{"id":11691,"date":"2026-03-09T22:57:05","date_gmt":"2026-03-10T01:57:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11691"},"modified":"2026-03-09T23:03:59","modified_gmt":"2026-03-10T02:03:59","slug":"consulte-o-pai-dos-burros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/03\/09\/consulte-o-pai-dos-burros\/","title":{"rendered":"CONSULTE O &#8220;PAI DOS BURROS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Certa feita, um professor de portugu\u00eas, de certa forma debochado \u2013 hoje politicamente incorreto \u2013 depois de falar sobre conjuga\u00e7\u00e3o verbal, uso dos pronomes, conjun\u00e7\u00f5es e objetos diretos e indiretos, no final da aula contou uma piada, sem muita gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Disse que um mo\u00e7o mais letrado, mas um tanto exibido, entrou num bar e chamou o gar\u00e7om de lacaio para lhe servir. Como se fosse um elogio \u00e0 sua pessoa, o cara foi l\u00e1 em sua mesa, todo sorridente. Ele fez mais uns gracejos com palavras dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Poucos alunos riram, mas um l\u00e1 do fundo, da chamada turma do \u201cpared\u00e3o\u201d, indagou do professor o que significava lacaio e ele respondeu, consulte o \u201cPai dos Burros\u201d.<\/p>\n<p>A mo\u00e7ada de hoje ficaria baratinada com esse termo &#8220;Pai dos Burros&#8221;, e seria preciso explicar que se trata do nosso tirador de d\u00favidas, o Dicion\u00e1rio, nos dias atuais praticamente em desuso. Infelizmente, grande parte da nossa juventude, al\u00e9m de escreve errado, tem o celular para fazer uma consulta. Poderia ser chamado de o \u201cPai dos Internautas? Tenho minhas d\u00favidas, porque ainda prefiro o \u201cPai dos Burros\u201d.<\/p>\n<p>Lembro que naquela \u00e9poca do meu prim\u00e1rio, gin\u00e1sio e do cl\u00e1ssico, todas escolas tinham um Dicion\u00e1rio, e at\u00e9 em algumas salas. A gente ficava brincando de falar dif\u00edcil como forma de goza\u00e7\u00e3o e xingar os colegas. Era o bastante para o ofendido recorrer ao \u201cPai dos Burros\u201d. Muitas vezes resultava at\u00e9 em brigas.<\/p>\n<p>Imaginou chamar outro de meruxinga, ou at\u00e9 mesmo merd\u00e1ceo! Seria uma forte ofensa, mas nossos pol\u00edticos s\u00e3o uns verdadeiros merd\u00e1ceos. Se voc\u00ea n\u00e3o sabe o que \u00e9, ent\u00e3o, consulte o \u201cPai dos Burros\u201d.<\/p>\n<p>Um dia ouvi um doutorzinho, num lan\u00e7amento de um livro, pronunciar que a nossa l\u00edngua \u00e9 pobre e fraca de vocabul\u00e1rio. Confesso que fiquei estarrecido e irado. N\u00e3o me contive e fui tirar satisfa\u00e7\u00e3o, com os bofes inchados de raiva. \u201cComo voc\u00ea diz que nossa l\u00edngua \u00e9 pobre? \u00c9 a primeira vez que ou\u00e7o isso em minha vida\u201d.<\/p>\n<p>Por essas e outras \u00e9 que a nossa l\u00edngua est\u00e1 sendo chafurdada na lama pelo complexo de inferioridade, ou perda cultural. Santa ignor\u00e2ncia! Os letreiros nas lojas est\u00e3o todos inglesados. Nos shoppings at\u00e9 parece que voc\u00ea est\u00e1 na Inglaterra ou nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>As pessoas metidas a bestas, como dizia Ariano Suassuna, se sentem chicosas e ainda ridicularizam quem n\u00e3o pronuncia corretamente os termos ingleses, como se fosse uma obriga\u00e7\u00e3o, mas falar o portugu\u00eas errado, pode.<\/p>\n<p>Em Paris, me recordo bem, fui a uma tabacaria e pedi uma carteira de cigarro Lucky Strike e tive o cuidado de carregar bem na pron\u00fancia do \u201cestraike\u201d. O franc\u00eas me olhou atravessado e corrigiu para \u201cestrike\u201d, como estava escrito. Sem mais coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Bem, meu camarada, vamos voltar ao nosso \u201cPai dos Burros\u201d da l\u00edngua portuguesa, umas das mais dif\u00edceis do planeta, extra\u00edda da Flor do L\u00e1cio, o nosso latinorum, mas nela est\u00e1 embutida o grego (conquista dos gregos pelo Imp\u00e9rio Romano), express\u00f5es \u00e1rabes (Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica), o tupi-guarani e o african\u00eas.<\/p>\n<p>Temos como palavras greco-latinas, biblioteca, raramente frequentada, democracia, injuriada pelas injusti\u00e7as e as corrup\u00e7\u00f5es, oftalmologia, biologia, geografia, habeas corpus (latim), usadas pelos bandidos e sic\u00e1rios. O grego \u00e9 comum em terminologias t\u00e9cnicas\/cient\u00edficas, enquanto o latim forma a base gramatical e vocabular, como avicultura, beligerante, cordial, gr\u00e1tis e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Em \u00e1rabe existem mais de tr\u00eas mil palavras. As mais comuns s\u00e3o as iniciadas em \u201cal\u201d, como almofada, almoxarife, algod\u00e3o, a\u00e7\u00facar, alface, fulano, armaz\u00e9m, azeite, alicate, tambor e tantas outras. No tupi-guarani, temos abacaxi, a\u00e7a\u00ed, caju, capivara, jacar\u00e9, pipoca, potiguara. Do africano, principalmente origin\u00e1rias dos grupos bantos, usamos muito o samba, dend\u00ea, cafun\u00e9, moleque, dengo, quitanda, fub\u00e1, bagun\u00e7a e muvuca (casos do nosso pa\u00eds), berimbau, ax\u00e9, cu\u00edca, quilombo, senzala e tantas outras.<\/p>\n<p>No \u201cPai dos Burros\u201d, que se tornou arcaico nos ensinos escolares dessa modernidade burra, voc\u00ea vai encontrar todos os significados dessas palavras, mas sua pregui\u00e7a n\u00e3o deixa, meu jovem, cujos neur\u00f4nios est\u00e3o voltados para as telas das fofocas e dos mexericos.<\/p>\n<p>Coitado do nosso \u201cPai dos Burros\u201d! Parece at\u00e9 um objeto contagioso. Ficou l\u00e1 encostado num canto poeirento como se fosse um leproso. Quem se lembra a\u00ed das enciclop\u00e9dias Barsa, Atlas, do famoso Dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio Buarque de Holanda Ferreira com Jos\u00e9 Batista da Luz, do Michaelis, do professor Alpheu Tersariol. Deixa quieto porque muitos dos nossos estudantes nunca ouviram falar nesses nomes e nem sabem como manusear um \u201cPai dos Burros\u201d.<\/p>\n<p>Estou lendo a obra do m\u00e9dico e antrop\u00f3logo, Est\u00e1cio de Lima, sobre o cangaceirismo e sempre tenho que recorrer ao \u201cPai dos Burros\u201d, quando ele faz sua descri\u00e7\u00e3o estramb\u00f3lica mesol\u00f3gica do \u00e1rido solo nordestino e fala das caracter\u00edsticas t\u00edpicas do cangaceiro que enfrentava adversidades das caatingas, fugindo das persigas das volantes.<\/p>\n<p>Com suas defini\u00e7\u00f5es, vim descobrir que sou um leptossom\u00e1tico (al\u00f4 meus amigos Itamar, Manno e Lu\u00eds Alt\u00e9rio!), e n\u00e3o um picn\u00f3ide ou picn\u00eddio (al\u00f4 meu amigo Dal Farias!), que n\u00e3o teria o devido atributo de se mobilizar com facilidade nos sert\u00f5es do canga\u00e7o. O mestre ainda cita a esquizotemia, o hipogenitalismo e a melanodermia na classifica\u00e7\u00e3o do cangaceirismo e do nordestino em geral.<\/p>\n<p>No computador, ou no celular, essas palavras s\u00e3o assinaladas como desconhecidas ou erradas. Pois \u00e9, n\u00e3o vou traduzir minha modesta cr\u00f4nica. Quem quiser entender melhor que consulte o \u201cPai dos Burros\u201d. \u00cata \u00e9gua! T\u00f4 ferrado!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa feita, um professor de portugu\u00eas, de certa forma debochado \u2013 hoje politicamente incorreto \u2013 depois de falar sobre conjuga\u00e7\u00e3o verbal, uso dos pronomes, conjun\u00e7\u00f5es e objetos diretos e indiretos, no final da aula contou uma piada, sem muita gra\u00e7a. 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