 a cabe\u00e7a dele vivo deitano ele no ch\u00e3o Cuma si faz cum galinha.<\/p>\n<p>Anjo Roque conta outras hist\u00f3rias macabras e que havia desentendimentos entre os cangaceiros, mas sempre se acertavam, inclusive que algumas vezes o chefe Lampi\u00e3o chegava a ser contrariado, mas tinha suas sa\u00eddas estrat\u00e9gicas e at\u00e9 se compadecia dos mais pobres em alguns casos.<\/p>\n<p>Certa vez, Lampi\u00e3o resolveu matar um fazendeiro com quem tinha se desentendido e Labareda tentou impedi-lo, dizendo que o filho havia dado cinco contos para livrar o pai. Era seu conhecido. Mesmo assim, Virgulino Ferreira n\u00e3o aceitou e os dois tiveram um entrevero. No final, o chefe concordou desde que o coronel desse um conto a cada cangaceiro do seu grupo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00e9dico e antrop\u00f3logo Est\u00e1cio de Lima, em sua obra \u201cO Mundo Estranho dos Cangaceiros\u201d transcreve uma entrevista que fez com \u00c2ngelo Roque da Costa (Anjo), vulgo Labareda, do grupo de Lampi\u00e3o, na linguagem matuta, com pitadas po\u00e9ticas, ipsis liter, dif\u00edcil de se falar e escrever. Na \u00e9poca em que Lampi\u00e3o foi morto, em 1938, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11799"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11799"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11799\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11800,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11799\/revisions\/11800"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11799"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11799"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}