{"id":11503,"date":"2026-01-19T21:59:22","date_gmt":"2026-01-20T00:59:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11503"},"modified":"2026-01-19T22:13:35","modified_gmt":"2026-01-20T01:13:35","slug":"sonhos-de-tesouros-enterrados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/01\/19\/sonhos-de-tesouros-enterrados\/","title":{"rendered":"SONHOS DE TESOUROS ENTERRADOS"},"content":{"rendered":"<p>Antigamente os mais velhos contavam hist\u00f3rias e est\u00f3rias de pessoas do sert\u00e3o nordestino e de outros cantos que em vida enterravam moedas e at\u00e9 tesouros em botijas (joias, ouro, objetos valiosos) sempre em torno de uma grande \u00e1rvore (umbuzeiro, juazeiro, gameleira, faveleira, angico, aroeira, barriguda), pr\u00f3ximo a cacimbas, a\u00e7udes ou em algum ponto estrat\u00e9gico das fazendas.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca do dinheiro no colch\u00e3o (muito manjado), ainda nos tempos do Brasil col\u00f4nia e do imp\u00e9rio, n\u00e3o existiam bancos e o recurso era guardar suas economias dentro das casas (na comieira) ou enterrar debaixo do ch\u00e3o. Quem mais utilizava dessa pr\u00e1tica eram os avarentos e os chamados \u201cm\u00e3o de vaca\u201d usur\u00e1rios.<\/p>\n<p>Estava imaginando que na era do canga\u00e7o, principalmente nas duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, muitos coron\u00e9is e usineiros devem ter enterrado seus tesouros em algum lugar para n\u00e3o cair nas m\u00e3os dos bandoleiros. N\u00e3o vou revelar quem, mas cochicharam em meu ouvido que existe um tesouro enterrado aqui na Serra do Periperi, inclusive com o prov\u00e1vel local.<\/p>\n<p>O Nordeste deve ser um \u201ctesouro\u201d. \u00c9 s\u00f3 sonhar, seguir o mapa e fechar o corpo para se proteger das almas penadas. Meu amigo Beto Veronezzi sabe de todos os truques. Sua consulta \u00e9 cara, mas vale a pena.<\/p>\n<p>Lembro que meus pais contavam esses causos em rodas de conversas com seus compadres, na luz do fif\u00f3 do candeeiro, tomando bules de caf\u00e9, mas a parte que nos dava mais medo como crian\u00e7as, era a dos sonhos que outros (parentes da fam\u00edlia, amigos e os felizardos medi\u00fanicos) tinham sobre os lugares onde esses tesouros estavam enterrados.<\/p>\n<p>A noite avan\u00e7ava enquanto o medo aumentava nos suspenses quando vinha o lado das assombra\u00e7\u00f5es e a coragem de quem se atrevia arrancar o tesouro. A gente era muito pobre e eu ia dormir pensando naquelas prosas do outro mundo e com receio de sonhar com alguma alma de tesouro. Quando via uma \u00e1rvore grande no terreno, imaginava logo que ali poderia ter um tesouro enterrado, sobretudo quando era oca.<\/p>\n<p>Contam as lendas que o sonhador para conseguir desenterrar o tesouro tinha que fazer pactos, rituais, mandingas de corpo fechado, rezas fortes com as almas penadas ou esp\u00edritos que vinham do al\u00e9m, para ter a permiss\u00e3o de ficar com a riqueza. As assombra\u00e7\u00f5es me davam arrepios, mas n\u00e3o deixava de escutar tudo calado.<\/p>\n<p>Em vidas, as pessoas nunca revelavam onde esconderam suas riquezas. As hist\u00f3rias s\u00e3o baseadas em cren\u00e7as populares que unem cobi\u00e7a, f\u00e9 e misticismo. N\u00e3o era f\u00e1cil desenterrar o tesouro perdido, e o interessado ou interessada tinha que ter muita coragem para enfrentar as assombra\u00e7\u00f5es da meia noite.<\/p>\n<p>Na dura peleja de ficar rico com o tesouro, existiam v\u00e1rios pactos e rituais, como a Ora\u00e7\u00e3o das Almas Penadas que consistia em rezar um determinado n\u00famero de ave-marias, especialmente nas sextas-feiras ou de madrugada, pedindo a exata localiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros faziam promessas em troca da revela\u00e7\u00e3o, como realizar missas em nome da alma. O vig\u00e1rio j\u00e1 ficava desconfiado quando algu\u00e9m pedia uma missa para algu\u00e9m distante. Em troca ela indicaria o lugar em sonhos ou atrav\u00e9s de sinais.<\/p>\n<p>Meu pai narrava que durante a escava\u00e7\u00e3o, geralmente a alma aparecia de forma assustadora para testar a coragem do buscador. N\u00e3o poderia ter medo e manter sil\u00eancio absoluto at\u00e9 a retirada da \u00faltima moeda ou objeto. A alma fazia o vento soprar forte, jogava pedras, paus e a vegeta\u00e7\u00e3o balan\u00e7ava toda em torno do tesouro.<\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio popular existia o ouro encantado pela m\u00e3e do ouro ou pelos esp\u00edritos. O pacto era necess\u00e1rio para desencantar. Muitas dessas lendas v\u00eam dos tempos dos escravos ou das guerras onde riquezas eram enterradas para prote\u00e7\u00e3o contra ladr\u00f5es.<\/p>\n<p>De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o, se o pacto for quebrado, se falar para algu\u00e9m, ou sentir medo, a alma desapareceria com o tesouro, ou afundaria ainda mais na terra. Os relatos misturavam ora\u00e7\u00f5es crist\u00e3s com cren\u00e7as de assombra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No folclore brasileiro, tinha ainda o pacto do corpo fechado, associado ao Livro de S\u00e3o Cipriano. Havia o pacto com o diabo\/demo para encontrar a riqueza perdida. Para o indiv\u00edduo ficar invulner\u00e1vel a perigos f\u00edsicos ou espirituais, era obrigado a fechar o corpo no pacto de sangue com a alma enquanto realizava o trabalho de desenterrar a botija.<\/p>\n<p>Se for premiado, a pessoa entrega a alma ap\u00f3s a morte. Se descumprir com os pactos ou rituais, fica com o corpo seco, ou \u00e9 amaldi\u00e7oado para sempre. Nesses tempos dif\u00edceis, onde o dinheiro est\u00e1 escasso, muita gente se arriscaria a desenterrar esses tesouros e entregar a alma ao satan\u00e1s. Ali\u00e1s, essa pr\u00e1tica j\u00e1 \u00e9 feita quando se vende a alma ao capitalismo, quando corrompe e se deixa corromper.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antigamente os mais velhos contavam hist\u00f3rias e est\u00f3rias de pessoas do sert\u00e3o nordestino e de outros cantos que em vida enterravam moedas e at\u00e9 tesouros em botijas (joias, ouro, objetos valiosos) sempre em torno de uma grande \u00e1rvore (umbuzeiro, juazeiro, gameleira, faveleira, angico, aroeira, barriguda), pr\u00f3ximo a cacimbas, a\u00e7udes ou em algum ponto estrat\u00e9gico das [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11503"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11503"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11503\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11506,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11503\/revisions\/11506"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}