{"id":11624,"date":"2026-02-20T23:57:30","date_gmt":"2026-02-21T02:57:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11624"},"modified":"2026-02-20T23:57:43","modified_gmt":"2026-02-21T02:57:43","slug":"o-mundo-estranho-dos-cangaceiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/02\/20\/o-mundo-estranho-dos-cangaceiros\/","title":{"rendered":"&#8220;O MUNDO ESTRANHO DOS CANGACEIROS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/DSC_0760.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-11625\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/DSC_0760.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/DSC_0760.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/DSC_0760-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Numa descri\u00e7\u00e3o po\u00e9tica do \u00e1rido do sert\u00e3o nordestino, o professor e escritor Est\u00e1cio Luiz Valente de Lima, em seu livro \u201cO Mundo Estranho dos Cangaceiros\u201d, coloca estes personagens como produto das agress\u00f5es mesol\u00f3gicas, do solo castigado pelas estiagens das secas repetidas, mas n\u00e3o descarta outros fatores que contribu\u00edram para o surgimento do canga\u00e7o, como a injusti\u00e7a social.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo de abertura sobre \u201cO Meio\u201d, ele diz que \u201co clima, no imp\u00e9rio dos bandoleiros, \u00e9 um clima \u00e1spero, esse mesmo que prossegue desafiando a t\u00e9cnica e a in\u00e9rcia dos nossos governos e diante do qual falazes t\u00eam sido todas as ajudas internacionais\u201d.<\/p>\n<p>Sua linguagem \u00e9 dura como o ch\u00e3o rachado pelo sol inclemente que deixa o sertanejo endurecido e o transforma, muitas vezes, numa alma cruel, ao ponto de perder as esperan\u00e7as em determinados momentos da vida.<\/p>\n<p>Com sua vis\u00e3o da poligenia nordestina, com sua multiplicidade de ra\u00e7as, o m\u00e9dico, odont\u00f3logo e presidente do Conselho Penitenci\u00e1rio da Bahia, no final dos anos 30, Est\u00e1cio de Lima penetra fundo no psicol\u00f3gico do cangaceiro ao ponto de se colocar como advogado em defesa da sua regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, como presidente do Conselho, Est\u00e1cio controlou a vida de muitos cangaceiros presos que pertenceram ao bando de Lampi\u00e3o, depois da sua morte, em 1938. A prefaciadora da sua obra, professora Maria Thereza Pacheco, relata que o mestre acompanhava seus afazeres e mantinha permanente contato com eles.<\/p>\n<p>Muitos foram trabalhar em hospitais de Salvador, na condi\u00e7\u00e3o de vigias. O lugar-tenente de Lampi\u00e3o, o \u00c2ngelo Roque, conhecido como Labareda, tornou-se porteiro do Conselho Penitenci\u00e1rio, no F\u00f3rum Ruy Barbosa. Outros tamb\u00e9m exerceram a mesma fun\u00e7\u00e3o no Instituto M\u00e9dico Legal Nina Rodrigues, como o Ben\u00edcio, chamado de Saracura.<\/p>\n<p>A professora conta que Est\u00e1cio encontrou dificuldades para indultar o cangaceiro Ant\u00f4nio dos Santos, vulgo \u201cVolta Seca\u201d, que entrou no grupo ainda crian\u00e7a, e entre os 14 e 15 anos, obedecendo ordens do capit\u00e3o, executou tr\u00eas soldados que estavam montando guarda na cadeia de Queimadas (Bahia). Foi capturado depois pela pol\u00edcia e condenado a cem anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 20 anos de pena, mesmo tendo tentado evadir-se da cadeia, Est\u00e1cio de Lima defendeu a sua liberdade, se colocando como respons\u00e1vel. Al\u00e9m de \u201cVolta Seca\u201d, o presidente do Conselho, ap\u00f3s estudos minuciosos sobre os condenados, escreveu ao presidente da Rep\u00fablica, Eurico Gaspar Dutra, solicitando o livramento condicional.<\/p>\n<p>Mesmo temeroso, o presidente aceitou o pedido, mas colocou sobre os ombros do mestre toda capacidade de responder pelos atos dos cangaceiros ent\u00e3o em liberdade. De acordo com a professora Thereza, na \u00e9poca, o fato foi noticiado com muita admira\u00e7\u00e3o ao mestre em todo Brasil.<\/p>\n<p>Ela escreveu no pref\u00e1cio que Est\u00e1cio foi um pioneiro no estudo multif\u00e1rio do cangaceirismo no Brasil. Cita que o autor do livro faz uma interessante s\u00edntese associativa entre os italianos que se rebelaram em grupos a jeito dos rebeldes como os homens do canga\u00e7o nordestino, estudando a personalidade e o meio em que viveram.<\/p>\n<p>Em sua obra, Est\u00e1cio faz tamb\u00e9m uma compara\u00e7\u00e3o com os g\u00e2ngsteres, os homens do faroeste, concluindo que eles n\u00e3o dariam jamais o cangaceiro. \u201cO meio tem sua influ\u00eancia maior\u201d. Sobre a lei para o sertanejo e o nordestino, o m\u00e9dico afirma que \u201co mais forte prosseguia, com as garantias do seu poder, e os fracos, pobres e desamparados, defender-se-iam como pudessem\u201d!<\/p>\n<p>\u201cA primeira atitude humana contra as a\u00e7\u00f5es nocivas do agressor trazia um aspecto negativo, t\u00e3o indisciplinado nas cavernas, quanto nas catingas. O revide, a pouco e pouco, \u00e9 que foi perdendo o car\u00e1ter das a\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, individuais, para tornar-se coletivo, num esbo\u00e7o de legalidade\u201d- destaca o autor.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, o elemento tel\u00farico explica, em parte, o cangaceiro brutal e cruel como a seca. O cangaceiro, segundo Est\u00e1cio, \u201cpossui assim, aquelas caracter\u00edsticas do homem das cavernas&#8230;\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa descri\u00e7\u00e3o po\u00e9tica do \u00e1rido do sert\u00e3o nordestino, o professor e escritor Est\u00e1cio Luiz Valente de Lima, em seu livro \u201cO Mundo Estranho dos Cangaceiros\u201d, coloca estes personagens como produto das agress\u00f5es mesol\u00f3gicas, do solo castigado pelas estiagens das secas repetidas, mas n\u00e3o descarta outros fatores que contribu\u00edram para o surgimento do canga\u00e7o, como a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11624"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11624"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11624\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11626,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11624\/revisions\/11626"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}