{"id":11608,"date":"2026-02-16T21:47:36","date_gmt":"2026-02-17T00:47:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11608"},"modified":"2026-02-16T21:47:46","modified_gmt":"2026-02-17T00:47:46","slug":"o-carnaval-que-passou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/02\/16\/o-carnaval-que-passou\/","title":{"rendered":"O CARNAVAL QUE PASSOU"},"content":{"rendered":"<p>Na suadeira do carnaval entro com minha fantasia de exclu\u00eddo de pano encardido, no peito escrito \u201cFora a Corrup\u00e7\u00e3o\u201d e nas costas os dizeres \u201cPor Justi\u00e7a e Igualdade Social\u201d. Na m\u00e3o carrego um cartaz que fala do carnaval que passou.<\/p>\n<p>Sou um velho solit\u00e1rio no meio da multid\u00e3o. A grande maioria nem viu a minha passagem. Muitos acharam meu traje engra\u00e7ado e s\u00f3 poucos entenderam minha mensagem. Fui at\u00e9 alvo de algumas fotos feitas por uns gringos que acham tudo ex\u00f3tico e pulam com aquele jeito desengon\u00e7ado, com o sotaque de que o Brasil e a Bahia s\u00e3o maravilhosos. Ali\u00e1s, tudo \u00e9 maravilhoso!<\/p>\n<p>No Pelourinho, no Terreiro de Jesus e na Pra\u00e7a da S\u00e9 ainda vejo algumas bandas tradicionais de samba e pagode. O Olodum faz aquele barulho ensurdecedor com seus tambores. No palco, algumas m\u00fasicas que lembram o carnaval que passou. A partir da Rua Chile, o cen\u00e1rio vai mudando e a Pra\u00e7a do Poeta Castro Alves n\u00e3o \u00e9 mais do povo como o c\u00e9u \u00e9 do condor.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais Dod\u00f4 e Osmar na f\u00f3bica com Armandinho, Morais Moreira, Luiz Caldas, Caetano, Gil, o aut\u00eantico Trio Tapaj\u00f3s, os blocos sem corda (Os Internacionais, Jacu) e os amigos no Clube de Engenharia tocando viol\u00e3o, confabulando ideias e enchendo a cara e a cuca com lan\u00e7a perfume.<\/p>\n<p>Procurei em v\u00e3o a Colombina e o Pierr\u00f4. N\u00e3o mais aquelas marchinhas de carnaval, \u201c\u00d4 Abre Alas, que Eu Quero Passar\u201d&#8230; (a mais antiga de Chiquinha Gonzaga); \u201cMam\u00e3e eu Quero, Mam\u00e3e eu Quero, Mam\u00e3e eu Quero Mamar&#8230;\u201d; \u201cAurora, O\u00f4\u00f4\u00f4, Aurora\u201d; \u201cVoc\u00ea Pensa que Cacha\u00e7a \u00e9 \u00c1gua\u201d&#8230;; \u201cChegou a Turma do Funil\u201d&#8230;; \u201cMe d\u00e1 um Dinheiro A\u00ed, Ei, voc\u00ea a\u00ed, me d\u00e1 um dinheiro a\u00ed&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Cad\u00ea as fam\u00edlias com seus idosos, mulheres e crian\u00e7as sentadas em suas cadeiras nas cal\u00e7adas da Avenida Sete de Setembro para ver os cord\u00f5es e as marchinhas passarem? Das janelas n\u00e3o mais confetes de papel (eram os camarotes). Todos brincavam em clima fraternal, sem viol\u00eancia e empurr\u00f5es. As bandas eram um sucesso juntamente com os blocos de \u00edndios e os afros.<\/p>\n<p>Por falar nisso, o carnaval tem suas ra\u00edzes hist\u00f3ricas no per\u00edodo colonial, tornando-se uma festa altamente lucrativa a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX, nos anos 80 e 90. O entrudo era praticado pelos escravos que saiam pelas ruas com seus rostos pintados, jogando farinha e bolinhas de \u00e1gua de cheiro nas pessoas.<\/p>\n<p>Foram-se as guerras de cascas de ovos, de milho e feij\u00e3o. Haviam at\u00e9 vassouradas e colheradas de pau, mas tudo s\u00e3o coisas de outrora, no carnaval que passou, que era bem mais inclusivo. Tudo se tornou lucrativo, e a festa num com\u00e9rcio concentrador de renda onde o rico fica mais rico e o pobre mais pobre.<\/p>\n<p>Do Campo Grande desci at\u00e9 a Barra, Barra Avenida e Ondina. Nesse circuito maluco, barulhento e infernal de trios el\u00e9tricos, que n\u00e3o s\u00e3o mais trios, e sim bandas de cantores com m\u00fasicas de letras lixo de uma s\u00f3 estrofe repetitiva, foi onde senti a saudade bater mais forte no cora\u00e7\u00e3o daquele carnaval que passou.<\/p>\n<p>Uma tremenda loucura, meu camarada! Coisa de doido! Fui trucidado pelo empurra-empurra dos \u201cpipocas\u201d e l\u00e1 se foram minha pobre fantasia e meu cartaz. A camisa em formato de abad\u00e1 foi rasgada. As frases perderam o sentido. Ningu\u00e9m est\u00e1 ali para ouvir ou ler protestos! Basta o circo!<\/p>\n<p>Para n\u00e3o ser esmagado, encostei num canto de um barraqueiro e o senhor e a mulher com seus filhos pequenos nem me viram. O suor caia de seus rostos de tanto andar de l\u00e1 para c\u00e1 para atender a turba. Sempre atentos para n\u00e3o serem passados para tr\u00e1s pela malandragem que leva a cerveja na \u201cm\u00e3o grande\u201d.<\/p>\n<p>Aquelas pessoas dormem praticamente sujos durante mais de uma semana no cimento daquelas barracas de bebidas e comidas para no final ganhar uns m\u00edseros trocados. De l\u00e1 debaixo do asfalto espiei aqueles camarotes de luxo frequentados por ricos, celebridades e famosos. Muito conforto, curti\u00e7\u00f5es e bacanais. Os \u201ctrios\u201d berram na frente deles na disputa para ver quem mais ganha. Todo conjunto comp\u00f5e o palco das desigualdades sociais. \u00c9 tudo misturado e separado.<\/p>\n<p>Sem for\u00e7as para prosseguir, aos poucos fui me desviando das brigas, dos furtos de celulares e dos soldados embrutecidos metendo o cassete nos \u201carrastas chinelos\u201d. O \u201cpau comeu\u201d, enquanto os \u201cpuxadores\u201d das muvucas gritavam em tom de ordem para todos tirarem o p\u00e9 do ch\u00e3o. Os s\u00faditos obedeciam no rebolado dos passinhos com as m\u00e3os para o alto.<\/p>\n<p>Fui cortando em meio \u00e0 aquela parafern\u00e1lia para sair l\u00e1 pelo Rio Vermelho. No roteiro vi a banda \u201cBaiana Systen\u201d, que prega o antirracismo, tocando no camarote Premium, o mais luxuoso que invadiu terrenos na praia com enormes tapumes.<\/p>\n<p>A m\u00eddia joga toda sujeira e a viol\u00eancia debaixo do tapete. Os pol\u00edticos, l\u00e1 do alto de seus camarotes, s\u00e3o ovacionados pelos m\u00fasicos que dizem que tudo \u00e9 de gra\u00e7a. Todos acreditam. Tudo se inverteu. Foi-se o carnaval que passou. Agora \u00e9 s\u00f3 deles, dos poderosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na suadeira do carnaval entro com minha fantasia de exclu\u00eddo de pano encardido, no peito escrito \u201cFora a Corrup\u00e7\u00e3o\u201d e nas costas os dizeres \u201cPor Justi\u00e7a e Igualdade Social\u201d. 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