{"id":11584,"date":"2026-02-06T23:18:10","date_gmt":"2026-02-07T02:18:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11584"},"modified":"2026-02-06T23:18:57","modified_gmt":"2026-02-07T02:18:57","slug":"as-crendices-nordestinas-que-regiam-a-vida-dos-cangaceiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/02\/06\/as-crendices-nordestinas-que-regiam-a-vida-dos-cangaceiros\/","title":{"rendered":"AS CRENDICES NORDESTINAS QUE REGIAM A VIDA DOS CANGACEIROS"},"content":{"rendered":"<p>Pelo seu pr\u00f3prio misticismo secular religioso, o Nordeste sempre foi uma regi\u00e3o pr\u00f3diga em cren\u00e7as e supersti\u00e7\u00f5es populares. Essas crendices regiam a vida dos cangaceiros desde os epis\u00f3dios e sinais mais comezinhos da natureza, incluindo a fauna e a flora.<\/p>\n<p>A professora e escritora Marilourdes Ferraz, em sua obra \u201cO Canto do Acau\u00e3\u201d comenta que \u201cao trilhar uma certa rota, os cangaceiros retornavam imediatamente por outro caminho se uma acau\u00e3, ou aco\u00e3, como o chamavam, cruzasse os c\u00e9us sobre suas cabe\u00e7as com o canto caracter\u00edstico do agouro\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo havendo necessidade de uma viagem para atacar o inimigo ou resolver algum neg\u00f3cio, eles desistiam do intento se entre as dezoito horas e as vinte e duas horas da noite anterior ouvissem o canto do galo.<\/p>\n<p>As primeiras segundas-feiras do m\u00eas de agosto eram dias em que evitam fazer encontros com as for\u00e7as das volantes. Para eles, eram dias considerados aziagos, no seu linguajar \u201cdias e \u00e1guas\u201d. No entanto, quando ocorria por acaso, n\u00e3o tinha jeito, todos entravam na luta.<\/p>\n<p>Quando um cangaceiro estava deitado no ch\u00e3o, o outro n\u00e3o passava por cima do seu corpo ou das suas pernas sob pena de haver feroz briga devido ao \u201cengui\u00e7o\u201d causado. Tinha que haver o \u201cdesengui\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Outra crendice consistia em n\u00e3o se dar passadas por cima dos cal\u00e7ados, nem de armas devido a \u201catrasos\u201d na vida que isso poderia causar. N\u00e3o conduziam o rifle ou fuzil atravessado \u00e0s costas, formando uma cruz, por ser um mau press\u00e1gio. A cruz tem um simbolismo relacionado com a morte.<\/p>\n<p>Os cangaceiros desistiam de uma viagem se os sabi\u00e1s se reunissem agitados junto ao grupo. Essas crendices tamb\u00e9m se estendiam \u00e0s volantes e aos sertanejos em geral. Quando passavam pr\u00f3ximo a uma cruz, todos se benziam para que seus corpos continuassem \u201cfechados\u201d. De um modo geral, as pessoas crist\u00e3s, ou mesmo n\u00e3o religiosas, praticam esse h\u00e1bito e ainda fazem posi\u00e7\u00f5es de reverencia.<\/p>\n<p>A condu\u00e7\u00e3o, junto ao corpo, de espelhos ou alpercatas atraiam balas. Se um cachorro uivasse em redor da casa ou se as corujas cacarejassem na comieira, esses sinais eram interpretados como \u201cmau agouro\u201d. Pedregulhos correndo nas telhas e gado mugindo \u00e0 noite indicavam que alguma pessoa da fam\u00edlia iria morrer.<\/p>\n<p>Pela supersti\u00e7\u00e3o, sentar \u00e0 porta tornava o corpo \u201caberto\u201d, isto \u00e9, vulner\u00e1vel a ferimentos. Matar uma cobra era o mesmo que atrair balas. Os uivos de raposas eram agourentas e tornavam as pessoas cismadas. Os of\u00edcios de Nossa Senhora deviam ser assistidos de joelhos. Os que assistiam em p\u00e9 n\u00e3o teriam sucesso em suas atividades.<\/p>\n<p>Lampi\u00e3o tinha seus artif\u00edcios para se livrar de emboscadas e provocar o despistamento. Muitas vezes, em viagem, ele tirava o chap\u00e9u e colocava-o no ombro. \u00c0s vezes apanhava um ramo verde de \u00e1rvore e cruzava-o no caminho. Depois dava ordem para que todos se dispersassem e se encontrassem em outro local, ou mudava de rota.<\/p>\n<p>Essas crendices e supersti\u00e7\u00f5es n\u00e3o estavam somente ligadas aos cangaceiros, mas aos nordestinos em geral. Muitas dessas cren\u00e7as permanecem em nossas mem\u00f3rias e se arrastam pelo tempo, especialmente entre as velhas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando menino, lembro que meus pais e os antigos respeitavam determinados cren\u00e7as que foram adquiridas de seus antepassados e ancestrais, sobretudo aquelas ligadas \u00e0 religiosidade. O ter\u00e7o, por exemplo, tinha que ser rezado de joelhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo seu pr\u00f3prio misticismo secular religioso, o Nordeste sempre foi uma regi\u00e3o pr\u00f3diga em cren\u00e7as e supersti\u00e7\u00f5es populares. Essas crendices regiam a vida dos cangaceiros desde os epis\u00f3dios e sinais mais comezinhos da natureza, incluindo a fauna e a flora. 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