{"id":11495,"date":"2026-01-16T23:26:55","date_gmt":"2026-01-17T02:26:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=11495"},"modified":"2026-01-16T23:27:05","modified_gmt":"2026-01-17T02:27:05","slug":"nazarenos-contra-os-cangaceiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2026\/01\/16\/nazarenos-contra-os-cangaceiros\/","title":{"rendered":"NAZARENOS CONTRA OS CANGACEIROS"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA FOR\u00c7A DE NAZAR\u00c9\/\u00c9 VALENTE E TEM A\u00c7\u00c3O\/ANOITECE E AMANHECE\/ NO RSTRO DE LAMPI\u00c3O\u201d<\/p>\n<p>Em pleno sert\u00e3o pernambucano, na regi\u00e3o do Paje\u00fa, com uma popula\u00e7\u00e3o pacata e simples, v\u00e1rias vilas e povoados come\u00e7aram a prosperar no com\u00e9rcio e na agricultura nos primeiros anos de 1900 do s\u00e9culo passado, principalmente l\u00e1 pelos meados da segunda d\u00e9cada, mas come\u00e7aram a ser fustigados pelos cangaceiros. No vale as terras eram mais f\u00e9rteis.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do S\u00e3o Francisco, a vila de Nazar\u00e9, nas proximidades da Vila Bela (Serra Talhada) e Floresta, foi um dos destaques dessa prosperidade e tamb\u00e9m de resist\u00eancia e bravura contra o banditismo, exemplo de que a uni\u00e3o faz a for\u00e7a. Atrav\u00e9s da fam\u00edlia Ferraz Flor, os sertanejos se armaram para defender a vila.<\/p>\n<p>Como em Mossor\u00f3, no Rio Grande do Norte, onde Lampi\u00e3o e seu bando foram impedidos, em 1926, de tomar a cidade, o rei do canga\u00e7o tamb\u00e9m encontrou barreiras para dominar a vila que sempre foi visada pelos irm\u00e3os Ferreiras (Virgulino, Ezequiel, Livino e Ant\u00f4nio).<\/p>\n<p>Quem conta esta hist\u00f3ria \u00e9pica dos sert\u00f5es dos tempos do cangaceirismo dos anos 20, com auge em 1926\/27, como destaca o historiador Frederico Pernambucano de Melo, \u00e9 a escritora e professora Marilourdes Ferraz em sua obra \u201cO Canto do Acau\u00e3\u201d, uma ave de canto agourento do Nordeste m\u00edstico.<\/p>\n<p>Em sua narrativa, baseada em testemunhas e, sobretudo, nas mem\u00f3rias do seu pai Manoel Ferraz Flor, que chegou a ser coronel das volantes, ela pinta os irm\u00e3os Ferreiras como encrenqueiros e que Lampi\u00e3o come\u00e7ou a provocar os nazarenos com furtos e roubos e, como foi revidado, por vingan\u00e7a passou a atacar a vila constantemente.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou quando a fam\u00edlia Ferreira se mudou para Nazar\u00e9 vindo do Po\u00e7o Negro por causa das intrigas e tiroteios de morte contra Jos\u00e9 Saturnino Borges, isto num acordo de se acabar de vez com as desaven\u00e7as. Seus pais foram depois morar em \u00c1gua Branca (Alagoas), mas os irm\u00e3os voltaram para infernizar a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Marilourdes faz uma imagem positiva das volantes como homens corajosos e her\u00f3is, apesar das defici\u00eancias em termos de recursos materiais e humanos. No entanto, o que se ouve era que muitos combatentes se davam \u00e0 viol\u00eancia, inclusive contra as mulheres.<\/p>\n<p>Existe fundo de verdade nisso e muitos soldados torturavam sertanejos para confessar o paradeiro dos cangaceiros. Por sua vez, as pessoas de bem temiam as repres\u00e1lias e ficavam caladas, como ocorre nos tempos atuais nas favelas das grandes cidades.<\/p>\n<p>Os militares entram derrubando portas de moradores com suas botinas, como se todos fossem bandidos. No tempo do canga\u00e7o, nem todos eram cangaceiros. A maioria era gente ordeira que s\u00f3 queria trabalhar sossegada para sobreviver \u00e0s adversidades das secas. Ficavam entre a cruz e a espada, ou seja, as estiagens e os bandoleiros.<\/p>\n<p>ALISTAMENTO DOS CIVIS<\/p>\n<p>Segundo ela, a situa\u00e7\u00e3o ficou t\u00e3o cr\u00edtica que os moradores de Nazar\u00e9 se armaram e muitos se alistaram nas for\u00e7as das volantes para combater os bandoleiros, como naqueles filmes de faroeste, mas Lampi\u00e3o n\u00e3o desistia e sempre estava armando suas ciladas e emboscadas, especialmente nos anos 20.<\/p>\n<p>Marilourdes narra v\u00e1rias escaramu\u00e7as e diz que Lampi\u00e3o passou a ser perseguido quando se encontrava pr\u00f3ximo entre Serra Talhada e Floresta, tudo para evitar sua entrada em Nazar\u00e9 que se tornou uma fortaleza. Faz lembrar daqueles povoados mexicanos lutando de dentro de suas casas contra os bandidos do Oeste, do outro lado da fronteira.<\/p>\n<p>A escritora descreve em seu livro v\u00e1rias batalhas, como a de novembro de 1925 quando Lampi\u00e3o se encontrava na fazenda Cip\u00f3, \u00e0s margens do riacho S\u00e3o Domingos, em Serra Talhada e rumava para a Serra dos Pereiros. Prontamente Jo\u00e3o Ferraz, Manoel Flor e outros se prepararam para dar buscas aos bandidos. Houve um tiroteio sangrento num campo de algodoal que correu muito sangue.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cAlistamento no Sert\u00e3o\u201d ela fala das dificuldades de enfrentar os cangaceiros, n\u00e3o somente Lampi\u00e3o, naquelas caatingas \u00edngremes. Foi a\u00ed que o comerciante a agricultor Jo\u00e3o Flor teve a ideia de solicitar ao coronel paraibano Jos\u00e9 Pereira, da cidade Princesa Isabel, o alistamento dos civis.<\/p>\n<p>PED\u00c1GIO E SEQUESTRO<\/p>\n<p>Ferraz cita o cangaceiro Jos\u00e9 Gomes, o Palmeira, que se incumbia da tarefa de exterm\u00ednio, colocando o povo em p\u00e2nico (muitos fugiam de suas casas). Com o mesmo modus operandi dos traficantes e milicianos urbanos das favelas, os cangaceiros extorquiam os propriet\u00e1rios e obrigavam a pagar um ped\u00e1gio de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Esse Jos\u00e9 Gomes chegava na resid\u00eancia ou numa casa comercial com um rifle papo-amarelo na horizontal \u00e0 altura do pesco\u00e7o, configurando uma cruz, com os bra\u00e7os estendidos para prender o coice da arma com a m\u00e3o direita e o cano com a esquerda. \u201cEle era o prot\u00f3tipo do cangaceiro representado nestes versos: \u201cEu sou cabra ignorante\/ S\u00f3 aprendo a matar\/Fazer a ponta da faca\/Limpar rifle e disparar\/ S\u00f3 sei fazer pontaria\/ E ver o cabra embolar\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com a escritora, Lampi\u00e3o foi o primeiro cangaceiro, na hist\u00f3ria do Nordeste e talvez do Brasil, a inventar o sequestro de resgate de fazendeiros e comerciantes ricos. Ela relata, com sua linguagem simples e atrativa, numa conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, a invas\u00e3o de Sousa (Para\u00edba) por Livino Ferreira e seu bando.<\/p>\n<p>Nesse epis\u00f3dio foi sequestrado o magistrado da cidade e seu resgate foi pago. O fato ocorreu em julho de 1924. Depois o bando atravessou a fronteira de Pernambuco. Para perseguir os bandoleiros, o major Te\u00f3fanes Torres (foi ele quem prendeu o cangaceiro Ant\u00f4nio Silvino) assumiu o comando.<\/p>\n<p>Sob suas ordens estavam muitos nazarenos, como Odilon Flor. Manoel e Euclides Flor, Jo\u00e3o Domingos Ferraz, dentre outros. Nessa empreitada teve o refor\u00e7o do valent\u00e3o Clementino \u201cQuel\u00e9\u201d que em 1922 cometeu um, homic\u00eddio e entrou no grupo de Lampi\u00e3o.<\/p>\n<p>Durou pouco tempo no bando por causa de diverg\u00eancias, inclusive com o \u201cMeia-Noite\u201d, o homem de confian\u00e7a de Virgulino. Na retirada disse que n\u00e3o passasse em seu s\u00edtio, mas a ordem foi desobedecida e \u201cQuel\u00e8\u201d foi cercado em sua casa. Recebeu o socorro do destacamento de Triunfo. Perdeu dois irm\u00e3os e se alistou na for\u00e7a volante. Diz que ele enfrentou Lampi\u00e3o e chamou para uma briga a s\u00f3s.<\/p>\n<p>No estado da Para\u00edba, as localidades de Princesa, Concei\u00e7\u00e3o, Miseric\u00f3rdia e Pianc\u00f3 eram as \u00e1reas preferidas dos cangaceiros. Muitas fam\u00edlias foram trucidadas. Nesse ano de 24\/25, foi ouvida uma can\u00e7\u00e3o cujo estribilho era assim: \u201c\u00d4 seu Virgulino?!\/ Me espere, faz fav\u00f4,\/ Pra receber o recado \/ Que seu Quel\u00e9 te mand\u00f4\u201d. Em outra diz: \u201cCanta tanta pabulage\/ Mas no pisada reb\u00eara\/Quando v\u00ea Quilimintino\/ Sai danado na carrera\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA FOR\u00c7A DE NAZAR\u00c9\/\u00c9 VALENTE E TEM A\u00c7\u00c3O\/ANOITECE E AMANHECE\/ NO RSTRO DE LAMPI\u00c3O\u201d Em pleno sert\u00e3o pernambucano, na regi\u00e3o do Paje\u00fa, com uma popula\u00e7\u00e3o pacata e simples, v\u00e1rias vilas e povoados come\u00e7aram a prosperar no com\u00e9rcio e na agricultura nos primeiros anos de 1900 do s\u00e9culo passado, principalmente l\u00e1 pelos meados da segunda d\u00e9cada, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11495"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11495"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11495\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11496,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11495\/revisions\/11496"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}