{"id":11696,"date":"2026-03-11T00:10:38","date_gmt":"2026-03-11T03:10:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11696"},"modified":"2026-03-11T00:10:51","modified_gmt":"2026-03-11T03:10:51","slug":"estou-cheio-da-cidade-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/03\/11\/estou-cheio-da-cidade-grande\/","title":{"rendered":"ESTOU CHEIO DA CIDADE GRANDE"},"content":{"rendered":"<p>Nasci na ro\u00e7a e logo cedo fui trabalhar com meu pai. Fora os perrengues da vida, apreciava ouvir as conversas daquela gente simples do sert\u00e3o, dos compadres compartilhando suas vidas, proseando e fazendo cantorias nos adjut\u00f3rios das planta\u00e7\u00f5es e nas batidas de feij\u00e3o. Os vel\u00f3rios e funerais tamb\u00e9m faziam parte do roteiro da vida.<\/p>\n<p>Ainda moleque, aos dez ou doze anos, fui ganhando mundo. Primeiro em Piritiba, onde cursei o prim\u00e1rio e fiz muitas tripolias naquelas ruas de ch\u00e3o batido. Depois Mundo Novo como sacrist\u00e3o do seu vig\u00e1rio que me indicou ao bispo para o semin\u00e1rio. Ruy Barbosa, Itaberaba at\u00e9 ingressar no Semin\u00e1rio de Amargosa.<\/p>\n<p>Quis meu destino que ca\u00edsse na cidade grande da capital Salvador baiana onde fiquei por l\u00e1 durante mais de 20 anos. Tornei-me bacharel em Jornalismo e atuei como profissional, especialmente na \u00e1rea de economia. Chegaram at\u00e9 a me confundi como economista.<\/p>\n<p>Quando estava cheio da cidade grande, entojado daquelas correrias para sobreviver, dando meus pulos de galho em galho, como um macaco perdido na multid\u00e3o, bateu a estafa no cora\u00e7\u00e3o e vim para Vit\u00f3ria da Conquista, que me deu r\u00e9gua e compasso.<\/p>\n<p>Senti que estava retornando \u00e0s minhas ra\u00edzes, mas foi engano porque, al\u00e9m das labutas desenfreadas, a cidade cresceu e me engoliu. A idade vai avan\u00e7ando e me vejo irrequieto nesse labirinto, no qual me sinto um perdido.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho mais aquele tes\u00e3o de sair de casa para vagar pelo centro resolvendo \u201cpepinos\u201d entre ruas e reparti\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas e me livrando dos carros com seus gazes t\u00f3xicas. O ar est\u00e1 contaminado de fuma\u00e7a, alaridos e letreiros por todos os lados. Nesse aperreio, tenho a sensa\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico.<\/p>\n<p>Estou espremido como massa de mandioca numa prensa de casa de farinha. N\u00e3o mais me apetecem esses eventos. Prefiro ficar em minha loca, ou caverna, como um eremita recluso. Dizem que o sofrimento fortalece a alma para enfrentar as adversidades, mas ningu\u00e9m deseja sofrer. Seria masoquismo.<\/p>\n<p>Estou mesmo cheio da cidade grande e bate a saudade daquela terrinha simples entre os caipiras, matutos e tabar\u00e9us, falando aquela l\u00edngua do povo, sem as maldades e as falsidades das cidades grandes. S\u00e3o falas que ainda se conservam verdadeiras e sinceras.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a pretens\u00e3o de ir para a Pass\u00e1rgada, de Manuel Bandeira, mas, em meu torr\u00e3o, serei rei. L\u00e1 n\u00e3o existem filas e todos conhecem todos. Nas reparti\u00e7\u00f5es, as pessoas s\u00e3o sol\u00edcitas e tudo \u00e9 r\u00e1pido e f\u00e1cil de se resolver. Depois, vou dar boas risadas com a alcoviteira linguaruda de dona Delfina que adora uma fofoca e um fuxico.<\/p>\n<p>Com os compadres vou ouvir e contar causos do passado, sem nem se preocupar que o mundo est\u00e1 pegando fogo com ogivas, drones e foguetes mort\u00edferos cruzando os c\u00e9us. Vou at\u00e9 esquecer que existe o Cachorro Louco que quer ser o dono do mundo.<\/p>\n<p>Para a bandidagem corrupta que vive todo tempo depenando o Brasil, desejo que esses salafr\u00e1rios salteadores v\u00e3o todos para o quinto dos infernos.<\/p>\n<p>Podem dizer que estou \u201cfugindo da raia\u201d, da luta e da guerra, mas \u00e9 que n\u00e3o aguento mais esse emaranhado, esse cipoal de tantas maldades, ideias idiotas e estapaf\u00fardias. Com as injusti\u00e7as sociais, vai-se morrendo mais depressa. Quero deixar essa UTI e acho que pelo tempo, vivendo neste quarto escuro, mere\u00e7o respirar ares mais puros, num espa\u00e7o mais amplo e limpo.<\/p>\n<p>Estou de saco cheio da cidade grande onde meu lugar n\u00e3o \u00e9 mais aqui, correndo pra l\u00e1 e pra c\u00e1, como um escravo fregu\u00eas das contas de todo m\u00eas, al\u00e9m da apertada feira, cada vez mais racionada. Minhas \u00faltimas gotas de sangue est\u00e3o se esvaindo para manter um falso padr\u00e3o nesta ilus\u00e3o da cidade grande.<\/p>\n<p>Meu templo est\u00e1 polu\u00eddo, com teias de aranha. N\u00e3o sou mais gente dessa gente, mas um peixe fora da \u00e1gua. Meu lugar n\u00e3o \u00e9 mais aqui na cidade grande em meio a esta selva de concreto. N\u00e3o fa\u00e7o mais parte deste tabuleiro onde todos s\u00f3 querem ser vencedores. Preciso partir para respirar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nasci na ro\u00e7a e logo cedo fui trabalhar com meu pai. Fora os perrengues da vida, apreciava ouvir as conversas daquela gente simples do sert\u00e3o, dos compadres compartilhando suas vidas, proseando e fazendo cantorias nos adjut\u00f3rios das planta\u00e7\u00f5es e nas batidas de feij\u00e3o. Os vel\u00f3rios e funerais tamb\u00e9m faziam parte do roteiro da vida. 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