{"id":11716,"date":"2026-03-13T22:52:16","date_gmt":"2026-03-14T01:52:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11716"},"modified":"2026-03-13T22:52:30","modified_gmt":"2026-03-14T01:52:30","slug":"o-cangaceiro-cantor-e-compositor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/03\/13\/o-cangaceiro-cantor-e-compositor\/","title":{"rendered":"O CANGACEIRO CANTOR E COMPOSITOR"},"content":{"rendered":"<p>Entre os grupos de cangaceiros nordestinos, alguns se destacaram como verdadeiros artistas an\u00f4nimos, cantando e divertindo seus companheiros depois das brigadas e das persigas, em acampamentos armados de forma improvisada nos agrestes dos sert\u00f5es.<\/p>\n<p>Muita coisa foi perdida, mas alguns pesquisadores conseguiram recuperar preciosidades escritas em sua linguagem que, at\u00e9 certo ponto, era diferenciada do povo nordestino comum. O antrop\u00f3logo Est\u00e1cio de Lima afirma que \u201ca obra de arte \u00e9 o que foi e \u00e9 o que ser\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>\u201cConhecer o seu semelhante, interpretar-lhe o sentimento, decifra-lhe os arcanos da alma, \u00e9 algo, realmente, complexo\u201d \u2013 diz Est\u00e1cio. Segundo ele, poetas e prosadores convencionais costumam fazer-se escravos da sintaxe, da rima, do que lhes parece harm\u00f4nico, dos dicion\u00e1rios, do estilo, da metrifica\u00e7\u00e3o e, em \u00faltima an\u00e1lise, dos ditames das escolas liter\u00e1rias, que amarram as ideias, comprometem a inspira\u00e7\u00e3o e alteram a realidade.<\/p>\n<p>Nos versos populares, nota-se que para o jagun\u00e7o, para o sertanejo em geral, o grande vaqueiro, corredor das caatingas, vale mais que um doutor. Lampi\u00e3o, que foi sanfoneiro, antes de entrar para o canga\u00e7o, foi um valente vaqueiro. Era grande a aproxima\u00e7\u00e3o entre o cangaceiro e o Padre C\u00edcero Rom\u00e3o, e o artista Theo Brand\u00e3o retratou bem isso em seus versos.<\/p>\n<p>O poeta Jos\u00e9 Cordeiro conta os preparativos, os planos e o combate em Mossor\u00f3, em 1927, onde Lampi\u00e3o saiu derrotado. O metrificador Ant\u00f4nio Theodoro fala dos apelidos dos bandidos em sextilhas de cordel.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o se encontrou na literatura e na poesia refer\u00eancias sobre o C\u00f3digo de Honra dos cangaceiros, principalmente quanto ao tr\u00e1fico de armas. Existia entre as partes um pacto de sil\u00eancio. Sabe-se, por\u00e9m, que muitos oficiais da pol\u00edcia, chefes pol\u00edticos e coron\u00e9is de patente estiveram envolvidos, como acontece at\u00e9 hoje no \u00e2mbito do narcotr\u00e1fico e das quadrilhas organizadas.<\/p>\n<p>Quanto a arte no canga\u00e7o, entre os cangaceiros, Gitirana (n\u00e3o gostava que colocasse o \u201cJ\u201d na inicial do seu nome), voz de bar\u00edtono, foi o destaque e animador das festas, nas bem tra\u00e7adas emboladas, com gritos guerreiros. Descreve o autor Est\u00e1cio, de \u201c O Mundo Estranho dos Cangaceiros\u201d, que ele mesmo se comovia, quase \u00e0s l\u00e1grimas e tamb\u00e9m aos ouvintes. Ele era acompanhado pelo realejo do bandoleiro Jandaia.<\/p>\n<p>Gitirana foi o cantor das caatingas e se imp\u00f4s como o bar\u00edtono maior de \u201cMulher Rendeira\u201d. Ele gostava dos cocos. De acordo com Est\u00e1cio, que entrevistou alguns de seus companheiros, Gitirana gostava dos remexidos, como \u201cBala in balaxo\/ Bala in riba\/Bala in baxo&#8230;\/ Foi pru mode o carar\u00fa&#8230;\/Eu n\u00e3o quero nem fala&#8230;\/ Quem num come de castanha\/ Num percebe du caju\/ Num conhece du fub\u00e1&#8230;\/ Quem num pode cum mandiga\/ Num carrega patu\u00e1!<\/p>\n<p>Nos pousos (remanso do \u201cponto\u201d), nos coitos ou nas marchas penosas, ouvia-se sua voz: \u201cLaranjeira, laranjeira\/ Laranjeira, laranj\u00e1\/ Eu disse pra laranjeira\/ Qui num botasse ful\u00f4&#8230;\/ Que passasse Cuma eu passo,\/Qui passasse sem Am\u00f4!<\/p>\n<p>Na alma do cangaceiro, suas rimas eram agudas, cortantes, de express\u00f5es b\u00e9licas, explosivas, nost\u00e1lgicas e de afeto. Em redondilhas, outra possivelmente de Gitirana dizia: \u201cQuem num prova de castanha\/ Num conhece du caju,\/ Mul\u00e9 sort\u00eara tem manha\/ Qi nem sapo cururu&#8230;\/\/ Se n\u00f3is prova du dend\u00ea\/ Sem cum\u00ea du caruru\/ Num sabe a gente cum\u00ea\/ Nem briga num suru\u00fa!<\/p>\n<p>Gitirana nos deixou essa do\u00e7ura de can\u00e7\u00e3o: \u201cAm\u00f4 remexe c\u00e1 gente\/Chegando di supet\u00e3o&#8230;\/ Mais pi\u00f3 qui d\u00f4 di dente\/ \u00c9 senti parpita\u00e7\u00e3o. Como ele apreciava a cabrocha, cantava essa: \u201cCabrocha pra s\u00ea bunita\/Bonita cumo os am\u00f4,\/Basta um vestido de chita\/ I na cabe\u00e7a u\u00b4a fr\u00f4!\/\/Toda cabrocha bunita\/ Num sabe t\u00ea sentimento&#8230;\/Vistida entonces di chita\/ S\u00f3 sabe t\u00ea trivimento!<\/p>\n<p>O artista chegou a ser recolhido \u00e0 cadeia de Jeremoabo, na Bahia, ao se entregar, atendendo a promessa do perd\u00e3o, mas a alma de poeta, habituado a viver livre no agreste, n\u00e3o se adaptou ao local. Revoltou-se, arrombou a pris\u00e3o e partiu para Sergipe onde morreu tuberculoso, no anonimato.<\/p>\n<p>Est\u00e1cio de Lima nos revela que \u201cTodamerica\u201d gravou em disco a voz de Volta Seca, incorporando corretamente \u00e0 \u201cMul\u00e9 Rend\u00eara\u201d. Labareda tamb\u00e9m cantava, mas n\u00e3o tinha o mesmo talento de Gitirana.<\/p>\n<p>Os \u201cmacacos\u201d tinham seus cantadores que falavam dos seus embates contra os cangaceiros. Em versos, os bandidos eram sempre tratados com deboches, sem falar nas vantagens que levavam contra os inimigos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os grupos de cangaceiros nordestinos, alguns se destacaram como verdadeiros artistas an\u00f4nimos, cantando e divertindo seus companheiros depois das brigadas e das persigas, em acampamentos armados de forma improvisada nos agrestes dos sert\u00f5es. 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