{"id":11794,"date":"2026-04-02T22:16:45","date_gmt":"2026-04-03T01:16:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11794"},"modified":"2026-04-02T22:16:55","modified_gmt":"2026-04-03T01:16:55","slug":"barzinho-novo-so-lhe-trata-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/04\/02\/barzinho-novo-so-lhe-trata-bem\/","title":{"rendered":"BARZINHO NOVO S\u00d3 LHE TRATA BEM"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>Atendimento em barzinho novo \u00e9 igual \u00e0 presteza de um funcion\u00e1rio novo numa loja: rapidez no atendimento, um desfazer-se em mesuras para segurar o cliente e faz\u00ea-lo voltar. Afinal, o neg\u00f3cio est\u00e1 come\u00e7ando e o dono est\u00e1 todo endividado.<\/p>\n<p>Mal voc\u00ea entra e j\u00e1 tem um gar\u00e7om junto, colado. A mesa est\u00e1 limp\u00edssima, mas ele passa a flanela de novo, gesto que repete nas cadeiras. O dono est\u00e1 de l\u00e1, no balc\u00e3o, e fica logo com uma postura mais ereta. V\u00ea-se logo que ele est\u00e1 pronto para se desdobrar em cuidados.<\/p>\n<p>Sai a primeira cerveja e noto que o dono fala baixinho com o gar\u00e7om, entregando-lhe o card\u00e1pio. Na certa, deve ter dito: \u201cV\u00e1 ver se o pessoal ali vai comer alguma coisa, mas sugira tamb\u00e9m, diga que o caldo de sururu est\u00e1 \u00f3timo e que as lambretas est\u00e3o enormes, que tem caldo de feij\u00e3o e que, mais tarde, vai sair muqueca de arraia, comida caseira mesmo, e que o prato \u00e9 s\u00f3 40 reais. Se ele esperar, n\u00e3o vai se arrepender, e v\u00e1 tirando logo aquele vendedor de amendoim de l\u00e1, sen\u00e3o o pessoal n\u00e3o come nada\u201d.<\/p>\n<p>A primeira cerveja ainda est\u00e1 pelo meio e o gar\u00e7om j\u00e1 vem perguntar se a gente quer trocar os copos. O dono est\u00e1 de l\u00e1. Vejo logo que ele est\u00e1 fazendo contas. Deve ser a primeira presta\u00e7\u00e3o do <em>freezer, <\/em>a primeira conta de luz que j\u00e1 d\u00e1 um susto, a cartinha do ECAD que fala em pagamento de direitos autorais, a nota do fornecedor da carne-de-sol, separar 500 reais para o cigarro, que vai chegar amanh\u00e3, e mandar consertar o liquidificador, que \u00e9 novinho e j\u00e1 pifou.<\/p>\n<p>O doido est\u00e1 doido pra se aproximar. Est\u00e1 um pouco mais tranquilo agora, porque h\u00e1 seis mesas ocupadas, e ainda \u00e9 cedo pra dia de sexta-feira. Arruma algumas cadeiras, d\u00e1 ordens a outro gar\u00e7om, afugenta o menino vendedor de ovos de codorna e vai pra porta fumar um cigarro.<\/p>\n<p>Sai a carne-de-sol que pedimos de tira-gosto. A bandeja est\u00e1 tinindo de nova, o paninho de prato vem alv\u00edssimo e o molho, ao lado, est\u00e1 coberto de tempero verde, um festival de coentro e cebolinha.<\/p>\n<p>\u201cQualquer coisa \u00e9 s\u00f3 pedir\u201d, diz o sorridente gar\u00e7om, cujos sapatos pretos foram engraxados hoje mesmo.<\/p>\n<p>A carne-de-sol est\u00e1 gostosa, a farofa foi feita com manteiga mesmo. Daqui a uns dias v\u00e3o mudar pra margarina, pois a freguesia j\u00e1 estar\u00e1 conquistada.<\/p>\n<p>\u201cO senhor me chamou?\u201d, pergunta o gar\u00e7om.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, estava s\u00f3 co\u00e7ando a cabe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Acabamos de pagar a conta. O dono vem anunciar que dispensou os quebrados, e sa\u00edmos do barzinho rec\u00e9m-inaugurado com os bolsos cheios de folhetos, que t\u00eam at\u00e9 um mapinha dizendo como chegar l\u00e1.<\/p>\n<p>(Cr\u00f4nica publicada no jornal A Tarde em 26\/5\/1993)<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><u>\u00a0<\/u><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) Atendimento em barzinho novo \u00e9 igual \u00e0 presteza de um funcion\u00e1rio novo numa loja: rapidez no atendimento, um desfazer-se em mesuras para segurar o cliente e faz\u00ea-lo voltar. Afinal, o neg\u00f3cio est\u00e1 come\u00e7ando e o dono est\u00e1 todo endividado. Mal voc\u00ea entra e j\u00e1 tem um gar\u00e7om junto, colado. 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