{"id":11686,"date":"2026-03-06T23:23:08","date_gmt":"2026-03-07T02:23:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11686"},"modified":"2026-03-06T23:24:14","modified_gmt":"2026-03-07T02:24:14","slug":"o-cangaco-e-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/03\/06\/o-cangaco-e-as-mulheres\/","title":{"rendered":"O CANGA\u00c7O E AS MULHERES"},"content":{"rendered":"<p>Somente no final dos anos 20, quando Lampi\u00e3o fugiu de Pernambuco para a Bahia, foi que as mulheres come\u00e7aram a entrar no canga\u00e7o, com Maria D\u00e9a, ou Maria Bonita, nascida em Santo Ant\u00f4nio de Gloria (Paulo Afonso), na Bahia.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, muitos cangaceiros n\u00e3o gostaram dessa novidade porque consideravam que a pr\u00e1tica do sexo e o conv\u00edvio com a mulher enfraquecia e amolecia o homem nos embates com a volantes nos sert\u00f5es das caatingas. Alguns compadres chegaram a fazer advert\u00eancias ao chefe.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico e antrop\u00f3logo estudioso do assunto, Est\u00e1cio de Lima, abre um cap\u00edtulo em seu livro \u201cO Mundo Estranho dos Cangaceiros\u201d sobre a participa\u00e7\u00e3o das mulheres no canga\u00e7o. Na \u00e9poca, in\u00edcio dos anos 40, ele era presidente do Conselho Penitenci\u00e1rio da Bahia e penetrou bastante nesta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, especialmente no Nordeste, o n\u00famero de mulheres nas penitenci\u00e1rias era m\u00ednimo em rela\u00e7\u00e3o aos homens. Com o tempo, cresceu o contingente feminino, mas ainda existe uma propor\u00e7\u00e3o bem maior de homens na criminalidade.<\/p>\n<p>De acordo com Est\u00e1cio, \u201ca mulher, aparentemente, \u00e9 menos atra\u00edda para a delinqu\u00eancia em raz\u00e3o das personalidades de sua estrutura som\u00e1tica e din\u00e2mica humoral; de uma for\u00e7a f\u00edsica menor, levando-a a maiores precau\u00e7\u00f5es; de uma educa\u00e7\u00e3o multissecular, objetivando torn\u00e1-la submissa e mais recatada; de uma sexualidade antes passiva que ativa, e isto \u00e9 da mais alta import\u00e2ncia; e n\u00e3o menos, do instinto maternal, que a \u00e0s ternuras, sob variados aspectos\u201d.<\/p>\n<p>Acontece mestre, que este quadro em geral mudou muito com as lutas femininas na busca por igualdade social e de g\u00eanero. A \u00a0mulher n\u00e3o \u00e9 mais hoje aquela passiva e submissa de antigamente. Passou a buscar suas conquistas na sociedade, se bem que a criminalidade continua predominando mais entre os homens.<\/p>\n<p>No reino das caatingas, segundo Est\u00e1cio, \u201cn\u00e3o encontramos, todavia, as mulheres nem mais cru\u00e9is, nem mais inconsequentes ou corruptas, embora experimentassem as viv\u00eancias fundamentais dos companheiros. O caboclo, escravo da terra e escravizado por seus \u201cdonos\u201d, encontra, na companheira, solidariedade e compreens\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ele destaca que no pa\u00eds dos vaqueiros, dos jagun\u00e7os, dos camponeses muito pobres e retirantes, a mulher n\u00e3o costuma viver parasitariamente. Ela maneja o arado, a enxada e sepulta as sementes com firmeza na dura nesga de terra.<\/p>\n<p>Apesar de atingida pela sociedade, maltratada pelo clima e aniquilada pela fome, a propens\u00e3o para o crime era menor. Mesmo assim, enfrentou de forma destemida as volantes, sugerindo medidas, discutindo e decidindo nas horas dif\u00edceis.<\/p>\n<p>RAINHA E PRINCESA<\/p>\n<p>Est\u00e1cio descreve as mulheres no canga\u00e7o, destacando Maria Bonita, de Lampi\u00e3o, e Dad\u00e1 (a S\u00e9rgia), de Curisco. A primeira como rainha e a segunda como princesa, diferente, que pegou em armas, lutando ao lado do marido, mesmo quando ele teve os bra\u00e7os esbaga\u00e7ados por metralhadoras num enfrentamento.<\/p>\n<p>Sobre Maria Bonita, o autor da obra afirma que jamais poderia ser considerada uma cangaceira, mas foi a figura feminina primordial do grupo. Portava somente armas curtas e dava um ou outro tiro nas brigadas. N\u00e3o fugia da li\u00e7a. Teve seis ou sete filhos, mas s\u00f3 uma crian\u00e7a sobreviveu.<\/p>\n<p>A D\u00e9a, depois que se separou do marido sapateiro Jos\u00e9, passou a ser chamada de Maria Bonita e nunca mais quis um destino diferente. N\u00e3o se sabe se ambos eram fi\u00e9is, mas ela, sem d\u00favida. Virgulino sempre falava que era agrad\u00e1vel \u201ccobrir uma f\u00eamea\u201d.\u00a0\u00a0 Existiram boatos de um certo namorico de Maria com Luiz Pedro, \u201cmas \u00e9 uma gritante inverdade\u201d.<\/p>\n<p>O FIM MACABRO DE L\u00cdDIA<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo descreve as personalidades de v\u00e1rias mulheres do bando, como da L\u00eddia, a Desd\u00eamona, mulher de Z\u00e9 Baiano, caso principal e tr\u00e1gico. Z\u00e9 Baiano era um negro feio, alto, forte, valente, malvado e ferrava em brasa as mulheres que ele achava que deviam merecer castigo.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Baiano apaixonou-se por L\u00eddia, fogosa, moderna, jeitosa, sapeca e linda de corpo. Encontrou-a em Paripiranga e roubou a mo\u00e7a. Dizem que ela gostava de deixar os seios um bocado para se ver, com casacos folgados.<\/p>\n<p>Com todas aquelas provoca\u00e7\u00f5es, namorou o Bem-te-viu, um tanto meloso e derretido. O Besouro, um cangaceiro ordin\u00e1rio, vivia paquerando a L\u00eddia. Certo dia, ele ouviu o mato estalar a certa dist\u00e2ncia e tamb\u00e9m \u201cum ronco de on\u00e7a comendo bezerro\u201d.<\/p>\n<p>Besouro aproximou-se como um felino e viu a mo\u00e7a agarrada ao Bem-te-viu. Disse que tamb\u00e9m queria. L\u00eddia se recusou e ele amea\u00e7ou contar tudo a Z\u00e9 Baiano. Percebendo o perigo, Bem-te-viu fugiu.<\/p>\n<p>Na vista de todos, inclusive na presen\u00e7a do chefe-capit\u00e3o, Besouro contou tudo. L\u00eddia era corajosa e sustentou todo acontecido e ainda da chantagem de Besouro que queria lhe comer. \u201cSe tenho de morrer que morra logo, mas esse cabra safado n\u00e3o me come\u201d.<\/p>\n<p>Ao ouvir tudo, Lampi\u00e3o pulou de onde estava como um acrobata e abriu com uma foice, em duas metades, a cabe\u00e7a do delator. Por sua vez, Z\u00e9 Baiano decretou o fim de L\u00eddia. Lampi\u00e3o n\u00e3o interviu por achar que a mo\u00e7a era propriedade do preto e tinha todos direitos sobre ela. O c\u00f3digo das caatingas era inflex\u00edvel.<\/p>\n<p>Com suas garras brutais, Z\u00e9 Baiano matou a formosa L\u00eddia com cacete. Foi um espet\u00e1culo macabro, com pancadas est\u00fapidas, arrasadoras que esmagaram a cabe\u00e7a da mo\u00e7a. O Bem-te-viu conseguiu escapulir para as bandas de Alagoas.<\/p>\n<p>O Z\u00e9 Baiano ficou ainda mais selvagem, mas teve um triste fim. Conheceu a filha do coiteiro Ant\u00f4nio da Chiquinha que n\u00e3o aprovou a uni\u00e3o, mas n\u00e3o podia fazer muita coisa. No entanto, ajudado por camaradas, pegou Z\u00e9 Baiano e seu grupo dormindo e a todos degolou a machado e a foice.<\/p>\n<p>Os jornais noticiaram que \u201co ferrador das mulheres morre por causa de um rabo de saia\u201d. No entanto, os sebastianistas acreditaram que Z\u00e9 Baiano houvesse escapado para S\u00e3o Paulo. Ant\u00f4nio da Chiquinha foi morar em Salvador e se tornou camel\u00f4 em \u00c1gua de Meninos.<\/p>\n<p>DAD\u00c1, A GUERREIRA<\/p>\n<p>Quanto a guerreira princesa Dad\u00e1 (S\u00e9rgia Ribeira da Silva), criada em Gl\u00f3ria (Bahia), mas nascida em Bel\u00e9m, Pernambuco, tinha personalidade mais incisiva e era uma grande combatente ao lado do seu marido Cristino Gomes da Silva, o Curisco, ou Diabo Loiro. N\u00e3o teve a mesma fama de Maria Bonita, mas bem que merecia mais que a rainha.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Maria Bonita e Dad\u00e1, ainda estiveram no canga\u00e7o, a Nenem, que pertencia a Luiz Pedro, que morreu baleada num combate que se feriu em Mucambo, perto do Rio S\u00e3o Francisco; Mo\u00e7a, mulher de Cirilo, que sabia atirar de fuzil; Ot\u00edlia, muito alegre e companheira de Mariano; Durvalina, amante de V\u00edrginio, cunhado de Lampi\u00e3o e um dos cangaceiros mais temidos; Cila (Ismerilda), bonita e letrada, sabia ler e escrever, que foi mulher de Z\u00e9 Sereno; Inacinha, mulher de Gato; \u00c1urea que pertencia ao cangaceiro Manuel Moreno; Maria dos Santos que acompanhou Labareda por mais de 10 anos; Enedina pertencente a Jos\u00e9 Juli\u00e3o; Cristina, mulher de Portugu\u00eas, bandoleiro que mal conhecia Portugal; Dulce, mulher de Crian\u00e7a; Ver\u00f4nica, mulher de Beija-Flor; e Lili, companheira de Moita Brava que levou seis tiros do marido por suposta trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somente no final dos anos 20, quando Lampi\u00e3o fugiu de Pernambuco para a Bahia, foi que as mulheres come\u00e7aram a entrar no canga\u00e7o, com Maria D\u00e9a, ou Maria Bonita, nascida em Santo Ant\u00f4nio de Gloria (Paulo Afonso), na Bahia. 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